Film
Sangue Bom

Gurcius Gwender, José Mojica Marins, Peter Baiestorf, Black Vomit, Bernardette Lyra. Essa lista de nomes essenciais deve confundir qualquer um que não se liga no cinema underground (ou trash, como dizem alguns detratores) de terror brasileiro. Além do sangue, tripas e atores amadores, o que esses cineastas têm em comum é a independência do mercado e a vontade de fazer o que quiser na tela, mesmo sem orçamento algum.
Mais bizarro que filmes como Mamilos em Chamas (do Gurcius Gwender, feito com cadáveres de coelhos usados como marionetes) é o fato de ninguém no meio cinematográfico e nem na mídia dar muita bola para o gênero, que sobrevive ao largo de expressões como “retomada” e “incentivo cultural”.
Marco Antonio Vaz e Bruno Simonetti eram estudantes de Rádio e TV de uma faculdade de São José dos Campos, interior de São Paulo, quando resolveram filmar o documentário Sangue Marginal – Relatos de Cinema e Vídeo Underground como trabalho de conclusão de curso. Agora donos de sua própria produtora, a Cachorro Filmes, eles estão reeditando o material para transformá-lo em algo menos acadêmico, mas ainda com cara de underground. Eu descobri o projeto deles vendo o trailer do filme no YouTube e resolvi trocar uma ideia com o Bruno por MSN mesmo, para falar de mercado, entrevistas movidas a cerveja e cenas agonizantes com chutes na cabeça.
Vice: Pelo que entendi vocês faziam uns vídeos trash e resolveram fazer um documentário pra mostrar essa cena e a história do gênero no Brasil. Qual foi o impulso de trocar o sangue e atores amadores por entrevistas com enquadramento correto?
Bruno Simonetti: Na verdade eu e o Marco nos conhecemos na faculdade e começamos a produzir alguns curtas. Um tempo depois montamos a produtora de uma forma bem independente mesmo. No começo nem era voltado tanto pra parte de horror. Eram curtas experimentais, algumas idéias que a gente tinha e filmava. O curta mais trash mesmo que produzimos foi o Acorde da Morte pra uma disciplina da faculdade. A idéia do documentário já estava no ar há algum tempo. Marcão tinha pensado em fazer alguma coisa do tipo, mas não era nada muito concreto. Depois de um tempo que foi amadurecendo. Só esperávamos a hora certa de produzi-lo. Aí veio o Trabalho de Conclusão de Curso. Isso foi no final de 2008. Lá pelo mês de outubro.
Vocês soltaram um trailer no YouTube, mas tá escrito que o filme está em produção. O que falta pra vocês fecharem o documentário?
Então, o que temos finalizado é apenas o nosso TCC com 43 minutos de duração. A idéia é fechar o doc inteiro com cerca de uma hora e meia ou até um pouquinho mais. Ainda temos entrevistados que ficaram de fora por não rolarem as entrevistas e até mesmo pela correria da entrega e tudo mais. Ficamos de pegar o Ivan Cardoso...
Pô, o Ivan é essencial.
Com certeza. É um grande diretor do cinema boca do lixo brasileiro. Então assim como faltam alguns entrevistados, o filme finalizado agora conta somente com uma câmera, e na verdade todas as entrevistas foram feitas com duas. A idéia foi deixar de lado a segunda câmera agora pra termos um filme bem mais bolado depois. A edição será diferente, existirá a segunda câmera dando mais detalhes como closes nos rostos, ângulos bem diferenciados.
Saquei. E em quanto tempo vocês juntaram material para esse primeiro corte?
A idéia era finalizar o doc completo no final de março, começo de abril. Mas como houve alguns imprevistos, creio que antes do meio do ano ele estará rodando nas telas. O TCC em si nos deu um puta trabalho pra fazer. Não só a parte de produção, captação, edição... Mas também a parte escrita. Isso foi o que fudeu legal! Acho que como em todo TCC, né? Aí tiramos umas férias agora no começo do ano pra voltar depois com tudo. Na verdade tínhamos o roteiro meio que montado na cabeça, nada no papel. Pesquisamos algumas coisas mais ao fundo, bolamos as perguntas (umas voltadas mais para os diretores, outras pros pesquisadores do assunto), e botamos o pé na estrada rumo aos depoimentos.
