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      Tô de Saco Cheio Desses Hipsters Trombonistas

      January 15, 2013

      Por Clive Martin

      Writer


      Acima: hipsters

      Todo mundo aqui já sabe que há muito tempo estamos vivendo na Era da Ironia. A colaboradora do New York Times Christy Wampole prestativamente reiterou isso pras massas em seu artigo “Como Viver Sem Ironia”, recentemente republicado no Brasil pela Serrote. Como artigo, até que não está mal escrito e é bastante articulado, mas realmente não diz nada que a gente não tenha ouvido antes — aquela coisa toda de você e eu não sermos nada mais que uns croutons inconstantes retromaníacos, rindo enquanto flutuamos numa sopa pós-moderna, nos agarrando a destroços de propósito e significado, blá-blá-blá.

      Mas uma parte no texto me chamou atenção:

      Se a ironia é o éthos de nossa época — e ela de fato é —, então o hipster é o nosso arquétipo do estilo de vida irônico.”

      “O hipster assombra todas as ruas da cidade e cidades universitárias. Manifestando uma nostalgia por épocas que ele mesmo jamais viveu, esse arlequim contemporâneo se apropria do que há de mais ultrapassado no que diz respeito à moda (bigodes, shorts minúsculos), quinquilharias (bicicletas de marcha única, toca-discos portáteis) e hobbies (produção artesanal de bebidas, tocar trombone).”

      Oi, quê? Tocar trombone? Desde quando alguém toca trombone ironicamente? Não consigo pensar em nenhuma dessas bandas retrô ou num remix de moombahton que use trombone. Não consigo me lembrar de um dia ter ouvido alguém pronunciar a frase: “Fodam-se esses trombonistas hipsters”. Não consigo sequer me lembrar de nenhum trombonista famoso, fora aquele cara que faz o Bunk no The Wire naquele filme sobre Nova Orleans. E nem sei se aquilo era mesmo um trombone.


      Christy Wampole, Ph.D., banhada pela luz da justa sinceridade.

       

      À medida que continuei lendo, me deparei com outro parágrafo que me pareceu o ponto crucial do artigo, uma lista de perguntas que visa nos ajudar a examinar nossas vidas pra, assim, nos tornarmos menos irônicos — ou seja, menos hipsters — e mais sinceros:

       

      “Começa assim: dê uma olhada ao seu redor, em casa. Você se vê cercado de coisas de que gosta mesmo ou coisas de que gosta só porque são absurdas? Ouça o que você diz. Pergunte a si mesmo: Eu me comunico essencialmente por piadas internas e referências à cultura pop? Que porcentagem das coisas que falo tem sentido? O quanto me valho de linguagem hiperbólica? Eu me faço de indiferente? Olhe suas roupas. Quanto do seu guarda-roupa poderia ser descrito como peças de fantasia, derivativas ou reminiscentes de algum arquétipo de estilo específico (a secretária, o mendigo, a coquette, ou você quando era criança)? Em outras palavras, suas roupas fazem referência a alguma outra coisa, ou só a si próprias? Você tenta deliberadamente parecer nerd, estranho ou feio? Em outras palavras, o seu estilo é um antiestilo? A pergunta mais importante: como você se sentiria se sofresse uma mudança interna, em silêncio, off-line e sem que os outros vissem?”

       

      É tipo um Histórias para Aquecer o Coração escrito pelo Slavoj Žižek, né?

      Combinando esses dois, resolvi que era hora de testar a teoria da Christy. Será que somos mesmo apenas “citações ambulantes”, presas nessa tal “vida irônica” que “revela um amortecimento, uma resignação e uma derrota culturais” e que está cheia de “mero apanhado de objetos kitsch, uma série infinita de piadas sarcásticas e referências à cultura pop”? Estamos todos participando de “uma competição para ver quem consegue ser mais apático”?

      Decidi chamar os principais suspeitos — aqueles trombonistas desgraçados que estão destruindo o coração do nosso planeta — pra fazer as perguntas do programa de autoajuda da Doutora Wampole. 


      Richard Debonnaire, trombonista 
      (@BromleyTrombone).

       

      VICE: Olá, Richard. Você se cerca de coisas que realmente gosta ou de coisas que gosta simplesmente porque são absurdas?

      Richard Debonnaire: Tenho coisas que gosto porque gosto, não pra afirmar alguma coisa.

