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      Sobrevivi a um Atentado a um dos Líderes do Real IRA

      November 9, 2012

      Por Brian Whelan


      Funeral do líder do Real IRA Alan Ryan

      No dia 4 de setembro, Alan Ryan, o líder do Real IRA de Dublin, foi assassinado, alvejado na cabeça e nas costas em plena luz do dia nas proximidades da casa de sua família. Seu amigo Paul Stewart estava com ele na hora do atentado e escapou se escondendo atrás de um carro.

      Encontrei o Paul em Dublin pra saber mais sobre a onda de conflitos entre gangues que está engolfando a cidade e que quase custou sua vida.

      Paul não é o tipo de homem que você esperaria encontrar numa situação como essa. Um estudante de mestrado de 23 anos com um grande interesse por política, Paul confidencia que via o ex-líder do Real IRA (RIRA) como um tipo de irmão mais velho, mas insiste que não sabia que ele era um voluntário do IRA. Agora, traficantes de drogas colocaram sua cabeça a prêmio, então ele raramente passa muito tempo num só lugar e vive sob constante (e indesejada) vigilância. Perseguição policial é uma parte normal da vida de qualquer um que, como Paul, apoia o Movimento pela Soberania dos 32 Condados, o braço político marginalizado do Real IRA. Nosso encontro aconteceu num espaço aberto e ele brincou dizendo que poderia me usar como escudo humano se algo saísse errado. 


      Alan Ryan

      Paul explica como estava andando com Alan perto da casa de sua família, quando um homem veio correndo atrás deles com uma arma e começou a disparar descontroladamente contra eles.

      O líder do Real IRA foi atingido repetidamente nas costas, e Paul conseguiu se abaixar atrás de um carro. Ele está frustrado por não ter perseguido o matador depois, mas aceita que isso teria sido inútil. Um terceiro homem, Aaron Neilis, também estava com eles no momento do tiroteio e sobreviveu, mas foi atingido na perna.

      Deixando de lado a história e as motivações por trás do caso por um momento, Paul diz que foi a indiferença da polícia que acabou levando seu amigo à morte. “Não tem como os policiais não saberem que isso ia acontecer”, ele insiste. “Um jornalista disse no rádio que sabia do plano pra matar Alan Ryan. Por que a gardai (polícia) não fez uma ameaça de morte oficial a ele? Depois que o Alan foi morto, eles não mandaram o helicóptero e a polícia só chegou no local depois de dez minutos, mesmo numa área com grande policiamento.”

      Paul afirma que os policiais zombaram de seu amigo morto na frente da mãe de Ryan e depois apontaram armas aos republicanos que chegaram pra dar apoio à família.

      No dia em que me encontrei com Paul, o Ministro da Justiça da Irlanda anunciou que a polícia não ia se esforçar pra oferecer proteção 24 horas pra manter vivos os criminosos que receberam ameaças de morte.

      O Real IRA tem um papel sangrento e complicado no submundo do crime da Irlanda. Os barões das drogas têm realizado uma guerra de gangues brutal em Dublin nas últimas duas décadas, pra lutar pelo controle do mercado e sobreviver aos vigilantes republicanos pesadamente armados.

      Alan Ryan tinha apenas 31 anos quando morreu, mas lutava contra os traficantes do norte de Dublin há anos. Sob sua liderança, o Real IRA derrubou o chefe do crime Micka Kelly, o “Panda”, e anunciou isso corajosamente escrevendo “RIRA antidrogas. Micka Kelly traficante morto” numa parede de sua fortaleza em Northside.

      No auge do boom da economia do Tigre Celta, o tráfico de drogas irlandês rugia, movimentando um valor estimado em um bilhão de euros. A polícia afirmou que o IRA estava taxando os criminosos e realizando esquemas de proteção. Mas agora a demanda por cocaína entrou em colapso, as 20 maiores gangues no topo da cadeia alimentar competem pelo controle de um mercado em retração (que também inclui heroína, metanfetamina e cannabis), tentando desesperadamente proteger seus lucros. 

      O assassinato de Alan foi encomendado por gangues do tráfico de drogas que acreditavam erroneamente que ele não estava mais sob proteção do IRA. Percebendo o erro tarde demais, muitos fugiram do país quando o RIRA se reuniu pesadamente em Dublin e seu novo comandante de operações jurou vingança.

      Nos últimos anos, sob a liderança de Alan Ryan, o RIRA de Dublin esperava limpar sua imagem — a mídia podia até retratar o grupo como uma gangue puramente criminosa que extorquia dinheiro de grupos rivais, mas eles se viam como guerrilheiros travando uma batalha ideológica. Numa ação pra limpar seu nome, o grupo explodiu a casa de um criminoso de Dublin que supostamente teria usado seu nome pra intimidar e extorquir pessoas. Bombardear uma casa numa tentativa de ganhar pontos “morais” pode parecer perverso, mas acho que esse é o código moral sob o qual esses caras operam. 