No fim acabamos coletando depoimentos e conversando com os entrevistados fomos pegando contatos de pessoas interessantes e corremos atrás. Creio que entre pesquisa e entrevistas gastamos um ano coletando material, e editamos em dois meses e meio.
E como foi essa vida na estrada? Vocês viajaram muito? Porque tem depoimento de uma galera de diferentes cidades, uns malucos com sotaque do sul.
Diferentes sotaques rolaram. O pessoal do sul, a Bernadette que é da Bahia. A maioria das entrevistas rolaram em Sampa mesmo. Tivemos a sorte de pegar os entrevistados vindo pra algum evento ou mesmo somente pra passear. O Gurcius (Gwender), Peter (Baiestorf), Felipe Guerra, e a galerinha do sul vinha pra cá e combinávamos as entrevistas. E é até meio fácil eles virem pra cá. Direto rola mostra de vídeos, e alguns eventos undergrounds em que eles aparecem. Agora o mais difícil mesmo foi o Ivan, que até agora não rolou. Tentamos umas cinco vezes entrevista-lo, mas não rolou. Ele é do Rio né? Acho que teremos que ir até a casa dele pra pegar os depoimentos. Mas nada que atrapalhe não. Assim como conhecemos diversos lugares em São Paulo nessas idas e vindas, seria muito legal conhecer o Rio, ou até mesmo o Sul. Pegaremos os depoimentos que forem possíveis onde os caras estiverem.

Como era o procedimento? Vocês marcavam com os caras ou chegavam chegando, na caruda? Arrastavam eles prum boteco, embebedavam eles?
Olha, geralmente a gente entrava em contato com os caras, marcava um fim de semana (que era mais fácil), deixava o entrevistado mesmo escolher o local e mandava bala. Mas o Gurcius, por exemplo, foi um caso a parte. A gente já tinha entrevistado o pessoal da produtora Black Vomit e calhou do cara aparecer na casa dos caras pra passar um tempo. Inclusive foi um pouco antes da pré-estréia do Guidable, documentário do Ratos de Porão feito pela Black Vomit. Ele tinha ido lá pra ver e tudo mais. Aí a gente combinou com ele num bar, fomos pro porão que estava em reforma e lá ficamos enchendo a cara e trocando idéia.
Pra esse tipo de trabalho uma cerveja sempre ajuda - só atrapalha o câmera.
Os câmeras né? [risos] Porra, e com um set light de 1.000 watts na cabeça, nada melhor.
A história desse tipo de cinema no Brasil é confusa e obscura. Como vocês escolheram com quem iam falar? Vocês se preocuparam em contextualizar o "gênero" no filme? Aliás, que rótulo vocês usam pra abordar essas obras - underground, trash, boca do lixo?
Decidimos utilizar o termo underground mesmo. Tá certo que o documentário é totalmente voltado pro gênero horror. Vimos, durante as gravações, que existe uma parte da galera que não gosta do termo "trash" por achar pejorativo, mas por outro lado tem um pessoal que faz questão de usar esse termo. Pra não dar problemas decidimos chamar de Sangue Marginal - Relatos de Cinema e Vídeo Underground. Escolher com quem falaríamos foi algo crucial. Tínhamos em mente já quem chamar, as perguntas a serem feitas. Mas o interessante mesmo foi o que foi surgindo e botando mais a fundo a nossa pesquisa. E também por ver o cinema under possuir uma vasta produção voltada pro horror/terror (pra num dizer os inúmeros sub gêneros que existem) decidimos aprofundar nesse gênero. E pô, cá entre nós, o Marcão é fissurado por esses filmes desde criança. É meio que uma paixão dele. Eu entrei de cabeça pra ver mesmo, pra conhecer esse universo bem curioso.
Então você é o amigo que entra na furada e o Marcão é o lóki que curte uma podreira? O quanto você conhecia desse universo antes de começar a fazer o documentário?
[Risos]. Furada nada. Estou curtindo pra caralho fazer esse documentário. É um puta universo diferente que você vai descobrindo. Gostos diferenciados, estilos, pessoas, ideias. Bem interessante pra mim que vim “de fora". Conhecia alguns filmes do Mojica, As Sete Vampiras do Ivan. Mas do meio oculto que é o “udigrudi” eu não conhecia nada. E porra, é muito bom ter uma visão de fora da coisa né? Creio que isso que foi um ponto positivo pro nosso trabalho em dupla. Tipo, um complemento do outro. Queríamos fazer um doc pra mostrar o que é o universo under pra quem não conhece nada do universo under. É como dar a voz pra essa galera que tá gritando (produzindo) aí e a massa não vê. Às vezes nem por falta de interesse, mas porque não conhecem mesmo, porque nunca ouviram falar.
