A Tunísia Hoje

By Pablo Augusto Relly


A linha dos prédios refletida na janela de um prédio no Souk de Túnis.

Ao atear fogo no próprio corpo em 17 de dezembro de 2010, o vendedor ambulante de frutas e vegetais, Mohamed Bouazizi, então com 26 anos, entraria para a história. O ato de Bouazizi, em frente à prefeitura de Sid Bouzid, foi uma demonstração contra as condições de trabalho (ele não tinha licença), abuso de força e frequente humilhação aplicados pelos oficiais locais. Apesar de não ser a primeira autoimolação naquele ano na Tunísia, as imagens conseguiram passar pelo aparato de censura do ex-ditador Zine el Abidine Ben Ali e cimentaram o caminho para a revolução.

Até a morte de Mohamed, em 4 de janeiro de 2011, a onda de protestos já havia se espalhado pelo país. A ditadura de Ben Ali, que começou 23 anos antes em um golpe pacífico, chegou ao fim em 14 de janeiro de 2011, quando ele fugiu para a Arábia Saudita. Ben Ali, então primeiro-ministro da Tunísia e na época com 51 anos, tomou a presidência e o comando das Forças Armadas das mãos de Habib Bourguiba, que conduziu a Tunísia à independência da França, em 1956, e que já presidia o país africano há mais de três décadas. Uma junta médica declarou o “pai” da Tunísia livre incapaz de permanecer no cargo em razão da senilidade e de sua saúde que deteriorava.

Mas, afinal, cerca de dois anos após a autoimolação de Bouazizi e com o segundo aniversário da Revolução de Jasmim, qual é o cenário atual na Tunísia?

Moufida Iakobi, empregada doméstica de 31 anos, não é especialista no assunto. Porém, representa grande parte da população tunisiana. Moufida frequentou só os primeiros anos da escola, não fala francês — a segunda língua mais importante no país — e não se envolve com a vida política. Moradora de Sfax, capital da região de mesmo nome e segundo polo de atividades da nação, ela trabalha para sustentar sete irmãos, responsabilidade que veio com a morte do pai. O salário mensal, de aproximados R$400, não compra mais o mesmo que comprava antes da revolução. “A Tunísia ficou mais cara e mais insegura”, critica a empregada. O orçamento de Moufida é diretamente afetado pelo aumento de preço nos alimentos, previsto para 7,6% em 2012. É o que puxa a inflação, que deve ficar em 5,5% nesse ano, conforme o Banco Central da Tunísia. Moufida Iakobi tem esperança de que a situação vai melhorar, e em breve.


Homem trabalhando no Souk de Túnis.

O PIB tunisiano, que teve crescimento negativo de 1,1% em 2011, apresenta variação positiva para 2012, ainda que discreta. A previsão é de 2,5%, segundo o relatório African Economic Outlook sobre o país, uma publicação coordenada pelo Banco Africano de Desenvolvimento, pela OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e pela Comissão Econômica das Nações Unidas para a África, dentre outras entidades. O turismo, um dos setores mais importantes para a economia local, já dá sinais de normalização. No primeiro semestre de 2012, a entrada de não residentes chegou ao número de 2,5 milhões. Um crescimento de 41,5% em comparação com o mesmo período de 2011, o ano da revolução.

Desemprego, diferenças regionais e islamização do governo
As manifestações que tomaram o país nos últimos meses deixam claro o descontentamento de muitos tunisianos com a demora por parte do governo em apresentar soluções mais rápidas para a crise. Um dos problemas crônicos que a Tunísia enfrenta é o desemprego. Em 2011, o país norte-africano, com população estimada em 10,6 milhões de pessoas, chegou à pior taxa da história recente: 18,9%. São cerca de 738 mil pessoas sem emprego, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística. No primeiro quadrimestre de 2012, houve uma leve melhora: o número baixou para 18,1%. Em algumas regiões do país, porém, a média sobe, com registro de taxa de desemprego de 28,4%.


Souk da cidade de Sousse.

