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Vera Lúcia: a líder sindical negra que prega a revolução socialista

Na série de apresentação dos presidenciáveis para 2018, a VICE conta a trajetória de Vera Lúcia, do PSTU.

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set 24 2018, 7:32pm

Se você acha que o PT e Jair Bolsonaro são os dois extremos que disputam esta eleição presidencial, é hora de rever seus conceitos e conhecer Vera Lúcia, a candidata que representa o PSTU. Depois de ler este texto, vai ficar difícil continuar a chamar Lula ou Fernando Haddad de “esquerdistas bolivarianos que querem implantar uma ditadura comunista”.

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Vera, é verdade, iniciou sua vida partidária no PT, no começo dos anos 1990. Tinha pouco mais de 20 anos e já fazia parte do movimento sindical que conheceu ao arrumar um emprego numa fábrica de calçados em Aracaju. Ela nasceu em Irajá, no sertão de Pernambuco, e mudou-se com a família ainda criança para a capital sergipana; antes da fábrica, trabalhou como garçonete, datilógrafa e escriturária.

Mas o PT era revolucionário de menos para Vera, que entrou na Convergência Socialista, uma das dezenas de tendências que formavam o PT na época. Esse grupo foi expulso da legenda em 1992, depois que o então presidente do partido, José Dirceu, conhecido por seu estilo autoritário ao lidar com as divisões petistas, implantou uma série de medidas para tentar disciplinar os filiados, que incluíam a proibição de jornais e sedes próprias de cada tendência. Era uma tentativa de organizar a confusão dentro de um partido nascido nos anos finais da ditadura militar, fruto da junção de intelectuais marxistas (muitos deles retornando do exílio), líderes católicos ligados à Teologia da Libertação e dirigentes sindicais, muitos deles que nem mesmo se identificavam com a esquerda – como o próprio Luiz Inácio Lula da Silva já admitiu em entrevistas.

A CS acabou expurgada do PT por defender o impeachment de Fernando Collor de Mello antes de virar modinha – já em abril de 1992 eles foram às ruas com faixas “Fora Collor”, enquanto o PT só entrou oficialmente na disputa para derrubar o presidente em julho. O novo partido nasceria no ano seguinte, primeiro com o nome de Partido Revolucionário dos Trabalhadores e depois com o nome definitivo, Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado.

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Vera se filiou ao novo partido em 1994 – mesmo ano em que a legenda, ironicamente, apoiaria a candidatura fracassada de Lula, derrotado por um Fernando Henrique Cardoso turbinado pelo Plano Real. Nas cinco eleições presidenciais seguintes, o partido lançaria candidato próprio em quatro: 1998, 2002, 2010 e 2014, sempre com José Maria de Almeida, consagrando o slogan “Contra burguês, vote 16”. A exceção foi em 2006, quando o partido apoiou a campanha de Heloísa Helena, do PSOL.

Neste ano, o partido resolveu apostar numa cara nova. Vera Lúcia já é figurinha carimbada no Nordeste, e foi candidata do PSTU à prefeitura de Aracaju nas últimas quatro eleições, tendo o melhor resultado em 2012, com 20.241 votos, ou 6,6% dos votos válidos. Em 2006 e 2014, tentou uma vaga na Câmara Federal, e em 2010 saiu para governadora de Sergipe, também sem sucesso.

Mas a eleição, para Vera e o PSTU, não é a principal preocupação. O partido aproveita o horário eleitoral e as entrevistas com os candidatos, como esta na TV Brasil, apenas para divulgar sua mensagem, que considera o processo eleitoral uma farsa burguesa, comandada pelo poder econômico, com aval de outros partidos ditos de esquerda – o PT e o PC do B estão sempre na alça de mira da legenda, com mais rigor até que as legendas conservadoras, porque o PSTU considera que elas iludem os trabalhadores ao aceitar participar do processo eleitoral. “Para combater o capitalismo é preciso enfrentar a burguesia, mas também os reformistas que atuam para manter esse sistema”, escreve o partido no site em que estabelece seu programa de governo.

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E a mensagem é clara: implantar uma revolução socialista, com a adoção de conselhos populares que vão governar o povo – isso mesmo, uma versão brasileira dos sovietes, os conselhos representativos de trabalhadores estabelecidos após a Revolução Russa de 1917. Para isso, defendem uma educação popular que conscientize os brasileiros.

No plano imediato de governo, Vera fala na estatização de pelo menos 100 empresas privadas consideradas estratégicas para aquecer a economia nacional e gerar empregos – mas jura que a expropriação será apenas de grandes empresas, defendendo os pequenos e médios empresários. Para empoderar o trabalhador, a promessa é ampliar o salário mínimo para R$ 3.752,65, valor calculado pelo Dieese no começo deste ano como ideal para sustentar uma família de quatro pessoas. O Dieese é um grupo de estudos econômicos mantido por sindicatos.

A candidata também promete revogar todas as medidas do governo Michel Temer que considera prejudiciais aos trabalhadores, como a limitação do teto de gastos e a reforma trabalhista. A quem acusa a esquerda de “querer transformar o Brasil numa Venezuela”, diz que o país de Chavez e Maduro não é um modelo: “É um Estado capitalista”. Também está no programa de governo uma ampla reforma agrária, com o fim de todos os latifúndios e a prioridade na agricultura familiar.

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E Lula? Para a candidata, “está colhendo o que plantou” – o PSTU, ao contrário de outras legendas que foram oposição à esquerda aos governos petistas, como o PCB, o PCO e o PSOL, não participou das manifestações pedindo a libertação do ex-presidente, que considera sua prisão pela Operação Lava Jato como um misto de erro judicial e perseguição política. “Não saímos em defesa de Lula porque ele optou por governar com esses setores que estão enlameados na corrupção, e se lambuzou também”, disse Vera em entrevista à BBC Brasil.

Até agora, a posição revolucionária do PSTU não encontrou respaldo eleitoral. O melhor desempenho de Zé Maria em suas quatro candidaturas presidenciais foi em 2002, quando recebeu 402.236 votos, ou 0,47% dos votos válidos. Nas pesquisas realizadas pelo Datafolha até agora, Vera Lúcia alcança sempre a marca de 1% das intenções de voto.

Vera Lúcia Pereira da Silva Salgado
Formação: Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Sergipe
Idade: 51
Patrimônio: R$ 20.000,00
Trajetória (partidos): PT-PSTU
Vice: Hertz Dias (PSTU)

Acompanhe as trajetórias de todos os presidenciáveis na série Quem quer ser presidente .

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