O cinema underground de terror é um lance quase internacional, tipo black metal mesmo - em qualquer canto tem um moleque com um balde de sangue falso, um saco de bicho de goiaba e uns amigos com QI baixo para aparecer em um VHS (ou vídeo de celular hoje em dia). Qual você acha que é a diferença dos brasileiros em relação aos outros loucos do mundo?
Os brasileiros são bem insanos, viu? Vimos alguns vídeos em que ficamos enlouquecidos pela demência que os caras tentam passar. Principalmente a galera do sul, só uns vídeos retardados. O terror é internacional mesmo, sempre seguindo a linha de zumbis, vampiros, lobisomens, tudo chupado da gringa. O diferencial mesmo que tenho visto, e achei bem interessante, é a galera querer usar mitos do nosso folclore como personagens dos filmes. Tipo mula sem cabeça, saci, curupira, boitatá, corpo-seco...
Você falou que curte os malucos do sul. Quem são os seus realizadores favoritos? E por onde você acha que um leigo tem que começar a fuçar isso?
Porra, curti bastante os trampos do Gurcius e do Peter. A maioria é bem tapa na cara mesmo, crítica total. Tudo nos filmes deles fala sobre as merdas que rolam no país, relacionamentos mal sucedidos [risos]. Sempre tem uma cutucada, um protesto no meio. E sei lá cara, acho que pra você começar a se aprofundar nisso o negócio é a internet mesmo. Isso é um puta instrumento pra galera que produz hoje em dia. Tanto é que no documentário a gente aborda muito isso, esse lance de internet e divulgação. Então o esquema é ver uns vídeos no YouTube, baixar torrent, pesquisar em sites especializados sobre os caras e as obras e também assistir ao doc aí que tá saindo do forno logo menos pra mostrar pra todo mundo a obscuridade brasileira [risos].
Pois é, tem esse lance de YouTube. Essa geração que você cita, o Gurcius e o Peter, veio do vídeo, onde você tinha que fazer pelo menos 30min de filme pra alguém te dar atenção, e ter vontade de gastar a grana em uma fita. Mas hoje a galera parece ter déficit de atenção, e qualquer vídeo com mais de um minuto e meio no YouTube fica chato. Você acha que a internet vai mexer com a maneira que esses vídeos são produzidos? Ou acha que ela é um terreno mais fértil pra aparecerem mais loucos?
Pô, não acho que a galera tenha déficit de atenção não. Acho que por ser uma parada mais fácil de se fazer (câmeras digitais que qualquer um tem hoje, programas de edição fáceis de mexer, o YouTube que é só mandar e pronto, o mundo inteiro já vê) acaba surgindo muita porcaria. A galera faz umas porcarias pra por na net que não vale a pena ficar perdendo o tempo. Agora, se o vídeo consegue prender a atenção do espectador, não importa se ele é feito de celular no quintal de casa. Se tiver um bom roteiro, uma boa história... Com certeza vai atrair público. Daqui pra frente o que vai contar vai ser isso. Pra se conseguir atingir uma galera, a criação vai ter que ser bem mais elaborada.

Essa parte da produção é uma das coisas mais legais no cinema underground – o cara fazer no quintal de casa e tal. Você se surpreendeu com alguma história que descobriu fazendo o doc, de alguma cena feita na raça?
Me surpreendi com uma cena do curta "Sozinho" (do diretor André ZP, que também queremos entrevistar) que no primeiro ano de faculdade, quando conheci o Marcão, ele me mostrou e fiquei de boca aberta. A cena é a seguinte: Um cara deitado numa cama com uma garota de pé em cima dele. Ela começa a chutar a cabeça do cara, sangue pra todo lado, vômito... A cena é muuuuuito real. É aquela parada agonizante de você ver o cara com dificuldade de respirar todo quebrado. No DVD que o Marcão tinha também tinham os making ofs que mostravam como foi feita a cena. Porra, são umas coisas tão fáceis de fazer que você nem imagina. Mas na tela dá um realismo do caralho.
Porra, fiquei curioso. Aliás, onde dá pra comprar essas coisas? Existe um site virtual, uma comunidade que agregue esses artistas e onde seja mais fácil entrar em contato com essas obras?
