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      Putarias de um Vira-Lata

      December 27, 2012

      Quando a dupla de artistas visitou pela primeira vez a Casa de Detenção do Carandiru,  no início dos anos 90, perguntou numa roda de detentos que tipo de gibi eles gostariam de ler.

      “A gente é do crime. A gente gosta de coisa forte. Então não vem com história de Luluzinha, não, que vai para o lixo”, responderam os presos, sem olhar nos olhos de quem falava com eles.

      “Os presos tinham o olhar do homem acuado. Um olhar baixo, meio embaçado, as mãos para trás”, lembra o roteirista Paulo Garfunkel, o Magrão, hoje com 54 anos. A única vez em que encarou o olhar de um preso foi na cozinha do presídio, num dia em que o clima estava tenso na unidade — prestes a ser fechada para dar lugar às quentinhas vindas de fora. Em meio à névoa dos panelões cheirando a gordura rançosa e às geladeiras esburacadas pelos ratos, um dos detentos olhou para Magrão olho no olho. “Fiquei com medo. Era como o Olhar da Penitência do Motoqueiro Fantasma”, lembra o roteirista, velho rato de quadrinhos.

      Aos olhos do ilustrador Libero Malavoglia, atuais 53 anos, o Carandiru parecia um endereço fora do planeta Terra. Como os presos arrancavam o que podiam do prédio (até os frisos antiderrapantes das escadas) para transformar em faca e outros utensílios, o chão e as paredes ficavam na pedra nua. Sobre a pedra, montavam fogõezinhos de tijolo para esquentar a comida, cercados pelas teias das gambiarras de fios elétricos que se espalhavam pelo presídio. “Era um ambiente muito diferente. Parecia o Planeta Bizarro das histórias do Super-Homem”, lembra o ilustrador, velho rato de quadrinhos.

      Era para aquele universo que os dois haviam sido chamados a produzir um gibi. E não qualquer gibi. Tinha que ser uma história poderosa, capaz de convencer os detentos a trepar de camisinha e largar de mão o pico na veia. Uma história em quadrinhos que ajudasse a reduzir a epidemia de AIDS do maior presídio da América Latina — era a missão de Magrão e Libero.

      Tinha que ser “coisa forte”. E isso eles tinham. Desde 1991, quando publicaram a primeira história do Vira-Lata.

      O filho da puta

      O Vira-Lata. Um guerreiro paulistano, meio Estranho sem Nome, meio Lobo Solitário. Defensor de putas, presos, pobres e outros fodidos. Seus inimigos vestem terno e gravata: são playboys, autoridades, grupos de extermínio. Filho de uma menina pomba-gira, uma doce “putana” que trepou com cinco homens de diferentes raças nove meses antes de dar à luz o herói. Guerreiro de sangue misturado, filho de todos os povos, o Vira-Lata perdeu a mãe logo após o nascimento, sendo adotado por um terreiro de candomblé, onde aprendeu os toques de tambor e os mistérios do mundo invisível, e depois por um mestre japonês, que o iniciou nas artes marciais.

      O Vira-Lata vaga pelas ruas de São Paulo livre como um cão sem dono, cumprindo a sina do herói de consertar o que está errado e depois partir, deixando as coisas melhores do que encontrou. Sem desaparecer no pôr-do-sol, que o Vira-Lata prefere mesmo é fechar suas histórias trepando com alguma gostosa. Macunaíma sem preguiça e cheio de caráter, o Vira-Lata é um super-herói com um único poder: o de conseguir comer todas as mulheres que estão no gibi.

      O herói apareceu na cabeça de Magrão no final dos anos 80. O universo do personagem nasceu com a atmosfera do Cotton Club, casa noturna em que Magrão trabalhava como músico nas madrugadas, tocando para executivos engravatados que pulavam a cerca com suas secretárias bilíngues e, depois do expediente, para policiais que cheiravam no balcão e gritavam “Alemão, toca aquela”. O Vira-Lata lembrava o segurança da casa, um negrão que contava ter disputado a Olimpíada de Berlim como boxeador, em 1936. Já a origem do personagem remetia a um causo contado por um amigo músico de Magrão, sobre uma garota que engravidou após dar para vários homens na mesma época (e a criança, naqueles tempos pré-testes de DNA, dera de nascer com a cara exatinha do músico).