“Alguns dos grandes problemas da Tunísia são a economia e as disparidades entre a faixa litorânea e o resto da nação. Uma das demandas da revolução é dar maior atenção ao desenvolvimento do interior, especialmente em lugares que ficaram marginalizados durante a era de Ben Ali e de Bourguiba”, afirma Nabila Hamza, presidente da FFF (Foundation for the Future). A FFF é uma organização internacional sem fins lucrativos, baseada em Amã, na Jordânia, com o objetivo de prover assistência técnica e financeira para apoiar iniciativas que buscam democracia, liberdade e direitos humanos em países do Oriente Médio e do norte da África. Tunisiana, Nabila trabalhou como especialista na Liga Árabe por dez anos e já ocupou cargos do setor público em seu país. Ao participar de uma conferência, em Túnis, sobre governança local, expressou sua opinião sobre o Ennahda, o partido islâmico que saiu vitorioso no primeiro pleito livre tunisiano. “No período que o Ennahda vem dirigindo o país, eles não apareceram com nenhuma solução para os nossos problemas”, criticou.


Nabila Hamza, presidente da FFF (Foundation for the Future).

Para enfrentar o Ennahda, Nabila declarou que, no momento, há um bom sinal de reorganização política no país, pois “a oposição, diferentes partidos políticos e a sociedade civil, que na primeira eleição estavam divididos, se apresentam mais ordenados, com mais alianças”. Nabila Hamza alertou também para a islamização da atual administração pública: “Temos de ser vigilantes para que os mecanismos do Estado não sejam usados para interesses partidários”, acrescentando que o Ennahda coloca “as principais pessoas nos lugares corretos”, enquanto no cenário pós-Ben Ali o governo deveria ser exercido com neutralidade. “A administração pública e as instituições do Estado, que haviam sido usadas na época de Ben Ali e Bourguiba pelo partido do poder, normalmente deveriam ser renovadas com a revolução. Os tunisianos estão fartos com cada um colocando a mão em cima. Com Ennahda, saiu Ben Ali, mas eles (o partido islâmico) estão entrando pouco a pouco”, avaliou Nabila.

 

Ennahda completa um ano de governo
O partido islâmico Ennahda foi vencedor nas eleições de 23 de outubro de 2011, ganhando 89 dos 217 assentos da Assembleia Constituinte — o parlamento interino tunisiano. A eleição permitiu que o país entrasse no período de transição, quando a nova Constituição deveria ser escrita. Entretanto, o prazo para que a Carta Magna ficasse pronta, 23 de outubro de 2012, não foi cumprido.

O presidente Moncef Marzouki, eleito pela Assembleia Constituinte em dezembro de 2011, que deveria ficar no cargo por um ano e até que a nova Constituição fosse escrita, segue na presidência por mais tempo. Isso ocorreu porque a Troika, a coligação governamental que reúne Ennahda, CPR e FDTL, o último também conhecido por Ettakatol — CPR e FDTL são partidos seculares de centro-esquerda —, marcou as eleições parlamentares para 23 de junho de 2013, e a presidencial para 7 de julho.

Mas, um dia antes do aniversário das primeiras eleições livres da Tunísia, milhares de manifestantes foram às ruas de Túnis para protestar contra o governo atual, fazendo críticas à economia, segurança, direitos e liberdades pessoais. No mesmo dia, na contramão desse movimento, centenas de simpatizantes mostraram apoio à Troika.


Souk de Túnis.

Ao responder sobre a atuação do Ennahda, que lidera a coalizão do governo, sobre a economia neste ano, o vice-presidente de comunicação do partido, Faycel Naceur, afirmou que os problemas econômicos do país precisam de tempo para serem solucionados. “Anos de corrupção e de políticas econômicas erradas não podem ser reformados em um ou dois anos”, ponderou. Segundo Faycel, a crise europeia também afeta a Tunísia, pois o continente é o principal parceiro comercial tunisiano — razão pela qual o governo está em busca de novos parceiros, como Brasil, Rússia e China. Para Faycel Naceur, parte da população quer uma solução imediata. No entanto, a ação dos sindicatos no país dificultaria avanços na economia. “Os líderes dos sindicatos são marxistas, contrários ao Ennahda. Eles tentam usar essas organizações para criar problemas e impedir que o governo trabalhe”, declara.

