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Ágatha ausente: a PM do Rio não respeita nem morte de criança

Se não fosse a imprensa, e o Fábio Assunção, a PM passava por cima do ato em protesto à morte da menina de oito anos.

por Matias Maxx; fotos por Matias Maxx
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23 Setembro 2019, 7:54pm

Família de Ágatha e moradores de comunidades do Rio de Janeiro velaram a morte da menina de 8 anos. Foto: Matias Maxx/VICE.

O clima de verão fora de época da semana passada foi quebrado por um fim de semana chuvoso e sombrio. Na noite de sexta dia 20, Ágatha Vitória Sales Felix, 8, deixou o plano terreno para entrar nas estatísticas. Ela é a quinta criança morta por bala perdida este ano, e a décima-sexta baleada segundo o levantamento da plataforma Fogo Cruzado. Dados do ISP (Instituto de Segurança Pública) apontam 1249 mortes por intervenção de agentes do estado de janeiro a agosto. De família religiosa, Ágatha estava a bordo de uma Kombi quando foi alvejada por tiros disparados por policiais militares. Segundo relatos de moradores, os PMs teriam atirado contra motocliclistas que julgaram estar armados e erraram o tiro, acertando a menina de oito anos e indo embora sem prestar socorro. O fim de semana foi marcado por protestos, também por descaso do poder público e também provocações de uma parte da PM.

Entre pai e tio da vítima, mãe carrega a boneca favorita de Ágatha. Entre pai e tio da vítima, mãe carrega a boneca favorita de Ágatha.

Sob chuva, na manhã de sábado um ato espontâneo foi realizado na Fazendinha, região do Complexo do Alemão onde a menina foi morta. Moradores e mototaxistas marcharam até o local do crime, que estava guardado por policiais armados e o infame veículo blindado conhecido como “Caveirão”, que permaneceu lá até pelo menos domingo. Outro ato foi convocado ao meio-dia de domingo, saindo da UPA na avenida Itararé rumo ao velório próximo do cemitério de Inhaúma. Chovia muito, crianças lideravam o ato carregando balões amarelos iguais ao carregado por Ágatha numa foto. Mototaxistas somavam-se ao ato fazendo a contenção do trânsito e buzinando sem parar. “Bala perdida nada, só tem bala mandada”, gritava uma coroa eufórica. Algumas centenas de pessoas seguiam um carro de som que puxava puxava o coro de “Justiça! Justiça”, “Witzel assassino” e revezava vozes entoando louvores ou funks como o “Rap da Felicidade”. Mais tarde a multidão dobraria de tamanho.

Mais de uma vez desde sua posse o governador Wilson Witzel pronunciou-se orientando a PM a alvejar homens armados. Mas nem sempre é preciso estar armado: além de crianças ou pessoas cuidando dos seus afazeres, furadeiras e guarda-chuvas já foram confundidos com armas e terminaram em mortes. Um vídeo que viralizou nas redes recentemente mostra a PM abordando motociclistas carregando um pedestal de microfone: “Vocês saindo da favela assim, depois morre e a culpa é de quem? Do polícia,” diz o PM.

Não foi esta gestão que inventou essa guerra. Segundo levantamento da ONG Rio de Paz, Ágatha é a 57ª criança morta por bala perdida desde 2007, no entanto é inegável o banho de sangue autorizado pelo governo Witzel. A polícia do Rio de Janeiro mata em média 5 pessoas por dia, nos cinco primeiros meses do ano foram 731 mortes, um crescimento de 12% do ano anterior e número recorde desde 2008, em que houveram 652 mortes no mesmo período. Ainda que de forma desproporcional, as fatalidades não são exclusividade dos civis: só neste final de semana dois policiais militares foram mortos. Segundo amigos presentes no enterro, é o terceiro caso de bala perdida na família de Ágatha.

