Quem Aqui Tá de Palhaçada?

By Arthur Dantas, Fotos por Francisco Costa e Suryan Cury / I Hate Flash

Esquece a Sapucaí, os blocos lotados patrocinados por grandes marcas, as mulatas seminuas, as praias sujas apinhadas de gringos... Enfim, esquece a porra toda que te ensinaram sobre o cada vez mais cheio de regras e controlado carnaval carioca. O rolê da VICE durante a Festa da Carne na Cidade Maravilhosa foi correr atrás dos temidos e fantásticos clóvis ou bate-bolas, uma marca registrada dos carnavais do subúrbio. Malvista pela sociedade em geral, essa cultura de palhaços ingovernáveis e assustadores movimenta corações e mentes (e economia, diga-se de passagem), pelo menos desde a década de 1930 na capital carioca.

Vamos tentar explicar o básico e o resto é com vocês: as imagens já dizem muito sobre a parte mais ralé e alucinada do carnaval do Rio. E no YouTube tem material a dar com pau pra deixar até o mais psicodélico dos cidadãos com aquela sensação de “que porra toda LINDAMENTE ASSUSTADORA é essa??”.

- Bate-bola (ou clóvis) começou na primeira metade do século XX com foliões caracterizados com roupas largas semelhantes às de palhaços (daí o “clóvis”, que viria de “clowns”), que saíam pelas ruas batendo no chão bexigas de boi bastante fedorentas, presas por corda a uma vara ou cabo, tocando o terror em quem cruzasse o seu caminho.

- A brincadeira foi tomando proporção e, nos últimos 50 anos, se tornou coletiva, com cada “turma” aglutinando de cinco a 130 pessoas. Vale lembrar que os bate-bolas se expandiram pra cidades da Baixada Fluminense e pra zonas rurais, mas jamais chegaram à Zona Sul. Calcula-se que existam cerca de 500 turmas em todo o estado. Será que a expressão “muita treta pra Vinicius de Morais” cabe aqui?

- A roupa foi se profissionalizando e ganhando em criatividade, fazendo frente, inclusive, ao engenho das fantasias que desfilam na Sapucaí. Via de regra, a caracterização completa se faz com macacão de cetim, casaca, glitter, plumas, sombrinhas pintadas (opcional), bate-bola (opcionais, hoje feitas de plástico), bonecos (opcionais), bandeiras (opcionais), meia calça, luvas pintadas, tênis ou sapatilhas customizadas. E, é claro, as temíveis máscaras, a maioria de palhaços assustadores.

- Alguns pesquisadores identificam os clóvis com a Folia de Reis, outros com os entrudos (era um carnaval popular cheio de brincadeiras violentas que foi substituído pelo carnaval tal qual conhecemos agora pela elite portuguesa no Brasil), e alguns até com festejos medievais ou da região de Tolima na Colômbia. Vale dizer que gente impertinente batendo bexiga (de porco ou de boi) atada a um longo cabo já existe, ao menos, desde o século XVI na Europa.

- Clóvis, ao contrário das escolas de samba ou do carnaval de rua carioca amplamente dominado por corporações como as de bebidas alcóolicas, não se inseriu nos ditames da indústria cultural. O ruído e o caos espalhados por estes palhaços macabros foi objeto de estudo da pesquisadora Aline Gualda Pereira que escreveu a completíssima tese “Tramas simbólicas: a dinâmica das turmas de bate-bolas do Rio de Janeiro” sobre o assunto e trata desse caráter excepcional do fenômeno.

- A antropóloga Alba Zaluar caracterizou os clóvis como “irreverentes, provocativos e descontrolados”. Já o irmão dela, o artista Aloysio Zaluar, realizou em 1976 uma obra-prima em super 8, chamada "O Clóvis Vem Aí" e que começa com uma frase que ajuda a elucidar um pouco sobre o fenômeno: "Mi cultura va de Brucutu a Kafka. La sociedad no es la mama e lo estado no es lo papa". Resumindo: um liquidificador de cultura pop e nenhum respeito por nada.

- Os temas (ou “enredos”, como chamam os praticantes) das fantasias geralmente gravitam em torno de ícones de cultura pop, como, por exemplo: Motoqueiro Fantasma, Bob Esponja, Bambam e Pedrita, Cavaleiros do Zodíaco, Chacrinha, A Pequena Sereia, Chico Bento, entre outros.

 

- As turmas têm nomes que muitas vezes dizem respeito à própria índole dos agrupamentos, como Alucinação, Fascinação, Skandallo, Virtude, Pirimbola, Perfeição, Os Neuróticos, Enigma, Sensação etc.

