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"Um Dia No Cais"
O João Antônio (1937–1996) foi o melhor escritor que já existiu no Brasil. Tudo bem, vocês vão falar um montão de nomes e um porrilhão de argumentos defendendo outras pessoas porque elas escrevem muito bem e são importantes e foram revolucionárias e disseram mais sobre a cultura nacional etc. E de repente vocês até estão certos. Mas esse abre é meu. E pra mim ele é o melhor, porque o safado tinha ritmo, falava da rua de um jeito que parece que você tá lá junto e não tinha dó e nem orgulho dos seus personagens—ele tinha respeito por eles, isso sim, até ao contar as suas quedas mais épicas. Tem uma história de um estudante (acho) que vai entrevistá-lo e o questiona sobre as diversas gírias da rua que ele incorporava nos seus escritos. JA pediu exemplos, e nenhum deles eram gírias, e sim termos—é, constam no dicionário e tudo mais—que as pessoas tinham deixado de usar pra adotarem anglicismos—ou por preguiça pura e simples ou porque não conheciam, já que quem tinha a obrigação de usá-los pras pessoas conhecerem tinha feito alguma das duas escolhas anteriores. Tanto faz. O lance é que ele sim incorporava um monte de gírias, mas também fazia questão de usar o termo exato pra cada coisa que ele queria dizer, e fazia isso estupidamente bem—com ritmo.
Resumindo, o João Antônio escrevia que nem homem. O que você vai ler aqui é nada mais que a inauguração do conto-reportagem no Brasil. Só isso. JA passou dois meses no porto de Santos para fazê-lo pra revista Realidade, em 1968, e ele foi reproduzido na biografia A Paixão de João Antônio, feita por Mylton Severiano com base numa correspondência mantida entre os dois e que somava mais de 200 cartas. Foi ele quem autorizou que usássemos essa maravilha aqui. A bio está esgotada, então, se você encontrá-la em algum sebo por aí, agarre. Ah, e procure na internet o jeito que o JA morreu.
O menino equilibra a sacola na bicicleta Manhã cedo. A rua é doméstica.
De longe em longe, uma locomotiva a óleo diesel apita, modorrenta, e vem furando para as luzes na zona do cais.
—Epa!
Um menino branco se esforça, sobe do selim para o cano, mete os peitos contra o guidão, se enverga, equilibra a sacola na bicicleta e corta de fininho o cais. Vai que vai embora. Está quase sozinho com as luzes no comprimento de paralelepípedos, gozando nas curvas. O menino mais o seu calção e a sua japona, seu cabelo cortado rente, sua campainha, trim-trim nas esquinas que atravessa.
Cinco da manhã. As vassouras de piaçava correm nas mãos dos dois garçãos, peitos de fora, calças arregaçadas, tamancos. Batem, esfregam o chão da calçada do Bar Café Restaurante Chave de Ouro.
A cidade, os prédios e os morros dormem de todo. Cais não dorme. Não se apaga. Lá pelos cantões, um que outro olho aceso fica no rabo da manhã. E fica.
O botequim é xexelento, velho encardido. E teima que teima plantado. Agüenta suas luzes, esperto, junta mulheres da vida que não foram dormir, atura marinheiros, bêbados que perturbam, gringos, algum cachorro sonolento arriado à porta de entrada. Recolhe cantores cabeludos dos cabarés, gente da polícia doqueira, marítima ou à paisana. E mistura viradores, safados, exploradores de mulheres, pedintes, vendedores de gasparinos, ladrões, malandros magros e sonados.
O boteco é mais. Agasalha traficâncias e briga. Gente encosta o umbigo ao mármore do balcão e queima o pé com bebidas. Fuá, tenderepá, pau comendo quente. Quizumbas.
—Vai lavar roupa, sua fedorenta!
Rita Pavuna e Odete Cadilaque se pegam. Duas das que zanzam batalhando na noite, conluiadas nos trampos, nas arrumações, para surrupiar fregueses e levantar a grana, ainda que devam aturá-los. É lei—malandra que é malandra, no cais, não deve ir com trouxa. Toma-lhe o milho no jeito, debaixo de picardia e manha. Carne é carne e peixe é peixe.
Mas por umas ou por outras, de ordinário, se enfarruscam num desentendimento. E as duas acabam se encarando. Como inimigas. Salta um desacato:
—Vai lavar roupa, sua nojenta!
Seis e meia e somem as luzes dos trilhos dos bondes. Últimos músicos cabeludos, guitarras elétricas a tiracolo, passam em grupo, devagar. Entram no botequim, se chegam para o balcão. Pedem média, pãozinho, manteiga. E é como se não houvesse frege. Briga de mulher pode ir quente, gente do cais não faz fé.
—Nem vem louca que não tem. Vai cuidar da tua vida! Desguia. Sai da minha avenida.
Canalhas, cínicas igualmente e ligadas, mancomunadas na catança dos otários. Mas Rita Pavuna e Odete Cadilaque se apartam num desses tempos quentes. Uma querendo comer a outra pela perna, pela grana de algum freguês. E se afastam. Horas, horas. Cada uma para o seu canto e uma não quer nem ver a cara da outra. Piranha não come piranha.
—Me deixa. Qu’eu não sou parente nem da sua lavadeira. Vê lá. Ih, Manoel, como você tá por fora...
Chamar de Manoel é descaso. Xingo, menosprezo, deboche. É desconsiderar.
Abandona a turra. Rita, culpada, se larga para outros lados. Deixa a parceirinha falando sozinha. Mais tarde, na virada dos ponteiros, as duas se voltarão, se entenderão depressinha. É aparecer um bom gringo, presa da boa, e irão em cima juntas, junti-nhas. Aí irmãs, outra vez. Jogarão açúcar ao freguês e lhe morderão até os últimos.
Os trabalhadores chegam com sono Noitão. O trabalho continua duro.
Beirando sete horas. Os trabalhadores do cais se apressam, caras de sono, chegados de casa. O apito, às sete, é o do batente. Antecipa distraídos, empurra atrasados, bota interessados de orelha em pé. Prolongado, manhoso, não grita. Parece querer apitar despercebido aos mais sonolentos da estiva.
Um gordo correndo para a entrada do armazém 12, sacudindo banhas, abrindo caminho. Homens da estiva chegam de bicicleta, uma e outra motoneta. O cais até parece uma fábrica.
Rita Pavuna se manda. Tocando para os lados lá do armazém 5-6, um pedaço pesado dos cantões do cais. Boca do inferno. Morte certa no porto—conforme se diz. Ali, até a polícia à paisana mede distância, não esconde o medo. Ou respeita ou cai do cavalo. Rita se indo. Lá anda cabra traquejado. Otário, fariseu, mocorongo, Manoel e Zé Mané não tem o que fazer lá. É o que se diz. Rita andando.
Lá com os trabalhadores das docas começa a muita gíria dos gestos. A mímica é jeito inventado dos homens de estiva nos porões dos navios. Assim falam aos portuários e aos homens do guindaste, plantados lá em cima, nas cabinas. Os da estiva lá dobrados, patoludos, trabalhando. Sacos amarrados à cabeça, bermudas esburacadas, sapatos com meias e pernas peladas. Mãos enluvadas para o batente. Gramam.
Quase não se fala, no trabalho do cais. Só o conferente apontando o quanto disso e o quanto daquilo, braços para trás, feito soldado, segurando a prancheta das marcações. Abre o bico, quando em quando, a uma carga pronta para o guindaste.


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