Com o ideal de fazer o Islã participar do renascimento da sociedade, o Ennahda surgiu no início dos anos 70 como um movimento. Transformado em partido político na década de 1980, foi reprimido no final da mesma década e no início da seguinte. Durante o governo de Ben Ali, milhares de militantes foram mantidos em prisões, torturados e exilados. O partido fala em dez mil presos, que teriam passado mais de cinco anos na prisão, além de 20 mil que ficaram períodos que variam de um dia a cinco anos em regime fechado. Após a revolução, quando foi legalizado, o partido se firmou como a força política mais forte na Tunísia.

As acusações de uso de violência contra o regime de Ben Ali na década de 1990 são negadas pelo Ennahda. “Todo o tempo, nós usamos maneiras pacíficas para mudar nossa realidade, nossa sociedade”, afirmou Faycel. Perguntado sobre democracia e religião, o vice-presidente de comunicação do partido respondeu: “O Islã é o ambiente favorável para que a democracia possa ser bem-sucedida”.

Quem também defende o partido é Mohamed Hadj Omar, outro membro do Departamento de Comunicação do Ennahda. “O Islã está em total harmonia com o conceito de modernidade. Nós podemos evoluir nos baseando na religião. Descobrimos, mais de meio século depois [refere-se à independência da Tunísia], que o modelo daqueles líderes seculares acabou sendo um fracasso. Como islamistas, afirmamos que talvez as coisas não funcionem de acordo com nossa teoria. Mas temos o direito de dizer que a percepção dos seculares não nos ajudou muito”, analisou. Omar conclui também que todos os partidos políticos da Tunísia concordam quanto aos anseios de liberdade, prosperidade, dignidade e justiça para a população. “Nos diferenciamos só nas maneiras, nos caminhos. Mas não é tempo para divisão, e sim coalizão. Trabalhar juntos”, apontou.

 

O movimento salafista na Tunísia
Nos últimos meses, a Tunísia viu crescer o número de ações violentas lideradas por salafistas. Ataques foram registrados contra um hotel por servir álcool e receber eventos culturais — pois foram considerados contrários ao Islã. No último 14 de setembro, porém, a violência tomou outra proporção, quando salafistas invadiram o complexo da embaixada dos Estados Unidos em Túnis. Duas pessoas foram mortas e várias outras ficaram feridas nos conflitos entre as forças de segurança e os manifestantes, numa onda de protestos contra o filme “A Inocência dos Muçulmanos”.

A reação ao longa-metragem, que insulta o profeta Maomé e o retrata como molestador de crianças, mulherengo, homossexual e sanguinário, levou cerca de três mil salafistas às ruas da capital, segundo dados da polícia. Uma escola americana também foi incendiada e saqueada no mesmo dia. Tais reações se baseiam na revolta contra a representação do profeta. Representá-lo, independente da forma, já é prática contrária aos ensinamentos islâmicos.

Segundo Mériem Bourguiba Laouiti, ativista política e integrante do partido secular Al Joumhouri, os manifestantes são bandidos, “mercenários por uma causa”. Com 47 anos, a neta do ex-presidente Habib Bourguiba se expressou com contundência: “Não gosto de chamá-los de salafistas, pois um salafista verdadeiro é uma pessoa que acredita na religião e a vive de maneira apropriada e verdadeira. Islã verdadeiro não pratica esses tipos de guerras contra os outros. Não gosto de usar a palavra salafista, pois seria dar muito crédito a eles”.