- No passado, a coisa toda era mais inocente, uma brincadeira familiar, muitas vezes feita à parte de turmas ou grupos — as crianças perseguiam os clóvis, provocando, e gritavam frases como “bate-bola, bate é, usa roupa de mulher. Se for homem vem aqui, se for bicho fica aí”.

- Com o tempo, a indumentária foi incorporando novas características e, atualmente, os grupos de clóvis podem ser classificados em diversos “estilos”, tais como "bola-e-bandeira", "leque-e-sombrinha", "sombrinha-e-boneco", entre outros. Comumente, os de bola-e-bandeira são tidos como mais “perigosos” — ainda que haja exceções.

- Bate-bolas de Santa Cruz são tidos pelos adeptos como mais tradicionais, os de Realengo são os mais inovadores, e os de Marechal Hermes os mais hostis e agressivos.

- Pra se ter uma ideia, na tese mencionada acima há uma pesquisa com 100 entrevistados de diferentes partes da cidade do Rio. Oitenta e oito por cento dos entrevistados afirmaram que os clóvis batem ou correm atrás das pessoas, e 61% falaram de seu caráter “assustador”. Além disso, nessa mesma pesquisa, as palavras frequentemente associadas ao clóvis são “carnaval', “perigoso”, “assustador”, “violento”, “medo”, “marginal”, “tradição”, “pobre”, “zoação” e “amizade”.

- Em 2012, os Bate-bolas foram declarados Patrimônio Cultural Carioca.

- Os Bate-bolas foram citados visualmente na capa do primeiro disco dos Los Hermanos, Marcelo D2 citou textualmente seu passado como bate-bola na música “1967” e em imagens no clipe de “Eu Já Sabia”; O Rappa fez isso na canção “Lado A Lado B”; e eles se tornaram inclusive adversários do Wolverine em uma HQ chamada “Rios de Sangue”.

Bom, a violência. Infelizmente, este ano teve mais uma vítima mortal (além de alguns feridos) em confronto de clóvis de bola-e-bandeira na região de Bento Ribeiro. Esta reportagem tentou acompanhar um grupo no sábado de carnaval na região e encontrou seu trabalho obstruído por alguns membros de turmas. O procedimento básico é assim: os grupos costumam passar o dia numa churrascada em seu barracão (ou na casa de algum dos membros), comendo, bebendo, ficando bem louco. No fim da tarde, começa o foguetório e a turma sai pra rua feito estouro de manada. E vou te falar: o espetáculo é tétrico! Só que a tensão vai tomando o ar, quadra após quadra, a turma correndo. Um sujeito que eu tinha conhecido pouco antes no barracão, sugeriu veementemente que eu desistisse de acompanhar o cortejo. Realmente, minha vida tá valendo um pouco mais do que me foi oferecido pela matéria, viu, VICE? O que se sucedeu dali em diante só fui saber depois pelo caderno policial no jornal.

As entrevistas, assim como as fotos, foram realizadas no início do Concurso Folião Original, na Cinelância, promovido pela Riotur no meio da tarde da terça-feira de Carnaval. Os clóvis sombrinha se mostravam solícitos, os bola-e-bandeira foram, pra dizer o mínimo, mais arredios. Enquanto as turmas de sombrinha confraternizavam numa Cinelândia apinhada de policiais, alguns grupos de bola-e-bandeira que não participavam do concurso “flanavam” pela região batendo bola e gritando palavras de ordem assustadoras. Tive tempo de anotar a inscrição de uma das bandeiras desses grupos: “Perdedores não entram neste jogo”. Vai achando que a rapadura é doce, vai. Como fica claro na fala dos três clóvis de sombrinha entrevistados abaixo, a cultura em torno da coisa toda é tão complexa que inventaram inclusive elementos visuais pra diferenciar as turmas que só querem brincar carnaval (vá lá, e também assustar na moral um ou outro incauto) das que querem tocar o terror com força.

 

Glauber, 26 anos, Turma Simpatia, de Guapimirim, interior do Rio de Janeiro.

VICE: Quanto tempo você tem como bate-bola?
Glauber: 15 anos, mas como cabeça de turma eu tenho seis anos.

Qual o enredo da turma?
Viemos de Chaves este ano, em homenagem aos 42 anos do seriado, que engloba um monte de coisa de quem já tem uma certa idade, além do quê todo mundo acompanha Chaves.