O ator Fábio Assunção no ato.
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O ator Fabio Assunção, a jornalista Flávia Oliveira e o artista plástico Ernesto Neto foram algumas das celebridades que identifiquei no protesto, além de comunicadores e ativistas locais como René Silva do A Voz das Comunidades e Renata Trajano do Coletivo Papo Reto. Quando a marcha estava na altura da estação de metrô de Inhaúma, antes de chegar no velório, uma viatura policial identificada com o número 54-0284 quis furar a multidão, ligando a sirene e forçando passagem. Não houve motivo ou justificativa alguma. O presentes não deixaram a viatura passar: um amigo da família bem exaltado se postou em frente ao veículo e xingou os policiais.

O Fabio Assunção foi um dos primeiros a chapar o celular na cara dos PMs que tentaram furar o ato.
Exaltado, suposto parente da vítima enfrenta a PM.
Indignados, manifestantes acabam abrindo passagem pra viatura.

O ator foi um dos primeiros a chapar com o celular na cara dos canas. Se não fosse ele e o tanto de imprensa que havia o desfecho poderia ter sido diferente. Os policiais se controlaram, manifestantes acabaram afastando o sujeito exaltado, e liberando a passagem para viatura.

Procurados pela VICE a assessoria de imprensa da PMERJ respondeu: “pela imagem enviada, não vemos registro de alteração. Vemos uma viatura acompanhando a manifestação. O 3º BPM (Méier) acompanhou a movimentação até o final sem registrar qualquer problema”. Enviamos mais fotos retrucando que a viatura em questão não acompanhava o ato, estava no trânsito e forçou seu caminho através da multidão. Ainda não recebemos resposta.

Não foi o único incidente envolvendo a polícia no dia: mais tarde um PM youtuber do MBL tentou colar no enterro, foi rechaçado por um militante antifascista da Marcha das Favelas, o agrediu, fugiu, e postou o vídeo se vitimizando pra todo mundo ver.

Uma multidão acompanhou a chegada do caixão da menina Ágatha, de oito anos, ao cemitério de Inhaúma.
Avô de Ágatha ergue a boneca favorita da neta. "A arma que a minha filha carregava era essa daqui," disse. Foto: Matias Maxx/VICE.

O ato chegou a funerária onde o corpo de Agatha era velado, às 16h saiu um cortejo até o cemitério de Inhaúma. A família liderava uma multidão de centenas de pessoas e dúzias de mototaxistas. A mãe carregava uma boneca da Mônica, o brinquedo favorito de Ágatha, a avó, ia dentro do carro, em estado de choque, o tio Cristian era um dos que mais chorava. Mais tarde, durante o sepultamento, a boneca da Mônica foi erguida pelo avô Airton, que repetiu várias vezes, “a arma que a minha filha carregava era essa daqui”. Foi uma cena horrorosa que ninguém deveria sequer testemunhar, mas que faz parte da vida de dezenas de famílias cariocas — seis só neste ano.

Apenas três coroas de flores foram colocadas junto com o caixão, as demais foram deixadas em cima e em volta da gaveta onde Ágatha foi sepultada.

Não tinha um colega da imprensa que não estivesse deprimido ou revoltado, um cinegrafista morador do Complexo desabafou: “Gritam Marielle presente! Agatha presente! Deveriam gritar é ‘ausente’”.

Crianças carregavam a faixa de abertura do ato e carregavam balões amarelos como o que aparece numa das fotos de Ágatha.

Na manhã de segunda, quatro policiais prestaram depoimento hoje na Delegacia de Homicídios da capital, que deve realizar uma reconstituição. Dois dias de silêncio depois, o governador convocou uma coletiva para a imprensa nesta segunda-feira. Sem comentar a ação da polícia, Witzel lamentou a morte. Ignorando os recordes de mortes por intervenção policial, o governador do Rio de Janeiro disse que os homicídios no estado reduziram em sua gestão. Ignorado por Witzel também foi o recorte racial das mortes por decorrência de ação policial, que aumentou entre negros diminuiu entre brancos, segundo apuração do Buzzfeed Brasil. Ele então acusou a oposição de usar caixão como palanque e no culpabilizou usuários de drogas pela morte da criança, usando-a como palanque. Representantes da cúpula do Instituto de Segurança Pública presentes na coletiva disseram que o fato será investigado, mas que a política de enfrentamento se mantém no Rio de Janeiro.

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