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A Batalha da Consolação

Texto por Débora Lopes; Imagens por Aline Amaral e Edward Davies

No protesto convocado pelo MPL do dia 13 de junho, a multidão foi covardemente atacada pela polícia na Rua da Consolação, no centro da cidade — e nossas memórias foram reavidas. Em 1968, quase na mesma esquina, mas algumas quadras à frente na Rua Maria Antônia, estudantes de grandes faculdades brasileiras se enfrentavam por ideologias políticas distintas em plena ditadura militar. De um lado, os direitistas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, simpatizantes da repressão. Do outro, estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Ambos os campus localizados na mesma rua. Rolou uma baita pancadaria. Não eram soldados armados, eram estudantes com a roupa do corpo que se atacavam com o que existisse no caminho. Paus, pedras, vidros. Um enfrentamento que durou quatro horas. Com a intervenção da polícia, a Batalha da Rua Maria Antônia, como ficou conhecida, terminou em sangue. Um estudante foi morto com um tiro na cabeça. E ele não era de nenhuma das duas universidades.

Agora, em 2013, fotógrafos, jornalistas, estudantes, professores e cidadãos vivenciaram uma cena parecida. Mas como coadjuvantes. Quem estrelou a noite e deixou o ambiente repleto de fumaça e violência gratuita foi a Polícia Militar e a Tropa de Choque. Isso porque o ato de se manifestar em via pública é um direito constitucional previsto em lei. Mesmo assim, muita gente foi presa pelo simples fato de participar de uma manifestação.

Os protestos que tomaram a cidade de São Paulo nos últimos dias não são pautados apenas pelo aumento da tarifa. A luta, agora, tem também outras vertentes. O direito de se manifestar, de ocupar vias públicas de forma pacífica, de exigir diálogo com as autoridades e não tomar muita porrada da polícia gratuitamente também entraram no discurso. A reação truculenta da polícia, munida de cassetetes, sprays de pimenta, balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo (muitas vencidas em 2010) contra manifestantes reacendeu a vontade dos jovens de ir às ruas. A cada protesto, mais e mais adeptos. Até mesmo a grande mídia brasileira, a primeira a julgar e distorcer as manifestações anteriores e defender a borrachada sem piedade, está mudando de opinião. Principalmente depois que jornalistas foram igualmente presos e atingidos por balas de borracha.

A metrópole considerada a mais importante do Brasil acordou de um longo sono. E, mesmo desperta, não se livrou do pesadelo. E, aparentemente, nem da ditadura. 

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