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      Pagode Pornô

      October 31, 2012

      Por Texto e fotos por Nelson Oliveira

      O pagode baiano sempre foi composto por danças sensuais e duplo sentido. E de uns anos pra cá, os compositores estão apelando pra uma estética pornô, similar à do funk carioca. Grupos como o Troco ou a Black Style, de Robyssão, e A Bronkka, de Igor Kannário – o Príncipe do Gueto –, estão entre os principais nomes do pagode-putaria, que tem divertido muita gente por aí com danças e versos bem objetivos, como os de "Rala a tcheca no chão", "Surubão" e da polêmica "Todo enfiado". Em 2009, a banda O Troco lançou a música “Todo Enfiado”, que poeticamente fala sobre calcinhas fio-dental, e chamou a atenção de toda a Bahia por causa de uma professora.*

      No final de agosto, o tema voltou a causar polêmica porque, depois de um show no interior do estado, os membros da banda New Hit, autora da música “Senta na minha pick-up”, foram presos por estuprar duas fãs, menores de idade, dentro do ônibus do grupo. Muita gente associou o estupro ao clima de suposta subjugação das mulheres aos homens e o estupro seria a prova de que, na prática, as letras das músicas de pagode-putaria estariam sendo levadas ao pé da letra.

      Por casos como esses, tem gente que acha que o pagode-putaria já foi longe demais. É o caso da deputada estadual Luiza Maia (PT), que propôs um projeto de lei — que ficou conhecido popularmente como Lei Antibaixaria — pra proibir que bandas que tivessem músicas ou coreografias que “desvalorizem, incentivem a violência ou exponham as mulheres à situação de constrangimento” sejam contratadas com verba pública.

      Luiza Maia na caminhada de mulheres em repúdio a Maurício Bacellar. Foto: Michel Dória

      Fui, então, entrevistar a autora da lei em seu gabinete pra saber o que ela pensa, agora que a lei foi aprovada e que seus argumentos têm sido endossados por uma parte maior da população. O ambiente de trabalho da deputada Luiza Maia é sóbrio, com decoração quase ausente, a não ser por alguns quadros com fotografias de projetos de sua autoria e alguns adesivos da campanha pró-Lei Antibaixaria colados em móveis ou pastas.

      VICE: E então, deputada, a senhora gosta de pagode?
      Luiza Maia: Gosto do ritmo do pagode. Quem não gosta de um pagode na Bahia? O problema são essas letras e danças, que desrespeitam as mulheres e não respeitam a Constituição do nosso estado e do país. Não posso nem chamar de cultural músicas que têm como único foco desmoralizar as mulheres e nos rebaixar a lixo. Tem uma música que fala isso: “mulher é igual a lata, um chuta, outro cata”. A nossa sexualidade não serve pra nada, é pra ralar no asfalto, pra todo mundo pegar, nós estamos disponíveis pra qualquer um? Tem letras que dão vontade da gente vomitar, essa violência simbólica é uma verdadeira esculhambação.

      O pagode tem ganhado ouvintes não só nas classes populares, mas nas classes médias. A senhora não enfrentou oposição pra aprovar o projeto?
      É difícil combater o machismo, porque ele existe há séculos e não é com uma lei que a gente muda. Mas o projeto tem seu valor pedagógico, de colocar o assunto em pauta. As mulheres nascem e são formadas nesse modelo e é difícil mudar a cabeça delas também. Mas ganhamos apoio de associações feministas e contra a violência da mulher, além de órgãos de justiça, instituições públicas e acadêmicas, movimentos sociais e outros partidos, inclusive gente de outros estados com interesse de implantar leis semelhantes. Muitas mulheres falavam pra mim que se sentiam ultrajadas e envergonhadas por essas músicas, me davam apoio também, e me mostravam que estávamos no caminho certo pra defender os princípios da família e da civilidade. Os pagodeiros tiveram chance de dar seu ponto de vista, até foram à televisão defender seu lado, mas não tiveram representações políticas ou legais.

      A senhora não acha que as piriguetes curtem a esculhambação e se sentem gostosas?
      Veja bem, o Robyssão, da Black Style, diz que a mãe dele aprova seu repertório e que até ajuda a escolher as músicas. Muitas pessoas me falavam: “Poxa, você fica combatendo essas músicas, mas quando os pagodeiros cantam e mandam as mulheres fazerem isso e aquilo, elas fazem e gostam.” Vi num vídeo, uma vez, uma coisa feia: os caras pegavam uma menina, colocavam coleira e uns saíam puxando ela, enquanto um outro fazia de conta que tava fazendo sexo anal, uma coisa horrorosa, como se a gente fosse bicho. Mas as mulheres, como diz um dos gritos de guerra do movimento feminista, não são só corpo, bunda e peito, temos cérebro também.