Tem sites especializados, como falei. Tem uns que vendem só DVDs, galerias em São Paulo você encontra também... Só dar uma vasculhada. Esse 3 Cortes tem na Galeria do Rock, uma loja chamada Mutilation Records. É uma espécie de gravadora, distribuidora e loja. Mas também tem vídeos disponibilizados na net no caso do Gurcius. O Peter vende em DVD, só entrar em contato com ele.
Outra coisa louca é que muita gente vê esses filmes para dar risada - esses filmes são mais de humor ou terror?
Putz velho, é um mix, né? É como o Terrir do Ivan Cardoso, a pornochanchada do Mojica... Por exemplo, o Mamilos em Chamas do Gurcius. Aquela parada é hilária. Mas puta, são cadáveres de coelhos, cara. É uma puta misturança do caralho.
É, tem coisa nesses filmes que tem que ser muito doente pra conseguir dar risada.
Pois é.

Você também disse que o doc aborda coisas como incentivo cultural do governo, direitos autorais. Por que um filme dos Barreto junta dez milhões de reais e esses caras têm que fazer com a grana do bolso deles?
Vamos falar de toda a "indústria" independente. O lance de gravar o filme, editar e depois de pronto arrumar maneiras de distribuir. E também como é financiado. Tem produtor que faz vaquinhas, outros juntam grana por um tempo pra produzir, outros ainda vendem sofás e móveis pra financiar e com a grana do lucro compram de volta.
Dá pra ter lucro?
Depende viu. É meio que uma roleta russa. Como disse o Mojica no doc: Ele vendeu casa pra poder produzir e acabou perdendo tudo por causa de um filme. Depende muito se a história é boa, se ela é bem gravada, se convence mesmo o público. Se tudo der certo, aí é você arrumar uma forma de distribuição e só faturar. Peter por exemplo, o cara está passando os filmes dele em VHS pra DVD com extras e tudo mais (coisa que não existiam nas fitas) e só recebendo por um filme que ele produziu anos atrás.
E tem público pra isso no Brasil? A galera exporta muito?
Tem, tem sim. É isso que queremos mostrar. Tem um público que você não faz idéia. Uma galera escondida que curte pra caramba esses tipos de filmes. Geralmente é mais nas capitais. Você dá uma garimpada e acaba se esbarrando com cinemas que exibem, lojas que vendem, mostras, festivais... Pelo que vimos durante a produção do documentário, vende até que relativamente bem lá fora. Como disse, com a internet fica muito mais fácil você ser reconhecido fora do país. E também com os meios digitais é só tacar uma legenda em inglês, espanhol, havaiano que já vai ser aceito. A Cachorro mesmo fez uma coletiva com o Mojica tempo depois do lançamento do Encarnação do Demônio. Fizemos uma edição legal, colocamos legendas em inglês... Só que era feito em três partes. Só lançamos a primeira na internet. O número de gringos pedindo pra colocar a outra parte era grande. Através disso já da pra sentir como os gringos curtem coisas brasileiras.
Uma das coisas que eu pensei na hora que trombei com o trailer foi "POR QUE NINGUÉM PENSOU NISSO ANTES?". Qual é o nível de registro e estudo que esse tipo de cinema tem no Brasil?
Então... Foi a mesma coisa que eu falei pro Marco Antonio. "Porra! Mas será que num tem nada falando sobre isso já?" Pesquisamos sobre o assunto na internet, livros e filmes. O que achamos foi um doc de 10 minutos de umas garotas de uma universidade de São Paulo, coisa pouca, nada muito abrangente. Em livros o que achamos foi algo sobre cinema amador em geral, cultura de vídeo, vídeo arte... Nada específico. Onde achamos bastante coisa foi na internet mesmo, como o site www.bocadoinferno.com que existe faz uns oito anos. Alguns artigos ali, outro lá. Resolvemos juntar tudo e colocar em vídeo, com trechos das obras, pra galera ter uma noção real do que estávamos abordando. E lembrando que na parte de livros, o que nos ajudou demais foram os livros dos pesquisadores da Anhembi Morumbi. Eles tem um grupo de pesquisas lá liderado pela professora Bernadette Lyra e Gelson Santana que estuda o cinema independente no Brasil. Não só a parte de horror mas o trash (mal feito) em geral. Foi através do livro deles que a gente pode se aprofundar mais nessa parte.
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