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      Será que o Krokodil, a Droga Russa Devoradora de Carne Humana, Chegou ao Reino Unido?

      October 3, 2013


      Pessoas injetando krokodil na Sibéria, imagem do vídeo Lágrimas de Krokodil da VICE. Foto por Stuart Griffiths.

      Você lembra quando a gente te alertou sobre os prazeres do krokodil, né? Caso você tenha esquecido, essa é aquela droga russa parecida com a heroína, com a diferença que ela come a carne humana porque é feita com analgésicos misturados com coisas como gasolina e enxofre. Como a sisa na Grécia, o krokodil é um novo tipo de droga que chega agora às ruas empobrecidas da Europa e parece estar se espalhando muito além da Rússia. Em abril, encontramos usuários de krokodil quando acompanhávamos um trio de adolescentes exorcistas na Ucrânia e, na semana passada, ficamos sabendo que a droga está sendo usada no Arizona, Estados Unidos.Tratando-se de Reino Unido, o Dr. Allan Harris, um especialista no tratamento de sem-tetos e viciados, informou que “há vários sinais alarmantes” de que o krokodil está começando a ser usado em Gloucester, onde fica a clínica dele. Num artigo que escreveu para o Independent, ele também mencionou já ter tratado um homem que ele acreditava ter injetado o krokodil.

      Liguei para ele para discutir suas descobertas. Negociamos se era melhor chamar a droga de krokodil (em russo) ou anglicizar o nome, já que isso chegou até aqui, e se referir à droga como “crocodile”. (Usei a primeira opção aqui, mas o Dr. Harris foi bastante inflexível sobre usar a última.) O mais importante aqui é que ele oferece uma visão esclarecedora sobre a cena deprimente das “drogas com coisas piores do que drogas” do Reino Unido.

      VICE: Oi, Alan. Então, você só encontrou um caso de krokodil por aqui?
      Dr. Alan Harris: Sim, quer dizer, é meio que um retrospecto, porque isso foi alguns anos atrás. Na época, achei que aquilo era só uma queimadura de ácido cítrico num usuário de heroína, mas relembrando o caso, a destruição de tecido era muito mais excessiva [do que se espera de uma queimadura de ácido]. Com ácido cítrico você em geral tem uma queimadura de segundo grau, mas se tratava de uma grande cratera no músculo do antebraço. Quando você tirava o tecido morto, era possível ver os tendões se movendo na base da cratera, assim como os músculos – bem parecido com essas imagens horríveis que você vê nos panfletos de alerta sobre o krokodil. Chegou a um ponto em que ele não conseguia mais mover a mão direita, porque aquilo tinha enfraquecido muito o músculo. Ele só conseguia enrolar um cigarro e mais nada.

      Como você tratou isso?
      Eles fizeram um enxerto de pele por cima, que cicatrizou bem, mas que era horrível. Os músculos nunca cresceram de volta, estavam completamente gangrenados. Pensando agora, isso não se encaixava em nada com ácido cítrico, porque isso é um simples irritante, não pior do que uma ligeira infecção. Aquilo era muito, muito desproporcional. De uma pequena injeção que ele tomou na área de uns 12 ou 8 centímetros de tecido, a droga foi da pele até o osso.

      Por que você pensou em ácido cítrico?
      Você coloca a heroína em pó na colher com um pouco de ácido cítrico – suco de limão é o mais usado. Viciados em heroína usam isso quando vão injetar a droga porque a diamorfina é alcalina. Então, quando você usa o ácido cítrico, que é um ácido fraco, ele faz o pó se dissolver mais rapidamente.

      Entendi. E o que aconteceu com esse cara?
      Ele morreu recentemente.

      Sinto muito ouvir isso. Ficou confirmado que ele morreu pelo uso de krokodil?
      As investigações ainda estão em andamento. Não posso dizer com certeza. Ainda estamos esperando pelos resultados da toxicologia do legista.

      Você acha que misturar drogas com coisas estranhas está se tornado algo mais difundido na Inglaterra?
      Sim, quase com certeza. Temos tido problemas com tétano e antraz encontrados em lotes de heroína. Antes, nós nos preocupávamos com heroína misturada com estricnina. Os traficantes vão usar qualquer coisa com um gosto amargo para misturar à heroína. Essa coisa já está disponível e só leva meia hora para uma pessoa fazer um pouco para si mesma. Todos os ingredientes tóxicos vão direto para a veia, e é isso que causa essa perda de tecido horrível.