      Acho que as mulheres têm direito de ficar com quem quiserem, porque faz parte da liberdade sexual de cada uma, mas esse tipo de pagode não vai bem por aí. Tem mulheres que gostam de tomar tapa na cara, de serem chamadas de cachorras etc., mas essas me parecem não ter uma posição crítica em relação ao tema. Individualmente, dentro da casa de cada um, acho que qualquer pessoa é livre pra fazer o que quiser. Mas a violência contra a mulher não pode ser considerada como uma questão de ordem privada.

      Depois de ouvir a deputada, fui dar uma voltinha por festas de pagode em busca de mulheres pagodeiras ofendidas. Alguns artistas também foram procurados pra falar do assunto, mas depois do caso de estupro que envolveu a banda New Hit, acharam melhor não abrirem a boquinha.

      Todas as segundas, no bairro da Ribeira, acontecem festas de pagode. Atravessei a cidade pra descobrir que tipo de putaria eu iria encontrar colando meus ouvidos a paredões sonoros nos fundos dos carros e comprando três latinhas de cerveja — conhecidas na Bahia, veja só, como piriguetes — por cinco reais.

      Quando cheguei, encontrei um camburão da polícia com o fundo aberto e nenhuma coreografia ou o som do cavaquinho, do baixo e da percussão do pagodão. Havia acontecido uma briga com tiroteio, e os PMs haviam ido até lá pra acabar com o faroeste. Aproveitei pra tomar sorvete em uma das várias sorveterias do largo e me informar com os vendedores. Em uma das sorveterias, um funcionário que estava bem desatento ficou ligadão depois que pensou que eu estava dando em cima dele e, usando meu charme, consegui que ele me contasse o que de fato havia ocorrido e me dissesse outras festas maneiras de pagode que não estavam na minha lista.

      Acabei indo a um point tradicional dos pagodeiros soteropolitanos. Em frente a um famoso clube de pagode da cidade, nos fins de semana acontece um encontro de pagodeiros, com seus fundos de carro equipados com potentes aparelhos de som. Por volta das três da tarde, no estacionamento da Praia de Piatã, o couro comia. Atrás dos porta-malas dos carros, grupos de homens e mulheres, muitos desconhecidos entre si, faziam as tais coreografias pornôs. No estacionamento, dava pra sentir cheiro de sexo misturado ao salgado cheiro da maresia. O volume nas calças de muitos putões era evidente, assim como a cara de gozo das piriguetes, quando percebiam que suas bundas estavam sendo enquadradas por vários olhares masculinos.

      Pros homens, saber fazer uma boa quebradeira é fundamental pra poder participar de um dos principais elementos do pagode: o jogo de sedução entre os pagodeiros acontece com remelexo e requebrado. Entre as piriguetes e os putões, todo mundo tem que saber balançar a bunda, descer e subir requebrando. Não sabe, meu bróder? Cai fora. Ou, em bom dialeto local, se pique. Eu nunca fui suficientemente macho em Salvador.

      Os putões podem até exagerar no rebolado, mas têm de ter a virilidade necessária pra fazer passos de dança que coloquem seus paus em evidência e não deixem dúvidas sobre quem é que come uma buceta com força por ali. As piris, por sua vez, precisam empinar a bunda, com as mãos no joelho, e dar as tradicionais abaixadinhas eternizadas pelas amarrações de tchan de Carla Perez, competindo pela atenção dos caras. O objetivo é mostrar quem é que pode dar a surra de buceta mais gostosa umas horas depois.

      E, enquanto eu fotografava uma piriguete subir e descer rebolando e empinando sua bunda, a única queixa que eu ouvi durante a tarde veio de uns caras que a acompanhavam. Me chamavam de “virgem” e “tarado”, como se eternizar aquele momento fosse considerado um ato virginal, pelo fato de a sexualidade no pagode ser naturalizada a ponto de não precisar de registros. Ossos do ofício.

      * A professora Jackie, que dava aulas em um colégio primário em Salvador, subiu ao palco pra dançar depois que o vocalista Mário Brasil convidou mulheres pra fazerem a coreografia. Em depoimento ao curta-metragem "Pediu pra parar?", ela explica, com muita naturalidade, como era a coreografia e o que aconteceu: "Em um certo momento, o cantor da banda suspendeu meu vestido e puxou minha calcinha."

      Tudo foi documentado em um vídeo amador e a professora acabou reconhecida. Dias depois, foi demitida da escola em que dava aulas e escorraçada do bairro onde vivia. Voltou a morar com familiares e virou dançarina da banda por alguns meses, até que o empresário da banda, que havia virado seu namorado, cansou de pagar seu cachê. Ela reclamou publicamente e o acusou de lhe ter dado uns catiripapos, mas não o denunciou depois de ter recebido o que lhe deviam.

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      Tópicos: pagode, padoge pornô, Luiza Maia, Lei Antibaixaria, Entrevista, Bahia, Nelson Oliveira, banda New Hit, Estupro, Política, pagode baiano

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