      Ryan foi preso pela primeira vez aos 19 anos por frequentar um acampamento de treinamento do IRA. Mesmo o The Guardian o descreveu como “um mafioso que extorquia dinheiro de traficantes e comerciantes” depois de sua morte, mas alguns de seus vizinhos pensam de maneira claramente diferente.

      Seus amigos o descrevem como um homem profundamente político que lia Noam Chomsky e Howard Zinn, que se identificava como socialista e que odiava ver pessoas vulneráveis serem assediadas. Sendo assim, ele estava disposto a atuar como vigilante da comunidade local.

      Cresci algumas ruas abaixo da propriedade onde Alan Ryan viveu toda sua vida. Tínhamos quase a mesma idade e eu sempre estive consciente da presença do IRA. Uma vez me contaram uma história sobre como ele enfiou uma arma na boca de um jovem ladrão que invadia casas na área, mas eu mesmo nunca senti que precisava ter medo dos Ryan.

      Alan Ryan teve um funeral republicano tradicional. Voluntários mascarados do IRA dispararam uma saraivada de tiros sobre seu caixão do lado de fora da casa da família, um incidente que mais tarde levou a 17 prisões. Entre os detidos estava o irmão de Ryan.

      Paul afirma que o funeral enfureceu o establishment irlandês. “Apesar de toda a polícia, a mídia e os políticos dizerem que esse homem era um bandido, um gângster, duas mil pessoas compareceram ao seu funeral e o IRA marchou — isso realmente mexeu com eles.”

      Previsivelmente, o assassinato de Ryan não tornou as coisas menos tensas na área. Um morador me contou que, na noite anterior à cerimônia, republicanos estacionaram nas ruas, bloqueando o acesso às vielas e até mesmo parando carros pra interrogar os motoristas.

      Alguns dias antes da minha chegada à Irlanda, dois homens foram mortos a tiros na frente de seus filhos na cidade. Alegou-se que essas mortes eram parte de uma das muitas rixas contínuas do tráfico de drogas em Dublin, mas outros rumores diziam que isso podia ser o começo do plano do Real IRA pra matar todos os homens envolvidos na morte de Ryan.

      Paul explica que a criminalidade e o envolvimento com drogas são proibidos no movimento republicano. Ele se recusa até a usar a palavra “junkie” quando fala sobre o recomeço do problema da heroína em Dublin. "Alan me disse pra parar de dizer 'junkie', ele explicou que esses viciados em drogas é que são as vítimas."

      “O IRA em Dublin declarou publicamente que as comunidades trabalhadoras precisam se mobilizar. O IRA sabe que não é a solução, que é apenas um instrumento grosseiro que só pode tratar o subproduto de um problema social mais profundo — ou seja, o tráfico de drogas.”

      Uma declaração do RIRA de 2010 esclareceu como o grupo se sustentava financeiramente e prometia executar qualquer um que usasse seu nome: “O IRA nunca recebeu dinheiro de criminosos pra permitir que eles continuassem suas operações”, afirmou. “Temos de fato aliviado eles de suas finanças e armas e depois fechado suas operações."

      “Aqueles que desejam enfrentar o movimento republicano devem ter isso em mente. Esses parasitas são membros de uma gangue — os membros do IRA são parte de um exército disciplinado com experiência de guerra.”

      Seria errado pintar os membros do Real IRA como santos — às vezes eles são “forçados” a cruzar com o mundo do crime pra levantar fundos, com o roubo de bancos e contrabando de cigarros e diesel sendo as opções preferidas. As rotas usadas por eles são frequentemente as mesmas usadas pelas gangues que eles afirmam repudiar. No entanto, Paul diz que Alan é um “símbolo perigoso” agora que está morto — um exemplo de alguém que se fez “sem explorar ninguém”.

      No norte de Dublin e em outras áreas pobres da cidade, existem pessoas que acreditam claramente que Alan Ryan foi um exemplo a ser seguido. As pichações nos parques locais deixam isso evidente. Torcedores de futebol chegaram mesmo a levantar cartazes de “Descanse em Paz Voluntário Alan Ryan” em algumas partidas. Apesar da morte de Ryan, parece que aqueles na mira do RIRA estão operando com tempo contado. 

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      Guia VICE Para Belfast

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      Tópicos: Real IRA, RIRA, Alan Ryan, Dublin, Gangues, Violência, Assassinatos, Irlanda, drogas, Tráfico de drogas, Brian Whelan

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