Viagem

Os Mistérios do Mestre

A Igreja do Último Testamento de Vissarion é a Única Razão Para Visitar a Sibéria

By Rocco Castoro, fotos por Jason Mojica

Vissarion (aka Sergey Anatolyevitch Torop, aka o Mestre), fundador da Igreja do Último Testamento.

Dez horas da minha primeira viagem para Rússia e peguei um trem de volta para o aeroporto. É agosto em Moscou então estou suando de uma maneira particularmente nojenta e pouco familiar desde que cheguei, e já estava ficando atrasado. Se perdesse meu voo, provavelmente não conseguiria chegar até Petropavlovka a tempo da Festa dos Bons Frutos, ou falar com o siberiano que parece Jesus e acredita ser a Palavra de Deus.

Comprei uma passagem e cheguei à plataforma com alguns minutos de sobra, tempo suficiente para achar o vagão mais vazio e pegar um assento atrás. O trem saiu com três minutos de atraso. Isso me fez sentir um pouco melhor, mas eu continuava reprimindo um ataque de pânico pela possibilidade de perder meu avião. O voo acontece uma vez por dia, e eu não conseguia nem pensar em ter que lidar com a pessoa que atende o telefone na Vladivostok Air, a maior companhia aérea da Sibéria.

Se eu não chegasse a tempo também teria que remarcar minha carona. E isso envolveria implorar para uma mulher chamada Tamriko, com quem eu só tinha me correspondido por e-mail, para convencer um membro do que muitos consideram um culto a levantar às 4 da manhã, dirigir por três horas até o Aeroporto Internacional de Abakan para pegar um estranho americano e levá-lo até a remota e profundamente religiosa comunidade de cerca de quatro mil pessoas vivendo no meio da floresta de Taiga. Em qualquer outro dia até que seria um pedido razoável, que eu até já tinha feito quando precisei remarcar por causa de um problema de última hora com meu visto. Mas se eu não estivesse na frente do balcão do aeroporto em 30 minutos, o mais cedo que eu conseguiria chegar seria em 18 de agosto. E esse é o feriado mais sagrado da Igreja do Último Testamento — o dia, duas décadas atrás, quando um patrulheiro e pintor talentoso de 29 anos chamado Sergey Anatolyevitch Torop declarou-se publicamente renascido como Vissarion. Desde então ele tem promovido uma “religião unificada” que é um vasto amálgama de cristianismo, budismo, hinduísmo, paganismo e outras crenças espirituais.

Tudo que Vissarion já disse ou pensou tem sido gravado no interminável Último Testamento, que já se espalha por dez volumes de milhares de páginas. Mais de cinco mil seguidores pelo mundo todo o consideram um tipo de messias, conhecido como “o Mestre”. Eles também acreditam que o universo teve duas origens (uma deu início à natureza, a outra à alma humana) e em algo chamado “a mente do espaço” (alienígenas, basicamente), e que o fim do mundo está perto. Ou pelo menos foi isso que eu entendi dos muitos escritos que consegui (muito porcamente) traduzir para o inglês.

No trajeto de trem, refleti sobre o turbilhão de impressões que tive de Moscou: é uma cidade principalmente cinza, um pouco marrom, e estranhamente eficiente. Sendo assim, cheguei a Vnukovo precisamente no horário e corri para o meu portão. Assim que me posicionei no fim da fila vi um letreiro neon de um bar atrás de mim. Eu esperava que tivesse tempo para tomar uma cerveja, principalmente porque era proibido onde eu estava indo. Em vez disso me distrai pensando onde eu estaria se esse fosse a porra do aeroporto JFK, e como eu tinha que tomar cuidado para não dizer porra na próxima semana, porque xingar também era proibido dentro da igreja. Assim como tabaco, carne, e mais um monte de outras coisas que eu só podia imaginar, mas essas tinham sido especialmente enumeradas pela Tamriko antes.

Quatro horas, um pedaço cinza de frango e dois doces esquisitos de limão depois, aterrissei em Abakan às 7:30 da manhã, meia hora atrasado. Caminhei pelo pequeno lobby. Tinha um cheiro estranho. Tudo parecia ter sido montado numa gigantesca máquina soviética de fazer aeroportos, e tudo tinha enferrujado devido ao isolamento. A pior parte é que eu não via ninguém com uma placa dizendo ROCCO. Tamriko tinha me assegurado que um cara chamado Ruslin iria estar lá, segurando o tal cartaz.

Cansado demais para entrar em pânico, sentei e esperei 15 minutos, quando um homem alto de cabelo loiro crespo de uns 20 anos com um pedaço de papelão debaixo do braço passou pela segurança e procurou rapidamente pela sala. Antes mesmo de notar o papelão, eu sabia que era ele — o tipo de cara que você nota chegando. Levantei e andei até ele. Ele virou a cabeça na minha direção.

“Rocco”, eu disse, apontando pro meu peito. Ele olhou nos meus olhos e ficou me encarando por alguns segundos antes de segurar o cartaz na frente do corpo. Eu balancei a cabeça. “Sim”, ele disse, e colocou uma coisa que parecia vagamente islâmica na cabeça. Andamos até o estacionamento em silêncio. Isso me deixou assustado.

Paramos junto ao carro dele, uma perua com tração nas quatro rodas com o volante do lado direito, e ali conheci quem eu achei que fosse sua esposa ou namorada. Ela era jovem e bonita de um jeito particular, e sorriu quando se apresentou. Mas não tem como eu ser capaz de pronunciar direito — ou lembrar — o nome dela agora. Eu nem tentei anotar no meu bloquinho.

Eles conversaram calmamente no banco da frente por alguns segundos, e então o homem apontou para uma garrafa térmica no console do carro. “Café?” Fiz que sim com a cabeça. Ele me serviu um pouco enquanto a mulher remexia numa sacola no chão do carro até achar um pote do que parecia ser cola. Ela colocou um pouco no café e me entregou. Eles ficaram olhando até eu tomar um gole. Se era veneno ou suco de lavagem cerebral, o gosto não era ruim. Terminei rapidamente e ficamos sem conversar por outros dois minutos ou mais. “Vamos”, disse o homem, e girou a chave.

Entendi rapidamente que Ruslin e sua mulher não falavam muito inglês, ou por alguma razão, não queriam falar comigo, então me mantive ocupado tentando instalar o 3G no meu computador com um aparelhinho que tinha comprado em Moscou. Tentei fazer uma chamada de vídeo e depois conversei com a minha namorada pelo iChat. Falei pra ela que tudo estava indo bem, que eu estava há 26 horas sem dormir, e fiz uma brincadeira sobre ter bebido o café estranho que me foi dado por duas pessoas que são tecnicamente parte de um culto e que agora elas estavam me levando para uma das regiões mais remotas da Sibéria. A conexão caiu e não voltou mais.

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