      A gênese do Vira-Lata foi o primeiro roteiro escrito por Magrão, que até então só tinha botado no papel canções, poemas e uma peça de teatro. Os quadrinhos, contudo, faziam parte da sua vida desde a infância, quando aprendeu a ler com as aventuras de Tintim. Depois vieram Asterix, Fantasma, Batman... Na adolescência, encantou-se com Corto Maltese, o aventureiro sedutor do italiano Hugo Pratt, ao mesmo tempo em que se iniciava na punheta com os catecismos de Carlos Zéfiro e sua turma.

      Quando criou o Vira-Lata, anos depois, resolveu juntar na mesma história os dois lances que mais curtia nos gibis. “Queria uma história que tivesse muita ação e muita sacanagem”, conta Magrão, sentado em um cômodo atulhado de instrumentos musicais e objetos misteriosos, nos fundos do estúdio musical que ele mantém em casa, num sobrado em Pinheiros.

      Enquanto conversamos, o assistente do estúdio trabalha mixando um jingle que Magrão criou para uma empresa de informática. Um cachorrão preto se aproxima, um dos vários que Magrão abriga em casa, entre vira-latas e dachshunds. “Pode participar da entrevista se não atrapalhar, B.O.”, avisa Magrão para o vira-lata.

      Observado por B.O., o roteirista saca da pilha de objetos misteriosos uma espada de madeira. Com movimentos precisos, mostra que o segredo da luta está no desembainhar da espada. Como o Vira-Lata, Magrão manja de artes marciais com espadas. Como o Vira-Lata, Magrão é ogã (tocador de tambor) de candomblé.

      Depois de guardar a espada, Magrão mostra outras armas de seu arsenal: duas machadinhas “tomahawk”, daquelas que a gente vê os índios usando para partir crânios nos faroestes antigos. Ele crava um dos machados num pedaço de tronco guardado para isso e me entrega o outro:

      “Mete aí na madeira. Faz bem para a alma.”

      Pego o machado. Atiro com força no tronco. Faz bem, mesmo.

      Sangue e putaria

      Entre espadas e machados, Magrão segue contando que concluiu o primeiro roteiro do Vira-Lata em 1989, mas não conseguia achar quem pudesse desenhá-lo. Seu universo sempre foi o da música: instrumentista e compositor, tocador de flauta, clarinete e sax, tocou nas bandas de Elis Regina, Rita Lee e Ney Matogrosso; as canções que compôs com o irmão, Jean, foram gravadas por gente como a própria Elis, Pena Branca e Xavantinho, Maria Rita, Margareth Menezes, Renato Braz.

      Acabou sendo um músico, Skowa, quem falou para Magrão de um artista chamado Libero Malavoglia. Ligaram para ele e contaram do Vira-Lata, mas Libero disse que não poderia aceitar o projeto: estava de malas prontas para viajar à Europa e não sabia nem se um dia iria voltar. Podia indicar alguém. Que onda de desenho ele queria? “Hugo Pratt”, respondeu Magrão, e foi como pronunciar uma palavra mágica. “Hugo Pratt!? Onde vocês estão? Me espera que eu estou indo para aí”, disse Libero.

      “Hugo Pratt é o cara que mais admiro nos quadrinhos”, conta Libero, minutos após chegar à casa de Magrão para a entrevista. O encantamento com os quadrinhos começou para Libero por meio das histórias mitológicas que Pratt publicava nas páginas do “Corriere dei Piccoli”, suplemento infantil do jornal “Corriere della Sera”, que o pai de Libero, jornalista italiano, costumava levar para os filhos. Depois vieram os heróis da DC e da Marvel, Jack Kirby, Hal Foster, o Lobo Solitário... Décadas depois, já trabalhando como artista profissional, bastou para Libero ouvir a menção ao nome de Pratt para decidir trocar uma ideia com Magrão. Acabou sendo o início de uma bela amizade.

