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Documentando os Negros e Mestiços Ruivos do Reino Unido

“Apesar de existir uma conexão irlandesa/escocesa subjacente ao gene MC1R na ocorrência de cabelo vermelho, não tenho certeza se ser 'ruivo' ainda significa ser escocês, irlandês, do País de Gales ou mesmo branco.”

por Natasha Culzac
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26 Agosto 2015, 4:30pm

Natasha Culzac, fotografada por Michelle Marshall como parte do projeto MC1R.

Como você descreveria um ruivo típico? Você pensa em Julianne Moore: pele clara, cabelos cor de ferrugem e um toque carmim nas bochechas de porcelana? Ou pensa em Ed Sheeran?

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De qualquer maneira, é bem possível que ruivo na sua cabeça signifique branco. Cabelo vermelho é considerado principalmente uma reserva do norte da Europa, um traço céltico-germânico. Isso resultou na busca de Michelle Marshall, uma fotógrafa que vive em Londres, por ruivos afro-caribenhos como parte de seu projeto MC1R.

MC1R, ou receptor de melanocortina 1 se você preferir, é o gene responsável pelo cabelo vermelho. Mutações nesse receptor podem criar vários graus de pigmentação. Isso pode funcionar "normalmente", fazendo seu cabelo escurecer. Ou pode se tornar disfuncional, não ativo, algo que, em vez de transformar o pigmento vermelho em marrom, causa um acúmulo desse pigmento, deixando, portanto, o cabelo ruivo.

"Para tirar sentido do que está ao nosso redor, colocamos as pessoas em caixas – é um reflexo natural, não uma coisa maliciosa", diz Michele, nascida em Lyon, que encontra seus participantes através de redes sociais, recomendações ou passeios por shoppings lotados. "Espero que essas imagens mudem um pouco esse reflexo."

Estima-se que na Escócia 13% da população tenham cabelo vermelho. Compare isso com o contingente mundial, uma vez que entre 1 e 2% dele é composto de ruivos, e você vai ver que ruivos de minorias étnicas são ainda mais raros.

No entanto, não há dados concretos ou pesquisas específicas sobre as etnias por trás do cabelo vermelho. Pode parecer um capricho da natureza, mas a herança daqueles com esse traço distintivo não aponta apenas para um canto isolado do planeta: os parentescos vão do Brasil à Jamaica – e até Gana.

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Os dois pais precisam carregar o gene recessivo MC1R para que o filho seja ruivo; então, imagino que isso tenha sido passado através dos séculos devido à migração humana, ao tráfico de escravos e até à servidão dos escoceses e irlandeses no Caribe Britânico no século 17.

"Durante o reinado de Cromwell, milhares de irlandeses católicos foram deportados para as 'Índias Ocidentais' como servos contratados, e um bom número de pessoas da margem celta da Inglaterra também assinou contratos do tipo – mais ou menos – voluntariamente", me falou Stephan Palmié, coeditor de The Caribbean: A History of the Region e Its People.

Barry Starr, um geneticista da Universidade de Stanford, levou essa ideia adiante: "Portadores de cabelo vermelho no Caribe e na África vieram da migração e do fluxo genético".

Afinal de contas, em países de clima equatorial, a seleção natural não favoreceria características físicas como pele facilmente afetada pela luz do sol.

"A última evidência que vi foi que há uma pressão forte de seleção contra mudanças no gene MC1R, que faz isso não funcionar em regiões com muito sol – pense na África", explicou o Dr. Starr.

Francis Johnson, por Michelle Marshall.

"Isso provavelmente tem a ver com a pele clara que vem com o cabelo ruivo. Isso significa que, mesmo se uma mutação do MC1R apareceu espontaneamente nas populações da África antes, como fez muitas vezes na Europa, isso não se espalhou e acabou se esgotando."

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Dr. George Busby, do Wellcome Trust Centre for Human Genetics,concorda. Ele afirma que cabelo vermelho e sardas são provavelmente o resultado de interações históricas entre europeus e africanos na formação das populações do Caribe – principalmente britânicos, já que espanhóis e portugueses foram à América do Sul.

George considera que "isso também pode explicar por que você ocasionalmente vê cabelo vermelho em pessoas negras caribenhas com dois pais negros. Por pura sorte, os dois deviam carregar a mutação europeia que se juntou no filho deles."

Muitos dos temas de Michelle são do Reino Unido, apesar de ela também querer fotografar nos EUA e em algumas partes do continente europeu. "Envolvi Londres inteira nisso", ela ri, descrevendo seu exército de pesquisadores amadores. Ela frisa que a reação ao seu projeto tem sido principalmente positiva. "O único problema é que uma bela foto nem sempre representa o que é ser diferente.

"Há um outro lado da moeda: isso nem sempre é aceito. Fotografias bonitas servem para um propósito, porém, no contexto da vida diária, as pessoas podem não ter essa reação."

Coral Kwayie, por Michelle Marshall.