       

      OK. Agora ouça seu próprio discurso. Você se comunica principalmente através de piadas internas e referências à cultura pop?

      Eu diria que não. Não tenho aversão a isso, mas até onde vão as piadas internas de trombone, qualquer coisa que leve um pouco de lubrificação sempre gera algumas risadas.

       

      Então os trombones são inerentemente engraçados?

      Parece um instrumento jocoso em muitos aspectos, mas é bem sério, e difícil de tocar também. 

       

      OK, desculpe. De volta ao questionário: Que porcentagem do seu discurso é significativo?

      Sou conhecido por ser brincalhão, mas se isso tem alguma associação direta com o meu trombone, eu não sei dizer. É mais um traço de caráter do que algo induzido pelo trombone.

       

      Você usa muitas hipérboles?

      Ah sim, sou conhecido por exagerar. Quanto? Eu tento tomar cuidado. Só faço quando sei que todo mundo entende o que estou fazendo.

       

      Você finge indiferença?

      Sim, ocasionalmente. Às vezes finjo que não ligo pra algumas coisas. Você sabe como é.

       

      Você está me acusando de ser um hipster?

      Não.

       

      Então tudo bem. Quais partes do seu guarda-roupa podem ser descritas como fantasias, derivadas ou reminiscentes de algum estilo arquetípico específico?

      Não muito, a maioria dessas coisas foram jogadas fora quando me casei. Eu tinha uma velha jaqueta jeans. Eu a usava em concertos ao vivo e tal. Eu já tocava trombone naquela época. Pra falar a verdade, nunca me preocupei muito com estilo, mas eu usava aquela jaqueta quando era adolescente. Minha esposa a jogou fora sem me avisar. Mas acho que não estou sozinho nessa. 

       

      Você tenta intencionalmente parecer nerd, estranho ou feio?

      Não, eu tento evitar parecer todas essas coisas. 

       

      Em outras palavras, seu estilo é um antiestilo?

      Eu não diria que tenho um estilo. Não sou esse tipo de pessoa. Não costumo seguir a moda. Tento trabalhar na minha própria área. Sigo meu próprio caminho. Não faço isso como uma afirmação de nada. Por mim, eu seria um pesadelo fashion, mas minha esposa me mantém na linha.

       

      A pergunta mais importante: Como você se sentiria em mudar a si mesmo discretamente, offline, sem exposição pública, de dentro pra fora?

      Não sei como responder isso.

       


      Andrew McCoy, trombonista 
      (SoundCloud).

       

      VICE: Você se cerca de coisas que realmente gosta ou de coisas que gosta só porque são absurdas?

      Andrew McCoy: Me cerco de coisas que gosto. Não tenho nada por uma questão de achar aquilo estranho.

       

      Agora ouça seu próprio discurso. Você se comunica principalmente através de piadas internas e referências à cultura pop?

      Sim, tenho um monte de piadas internas.

       

      Que porcentagem do seu discurso é significativo?

      70%.

       

      Sério?

      Sim!

       

      Suas roupas se referem a algo mais ou simplesmente a si mesmas?

      Minhas roupas? Elas não têm nenhum significado secreto. São só roupas. Não.

       

      Você tenta intencionalmente parecer nerd, estranho ou feio?

      Não.

       

      Em outras palavras, seu estilo é um antiestilo?

      Não, não, não, não, não!

       

      A pergunta mais importante: como você se sentiria em mudar a si mesmo discretamente, offline, sem exposição pública, de dentro pra fora?

      Não entendi a pergunta. Sei lá.

       


      Martyn Hunter, trombonista 
      (bio).

       

      VICE: Você se cerca de coisas que realmente gosta ou de coisas que gosta simplesmente porque são absurdas?

      Martyn Hunter: Porque são absurdas.

       

      Entendo. Martyn, ouça seu próprio discurso. Você se comunica primariamente através de piadas internas e referências à cultura pop?

      Sim, piadas internas compõem a maior parte do repertório do trombone. A padrão é: “Qual a faixa de notas de um tocador de bumbo?”. E a piada é: “Ligado ou desligado”.

       

      Isso é uma piada irônica?

      Não.

       

      Que porcentagem do seu discurso é significativo?

      Nunca pensei nisso. Eu diria que em torno de 80%.

       

      Quanta linguagem hiperbólica você usa?

      Cerca de 60%.

       

      Como 80% do seu discurso é significativo se 60% dele é hiperbólico? Você não pode ter 140% de discurso.