Faycel Naceur, vice-presidente de comunicação do Ennahda, repudiou a relação entre o partido e o movimento denominado salafista na Tunísia: “Nós negamos o ponto de vista e a mentalidade deles”. Contudo, o vazamento de um vídeo na internet no final de outubro lançou dúvidas sobre a agenda do Ennahda. No material, Rachid Ghannouchi — que viveu no exílio por 21 anos e é líder e co-fundador do partido banido por Ben Ali —, aparece com líderes salafistas. Ghannouchi, aos 71 anos de idade, fala de uma estratégia gradual para consolidar o controle do governo por islamistas.


Quando consegui chegar perto da embaixada no dia do conflito entre forças de segurança e extremistas.

Em declaração, o Ennahda salienta que o vídeo foi “extremamente” editado para que o líder partidário soasse extremo. “Rachid Ghannouchi diz que temos de convencer o mundo de que não há oposição entre Islã e democracia. E, na Tunísia, dizemos que o Islã político pode dar uma boa ideia ao mundo”, disse Faycel Naceur.

Sobre o projeto do Ennahda para a Tunísia, Mériem Bourguiba Laouiti é direta: “Política é serviço sujo. Não estou preparada ou contente em ver que minha religião seja arrastada para essa lama”. Ela completa: “Se não resistirmos, vamos entrar em outra ditadura, exatamente como no Irã. Precisamos que a sociedade civil, o povo tunisiano, não fique com medo novamente. Resistência”.

O assassinato, em 6 de fevereiro de 2013, de um dos líderes da Frente Popular, uma coalizão de partidos de esquerda que se opõem às políticas do governo — predominantemente islamista — desencadeou uma série de manifestações no país africano. O primeiro-ministro tunisiano e membro do partido islâmico Ennahda, Hamadi Jebali, fez um pronunciamento em cadeia nacional e declarou a dissolução do governo atual e a instauração de uma administração com tecnocratas, em uma tentativa de restaurar a calma após a morte de Shokri Belaid. Em uma coletiva de imprensa, realizada em 7 de fevereiro, o partido Ennahda rejeitou a proposta do primeiro-ministro, feita sem consulta prévia com o partido.

A nova Constituição tunisiana, pré-requisito para novas eleições e que deveria estar concluída desde outubro de 2012, mas cujo prazo já havia sido postergado para fevereiro deste ano, não tem data determinada para ficar pronta. O futuro próximo na Tunísia segue indefinido. Sem uma nova Constituição — diferenças entre os membros da Assembleia Constituinte atrasam o processo —, não haverá eleições. 

Cerca de dois anos após a Revolução de Jasmim, os gritos por liberdade, emprego, dignidade e ruína do governo, os mesmos de janeiro de 2011 que tiraram Ben Ali do poder, voltaram a ser ouvidos em manifestações na capital Túnis. Com a sociedade cada vez mais polarizada, o final feliz tão esperado pelos tunisianos ainda deve demorar.

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Mouna Akrout, 48 anos, médica, Al Mahras
Antes da revolução, a vida passava como se não houvesse mudança. Algumas coisas aconteciam, mas se escondia muito. Desde janeiro de 2011, Al Mahras não mudou tanto, mas a criminalidade aumentou. Falta emprego na Tunísia, educação melhor. Tenho receio em relação ao futuro, já que não está claro para onde vamos.

 

Selim Bou Ali, 25 anos, vendedor, Al Mahras
Antes [da revolução] havia muita pressão da prefeitura, dos policiais, agora é melhor. Estamos mais livres — dá para “falar” mais. Quando a situação não é justa, é possível reclamar e procurar as autoridades. Desemprego é problema sério. Sobre a educação, ela é de graça. Quem quer estudar, estuda, mas o problema é arrumar emprego depois.

 

Youssef Taha Cherif, 18 anos, estudante, Túnis
Os tunisianos nunca tiveram liberdade para discutir política. Pós-revolução, nós conversamos mais sobre política do que sobre esporte, por exemplo. O país está mais bagunçado (fisicamente) do que estava. E a segurança era melhor antes. Mas é muito bom saber que ninguém vai se meter nos meus direitos e espero que o país conquiste uma democracia real, com desenvolvimento social e econômico.

 

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