      Libero curtiu o personagem de cara: “O Vira-Lata tem a força do herói de quadrinhos que eu sempre adorei. Vi nele o que eu via no Batman, no Demolidor”. Mas ficou incomodado com a violência da história, achando que não seria capaz de dar vida a cenas tão sangrentas. “O Magrão me leu a cena do batismo de fogo do personagem: ele enfiava meio cabo de neon no pescoço de um cara, depois enfiava dois pedaços de guarda-chuva na barriga do outro e abria... Fiquei com a pulga atrás da orelha.” Quatro meses depois, de volta ao Brasil, começou a desenhar a história. E teve uma surpresa. “Vi que fazia as cenas de violência com o maior prazer”, comenta, com uma risada. “É como um despacho. Você bota algo para fora, e, depois que desenhou, acabou.”

      Cheia de sangue e putaria, a primeira história do Vira-Lata chegou às bancas em 1991, como um número especial da revista Animal, da editora VHD. A revista chamou a atenção de um médico chamado Drauzio Varella, que atuava como voluntário na Casa de Detenção, experiência que daria origem a dois livros: Estação Carandiru, que virou filme (com storyboards desenhados por Libero) e o recém-lançado Carcereiros.

      Na época, o doutor lutava contra a epidemia de HIV que atingia 17% dos detentos do presídio. Quebrando a cabeça em busca do melhor jeito de falar com os presos, encontrou a saída num dia em que visitava o Amarelo, pavilhão onde ficavam os presos jurados de morte pelos colegas. Drauzio reparou que vários daqueles homens, que passavam dia e noite espremidos em tranca permanente, até a pele amarelar pela ausência do sol, matavam o tempo lendo gibis. O médico resolveu procurar os criadores do Vira-Lata e propôs usar o personagem numa cartilha sobre os riscos da AIDS.

      “Cartilha, não. Vamos fazer uma história, mesmo, instigantona”, propôs Magrão.

      A boca que tudo come

      Foi assim que o Vira-Lata acabou parando na prisão. Entre 1993 e 2000, Magrão e Libero produziram sete revistas com o personagem, voltadas exclusivamente para os detentos do Carandiru. Cada número tinha tiragem de 10 mil exemplares, que eram distribuídos de xadrez em xadrez a cada um dos presos — para evitar que o gibi, fonte inesgotável de aventura e punheta, virasse moeda no mercado negro local.

      Para poder frequentar o Carandiru, o Vira-Lata teve que passar por algumas mudanças. O herói deixou de fumar maconha — “pelo menos, nas páginas do gibi”, lembra Magrão. A violência foi suavizada: o Vira Lata continuou a descer a porrada em todos os filhos da puta — com o realismo que só um desenhista praticante de aikidô, como Libero, poderia garantir — mas agora seguia um juramento que o impedia de matar. Balas de revólver, ele só usava para enfiar no cu dos vilões. “Na cadeia, o Vira-Lata sofreu um puta policiamento moral”, resume Magrão. “Positivo”, ressalta Libero. “Positivo, claro”, concorda o roteirista.

      Estamos agora no segundo pavimento do sobrado, Magrão nos leva para tomar uma cerveja preta. “Aprendi que a cerveja branca diminui o Chi (energia vital), mas a preta, não”, diz. Então, que venha a cerveja. Antes, porém, uma pausa. Primeiro, Magrão sai para ofertar um gole da cerveja a Exu.

      “A boca que tudo come é a primeira a beber”, diz, ao voltar.

      As referências ao candomblé também foram quase todas cortadas nas edições da cadeia, para que o gibi pudesse circular também entre os presos evangélicos — os “irmãos” podiam até aceitar um gibi com cenas de surubas, boquetes e sexo anal, mas não com menções a Ogum e Iansã.