E ela está certa. Para mim, uma garota alta, mestiça, de cabelo crespo ruivo, crescendo numa cidade costeira predominantemente branca de classe trabalhadora, isso não era algo bom. Aos 13 anos, eu estava comprando clareador de pele da Boots para pulverizar minhas sardas e, aos 14, na minha fase Slipknot na virada do milênio, eu estava alisando violentamente meu cabelo recém-pintado de preto. Mas agora eu aprecio ser única.

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Uma mulher que entrou em contato com Michelle diz que a filha de 11 anos está tendo problemas para se encaixar e que ela está tentando convencer a menina a participar do projeto para melhorar sua autoestima.

"Muita gente se sente isolada", relata Michelle. "Um garoto me mandou uma mensagem dizendo: 'Nunca notei que havia tantos de nós'. E eu ainda nem fotografei 50 pessoas. No entanto, o fato de ele ter visto um grupo de pessoas com quem podia se identificar foi muito positivo."

Francis Johnson, um rapaz de 24 anos nascido e criado em Bristol, destacou: "Nunca pensei em mim mesmo como diferente das outras crianças... mas eu estava sempre ciente disso por causa do bullying, já que, infelizmente, algumas pessoas não entendiam meu afro, minhas sardas e minhas marcas de nascença. Isso também me fez questionar várias vezes o que eu era e o verdadeiro significado por trás da minha maquiagem".

"Minha mãe e a mãe dela nasceram ruivas, vindas de uma família da Escócia – através de linhagem céltica, você poderia dizer –, embora, se você olhar para a ancestralidade das pessoas célticas, você possa voltar até a era dos vikings", continuou o dançarino e artista.

Natasha quando criança.

"Do lado do meu pai, meu avô também tinha pele clara e era referenciado como um 'jamaicano branco' com olhos verdes, mas com características negras fortes."

Coral Kwayie, uma stylist de 23 anos, explicou que "crescer em Tubbridge Wells foi bom: é uma área boa... muito branca.

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"Estudei com as mesmas pessoas da pré-escola ao segundo grau; logo, não percebia que era diferente nesse sentido." A irmã e o meio-irmão de Coral também são ruivos; assim, o gene definitivamente corre do lado ganês do pai.

"Nunca odiei ser ruiva", ela acrescentou. "Nunca sofri bullying ou me fizeram sentir mal, fora uma vez no colegial quando um cara gritou 'ruiva' para mim no ônibus e minha amiga bateu nele com uma raquete de tênis. Nunca pintei nem vou pintar meu cabelo. Eu gosto da cor dele."

Rosemarie Easom, por Michelle Marshall.

Rosemarie Easom, uma mulher de 35 anos nascida em West London, afirmou: "Eu não gostava de ter cabelo vermelho quando era menina... [mas] não me importo com isso agora porque é a coisa pela qual mais me elogiam.

"A maioria acha que pinto o cabelo, mesmo pessoas que me conhecem há anos."

Dada a falta de pesquisa sobre o assunto, é impossível estabelecer a prevalência histórica dos ruivos étnicos. Os modelos de Michelle são predominantemente mestiços, o que, no contexto da explosão da população mestiça no Reino Unido, pode indicar que vamos acabar nos tornando mais proeminentes.

E pode não ter havido uma época melhor para ser ruivo. "A única coisa chata", comentou Coral, "é que isso está virando moda".

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Veja a nova revista dedicada aos ruivos, por exemplo, também chamada MC1R. Ela acabou de publicar sua primeira edição em inglês trazendo o perfil de projetos internacionais específicos sobre ruivos de Phillip Gätz, Jens Kaesemann e Thomas Knights – esse último, inclusive, fez muito sucesso com a série "Red Hot", que visa a redefinir o estereótipo do homem ruivo. Thomas também publicou recentemente o primeiro calendário feminino Red Hot, que, junto com a venda da versão masculina, levanta dinheiro para organizações antibullying.

Também temos o Dia Ruivo no Reino Unido, que já está no terceiro ano e acontece em Londres no dia 12 de setembro – as festas anteriores foram realizadas em Manchester. O site do evento destaca: "Os ruivos são ridicularizados e insultados há muito tempo. Literalmente, por séculos. Essa é a hora de nos levantarmos". Eles até realizarão uma cerimônia de premiação nesse mesmo dia chamada de MOGOs.

Quanto ao projeto fotográfico, Michelle espera chamar a atenção dos geneticistas porque gostaria de ter um "lado científico" para seguir: "Eu queria saber mais fatos para poder fazer uma declaração final", ela apontou. Ela espera fazer uma exposição num futuro próximo, talvez financiada em parte por uma campanha no Kickstarter.

"Quero mexer com a percepção que a maioria de nós tem sobre os ruivos como indivíduos caucasianos, potencialmente de descendência celta", ela contou ao VSCO no começo deste ano. "Apesar de existir uma conexão irlandesa/escocesa subjacente ao gene MC1R na ocorrência de cabelo vermelho, não tenho certeza se ser 'ruivo' ainda significa ser escocês, irlandês, do País de Gales ou mesmo branco."

@natasha_culzac

Tradução: Marina Schnoor

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