Quanto tempo demora pra fazer uma fantasia?
Depende do efetivo da turma. Se for umas 30, 40 pessoas, temos que ver se vai na tela ou se é feita à mão. A gente pensa as fantasias o ano todo, como uma escola de samba. É uma média de seis meses de trabalho.

Quanto custa uma fantasia?
Começa da mais simples, uns 500 reais. Mas é igual carro: você pode tunar, colocar um vidro mais caro, uma roda mais cara — com bate-bola é a mesma coisa.

E quantas pessoas estiveram em sua turma este ano?
Quarenta e cinco — 22 adultos e o restante de mascotes.

E o que vocês fazem com a fantasia depois do carnaval?
Uns guardam, outros deixam a fantasia comigo e eu abato no enredo do próximo ano.

Como funciona a cultura de bate-bola no interior? No Rio, tem muitas pessoas que têm medo, principalmente na Zona Sul...
Lá não tem muitas turmas, porque acontece mais na zona norte do Rio de Janeiro, no subúrbio. Nós representamos a paz do interior, mas o foco mesmo é no subúrbio, Marechal Hermes, Bento Ribeiro e Madureira. O pessoal [no interior] tá começando a entender o que é bate-bola. Até no Rio de Janeiro, no subúrbio, tem muita gente que não entende como aconteceu o bate-bola, como surgiu, o que é... Hoje em dia tem sombrinha, mas tudo começou no Matadouro de Santa Cruz, não tinha nem turma. Cada criança pegava a bexiga de boi no matadouro, enchia de ar, e a mãe fazia macacãozinho pra criançada sair assustando as pessoas. Mas bate-bola é muito discriminado, porque muitas turmas de bexiga são violentas. Depois vieram as turmas de sombrinhas, como a nossa. Quem sai de sombrinha sai pela beleza, quem sai de bexiga já é um pouco mais agressivo. Mas existem turmas de bexiga que são tranquilas.

 

Inácio, 23 anos, turma Alucinação, Jacarepaguá

VICE: Quanto tempo você tem como bate-bola?
Inácio: Tô faz quatro anos, e a turma tem cinco. Mas hoje eu sou um dos cabeças com outros dois.

Quantas pessoas tem a turma?
23 adultos e dois mascotes.

Já ganharam algum título no concurso aqui do Centro?
Ganhamos em 2010, segundo em 2011 e terceiro em 2012.

Sua turma chegou a sair de bate-bola ou já começaram como sombrinha?
Já começamos como sombrinha. A gente é tranquilo, pessoal bandeira-e-bola é muita confusão.

E o momento de vir disputar fantasia é importante?
Sim, lógico. É um negócio que a gente pensa o ano todo e chega aqui querendo levar alguma coisa.

E como o enredo é decidido?
Junta os três cabeças na quarta-feira de cinzas logo depois do carnaval e já pensa num tema que é levado ao resto do grupo, pra ver se eles gostam.

E vocês fazem a fantasia toda?
Depende. O macacão a gente sempre paga pra fazer. Fora isso, a casaca e a sobrinha a gente faz. Demora uns oito meses, porque a gente não pinta com pressa, pra ficar bonitinho.

E o custo?
Pra mascote foi 400 reais, mas chega a 950 reais a fantasia. Fora o kit (festa + camiseta da turma), fogos e o ônibus.

Caramba, muito trabalho pra se divertir, hein?
Tem que se entregar. Porque você sai do trabalho, vai no barracão pintar fantasia...

E o que te levou a querer ser clóvis no carnaval?
Sempre gostei desde pequeno, mas minha mãe não gostava, tinha medo. Mas comecei a trabalhar e comecei a ir pra turma [de clóvis]. Eu sou muito fissurado, não perco um ano.

 

Alessandro, 36 anos, Turma Ilusão, de Jacarepaguá.

VICE: Tua turma é de bola-e-bandeira ou de sombrinha?
Alessandro: Sombrinha e boneco.

Como é o processo de confecção?
Eu escolho o tema, faço umas três fantasias diferentes e mostro pra turma escolher.

Qual foi o enredo e quantas pessoas tinha?
O tema foi Patati Patatá e tivemos 15 pessoas.

Você já saiu em outras turmas?
Positivo. Saia na turma Irritação, de bandeira-e-bola.

E porque criou sua turma?
Porque era muita violência, pra mim não servia.

E qual o barato de ser clóvis? Uma fantasia quente pra caramba no verão carioca...
É ver o povo atrás, querendo tirar foto, é um ano de trabalho pra quatro de alegria, vale muito a pena.

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