      Um lado em que o policiamento moral passou longe foi o da sacanagem. Os gibis continuaram cheios de mulheres maravilhosas desenhadas por Libero, todas sendo devidamente traçadas pelo Vira-Lata em algum momento na história. “Esse Vira-Lata está sempre no cio”, diziam os presos. Os detentos curtiam as musas (“melhor do que mulher de verdade”, chegou a dizer um deles), mas faziam um pedido: “Não mostra o pinto do Vira-Lata. Estamos cansados de ver homem pelado”.

      Muita sacanagem, sim, mas sacanagem segura. A camisinha aparece em todas as cenas de sexo, acompanhada de uma caricatura do doutor Drauzio dando dicas como “tem que ser lubrificante à base de água” ou “tem que tirar com ele ainda duro”. O Vira-Lata também não perdia a chance de detonar quem tomasse pico na veia. Tudo com o acompanhamento médico do doutor Drauzio. “O Vira-Lata talvez seja o primeiro gibi erótico com supervisão científica do mundo”, comenta o médico num depoimento sobre a aventura.

      A putaria das histórias gerou incômodo quando as Secretarias de Saúde e de Justiça do Paraná resolveram seguir o exemplo paulista e negociaram a distribuição do gibi para um presídio.  Foram impressos cinco mil exemplares, que nunca chegaram aos presos. “Rolou uma impressão moral de alguma mulher de secretário e decidiram queimar todos os exemplares numa fogueira do pátio”, conta Magrão.

      Pior para os inquisidores do Paraná: pesquisa feita por Drauzio mostrou que o índice de infectados com o HIV caiu de 17%, no começo dos anos 90, para 8% em 2000. Muita coisa ajudou nesse processo (inclusive a troca do pico na veia pelos cachimbos do crack), mas o Vira-Lata teve também o seu papel, como herói de papel e tinta que ajudou a detonar um inimigo real.

      “Pode comer a Nina, B.O.”

      Agora o Vira-Lata foi tirado da cadeia pelas mãos de Toninho Mendes, editor que entrou para os anais do quadrinho brasileiro nos anos 80, quando editou Chiclete com Banana, Geraldão Piratas do Tietê pela editora Circo, e que nos últimos anos vem resgatando a memória da putaria impressa com a editora Peixe Grande. Seguindo o padrão das outras publicações da editora, o livro O Vira-Lata é bonitão, cheia de informações e custa sugestivos R$ 69. Ali estão reunidas a primeira história do Vira-Lata e todas as edições da cadeia, incluindo uma inédita, Na Amazônia — que não chegou a ser impressa porque o Carandiru foi implodido antes, em 2003. É a história em que Libero encontrou o próprio traço. “Até então, eu testava várias técnicas e misturava estilos. Essa história eu resolvi fazer correndo e soltei a mão. Acabei achando o meu próprio estilo. Foi como uma formatura”, conta.

      De volta às ruas, o Vira-Lata se prepara para o futuro. Magrão e Libero têm planos de levar o herói para um longa-metragem, de preferência sem pedir emprestada a carinha de um ator de carne e osso para encarná-lo. “O Vira-Lata merecia um longa em animação, para preservar o traço do Libero”, diz Magrão. Enquanto isso, o roteirista permanece atento aos sinais. No ano passado, um projeto de roteiro do Vira-Lata foi contemplado por um edital do Programa de Ação Cultural (Proac), do governo paulista, bem no dia em que Nina, a princesinha da sua matilha, entrava no cio. Magrão não teve dúvidas e atendeu aos ganidos de B.O., seu vira-lata preto: “Tá bom, B.O., pode comer a Nina”. A bela noite de amor gerou seis filhotes de sangue misturado.

       

      O Vira-Lata
      Paulo Garfunkel e Libero Malavoglia
      Editora Peixe Grande
      442 págs.
      R$ 69

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      Tópicos: Vira-Lata, quadrinhos, HQ, Carandiru, presídio, Paulo Garfunkel, Libero Malavoglia

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