       

      Nosso vídeo Sibéria: Lágrimas de Krokodil.

      Com todos esses efeitos bizarros, por que tem gente que ainda usa essa coisa?
      Bom, isso é muito potente, altamente viciante, mais sedativo e cerca de dez vezes mais forte do que a morfina, então, desse ponto de vista, a droga tem um potencial viciante maior do que a morfina e a diamorfina normais – ou seja, a heroína. E também tem um efeito mais de amortecimento. Essa droga foi desenvolvida nos anos 1930 nos Estados Unidos e tem um agente narcótico, sedativo e anestésico muito forte. Infelizmente, essas propriedades se mantiveram até hoje.

      O que está desencadeando seu uso? Há um problema no suprimento de heroína?
      Recentemente, sim. Já vimos isso historicamente; obviamente, temos os esforços de guerra no Afeganistão, onde eles destroem grandes plantações de papoula. Durante este ano, tivemos uma queda enorme na disponibilidade, então, os usuários estavam usando heroína misturada com tanta coisa que mostravam sintomas de desintoxicação, porque a droga não era forte o suficiente. Mais recentemente, tivemos um declínio na heroína – acho que por causa de um policiamento mais extensivo – mas sua disponibilidade parecer estar crescendo novamente. Os traficantes estão conseguindo chegar aos suprimentos de heroína de novo e isso provavelmente vai diminuir o problema das pessoas fazendo seus próprios substitutos para a heroína, como o krokodil. E claro, quando a disponibilidade de heroína diminui, o uso de mefedrona aumenta também. Eles usam um processo químico parecido para misturar isso – um agente similar.

      Similar ao krokodil?
      Sim, eles estão krokodilizando o Mkat – sabe, o “meow meow” (mefedrona) – para torná-lo injetável e mais potente. Recentemente, temos visto mais o uso de mefedrona injetável para compensar a redução na heroína. A coisa que eles estão fazendo agora é mais... viscosa. Às vezes, isso chega a solidificar dentro da seringa. É muito desagradável, é o que estou tentando dizer. E temos visto coágulos em usuários que injetaram isso na veia femoral, no topo da perna.

      Outra coisa é a pregabalina, que em geral é usada para tratar de epilepsia, dor e ansiedade. Isso ganhou um valor de mercado agora nas ruas e já temos visto ela ser usada como droga recreacional. As notícias sobre isso chegaram lentamente, na verdade; acho que não tem havido muita publicidade em cima disso e espero que essa informação não se espalhe. Mas como é fácil de fazer, acho que é só uma questão de tempo até mais pessoas começarem a tentar fazer suas próprias drogas.

      Há alguma coisa em particular em Gloucester que faça isso acontecer aí?
      Não. Ironicamente, Gloucester é o lugar com a heroína mais barata do país. Normalmente, na maioria dos outros lugares, ela custa £20 (cerca de R$71) por um saco de um pouco mais de 100 gramas, e em Gloucester isso sempre custou cerca de £10. Quer dizer, é claro que a qualidade e a quantidade que você consegue da droga são variáveis.

      E o que deveria ser feito quanto a isso?
      Até onde vai o uso do krokodil, acho que você deve evitar o uso disso a qualquer custo. Deveríamos estar conscientizando mais pessoas. Colocamos um monte de cartazes sobre isso na clínica em Gloucester. Acho que é uma questão de conscientizar a comunidade de usuários de drogas de que essa coisa é incrivelmente ruim, encurta sua expectativa de vida drasticamente e é altamente viciante.

      Siga o Simon no Twitter: @simonchilds13

      Assista todas as partes do nosso documentário:

      Lágrimas de Krokodil - Parte 1

      Lágrimas de Krokodil - Parte 2

      Lágrimas de Krokodil - Parte 3

      Lágrimas de Krokodil - Parte 4

      Mais drogas horríveis?

      Sisa: A Cocaína dos Pobres

      Sais de Banho na Ferida

      O Diário do Sapo

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      Tópicos: Krokodil, drogas, droga russa, crocodile, Dr. Allan Harris, fronteira, heroína, drogas injetáveis, Reino Unido, Gloucester, toxicologia, ingredientes tóxicos, gasoline, enxofre, Mkat, mefedrona, sisa, Simon Childs

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