      Sei lá. Me deixa em paz. 

       

      Quais partes do seu guarda-roupa podem ser descritas como fantasias, derivadas ou reminiscentes de algum estilo arquetípico específico?

      Pergunta difícil, muito difícil. Não estou tentando imitar nenhum estilo ou conceito. São roupas, apenas isso.

       

      Em outras palavras, seu estilo é um antiestilo?

      É, exatamente. Sim, é isso. 

       

      A pergunta mais importante: Como você se sentiria em mudar a si mesmo discretamente, offline, sem exposição pública, de dentro pra fora?

      Na verdade não sei. Não consigo pensar em nada pra responder a isso.

       


      Meredith Moore, trombonista 
      (bio).

       

      VICE: Você se cerca de coisas que realmente gosta ou de coisas que gosta só porque são absurdas?

      Meredith Moore: Hum, coleciono instrumentos de bronze. Tenho vários chifres de caça. Eles são pink — uso na decoração e acho que são legais. Eles são um pouco engraçados, as pessoas sempre tentam tocar. Mas claro que não dá pra tocar nada neles.

       

      Ouça seu próprio discurso. Você se comunica primariamente através de piadas internas e referências à cultura pop?

      Provavelmente sim. 

       

      Quanta linguagem hiperbólica você usa?

      O que isso significa?

       

      Você usa muitas hipérboles?

      Não sei o que isso significa. 

       

      Você finge indiferença?

      Sim. 

       

      Você tenta intencionalmente parecer nerd, estranha ou feia?

      Não, definitivamente não. 

       

      Em outras palavras, seu estilo é um antiestilo?

      Não. Acho que meu estilo é... Muito “estiloso”. 

       

      Como você se sentiria em mudar a si mesma discretamente, offline, sem exposição pública, de dentro pra fora?

      Bom, tenho muito cuidado com o que faço online. Muito do que faço na internet é um reflexo do que faço de fato e de quem sou. Eu nunca diria uma coisa online que não quisesse dizer de verdade. Tento não colocar muitas coisas na internet. Gosto de manter minha privacidade.

       


      John Roskilly, trombonista 
      (página).

       

      VICE: Você se cerca de coisas que realmente gosta ou de coisas que gosta simplesmente porque são absurdas?

      John Roskilly: Ah sim, acho que sim. Tenho um didjeridu e um boné hang loose japonês. Provavelmente a coisa mais interessante que tenho é um fantoche de freira com luvas de boxe que soca as pessoas.

       

      Você trouxe o didjeridu de uma viagem particularmente memorável na Austrália?

      Não, só achei por aí.

       

      Então me desculpe, mas você vai ter que queimá-lo, ele não é sincero. Mas antes de fazer isso, ouça seu próprio discurso. Você se comunica primariamente através de piadas internas e referências da cultura pop?

      Eu diria que não.

       

      Que porcentagem do seu discurso é significativo?

      Ah... Metade, acho.

       

      Então metade do seu discurso é frívolo?

      Sim, é meio bobo.

       

      Quanta linguagem hiperbólica você usa?

      Ah, bastante.

       

      Alguma razão específica pra isso?

      Acho que torna as coisas mais coloridas.

       

      Quais partes do seu guarda-roupa podem ser descritas como fantasias, derivadas ou reminiscentes de algum estilo arquetípico específico?

      Tenho algumas coisas que poderiam ser descritas como meio que fantasias. 

       

      A pergunta mais importante: Como você se sentiria em mudar a si mesmo discretamente, offline, sem exposição pública, de dentro pra fora?

      Isso seria... OK. Sim, acho que seria divertido, poderia ser uma piada. 

       

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      Aí está, Wampole. Os trombonistas não são os arqui-irônicos que você fez parecer. Da próxima vez que você quiser lançar um ataque público a uma parte da sociedade que gosta genuinamente de tocar um instrumento musical que parece uma peça arrancada de um Ford T, é bom fazer uma porra de uma pesquisa, né?

      Trombonistas não estão sendo irônicos e insinceros quando usam uma camiseta totalmente significativa e um jeans cheio de empatia, eles não fantasiam a arte deles com essas babaquices. Trombonistas são a prova de que ainda existem exemplos vivos de sinceridade levantando-se dos escombros da nossa cultura. 

      Siga o Clive no Twitter: @thugclive

       

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      Tópicos: hipster, trombone, New York Times, Christy Wampole, Clive Martin

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