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Com discurso de Bolsonaro na ONU, Brasil ganha um ditador pra chamar de seu

Apelo presidencial ao autoritarismo isola o país, apita aos cachorrinhos do neofascismo e acena por um futuro fechamento do regime.

por Tiago C. Soares; ilustrado por Vinicius Trigo
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25 Setembro 2019, 8:26pm
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Terça-feira, 24 de setembro, rolou a Assembleia Geral da ONU. E o Brasil, como acontece desde 1947, foi a nação a fazer o pronunciamento de abertura, inaugurando a carreira de Jair Bolsonaro como headliner no circuito internacional. Pode ser que a esta altura do campeonato, com o neofascismo comendo as democracias liberais do ocidente igual Doritos, um pessoal veja as assembleias da ONU como um tipo de grande reunião de condomínio do mundo que nunca consegue resolver o problema da piscina. Mas tem uma coisa nisso aí, um negócio complicado que joga pra baixo não só a importância da ONU, mas também a importância das reuniões de condomínio.

Um elemento importante na manutenção da ONU como mediadora global é garantir que exista uma referência comum de civilização. Deixar todo mundo na mesma página a respeito de coisas como o extermínio de gente em escala industrial (muito errado), o papel da ciência na elaboração de políticas públicas (importante), e o risco de guerras (deprimente demais). De certo modo, o fato de, desde o fim da Segunda Guerra, a humanidade ter se mantido mais ou menos inteira e sem novos conflitos mundiais é um argumento a favor da ONU. Mais ou menos como é um voto a favor da reunião de condomínio quando o pessoal discute a problema da piscina sem se bater com um porrete.

É meio desanimador então que o discurso de Bolsonaro na ONU tenha sido um ataque a tudo que foi construído pela comunidade internacional para evitar algo similar ao nazifascismo do pós Primeira Guerra. Porque a fala de Bolsonaro foi basicamente uma explicação sobre o incômodo dos novos donos do governo brasileiro com qualquer contrato de tolerância, ou civilidade, ou compromisso com espaços de colaboração em que diferenças e negociações sejam necessárias. Seria mais ou menos como levar um grande pedaço de pau pra reunião de condomínio. Não faltaram inimigos no discurso -- a estreia da nova era bolsonarista nas Nações Unidas foi uma expressão de guerra e de ataque a pedaços grandes da comunidade brasileira e internacional, ONU inclusa.

Foi, enfim, um discurso sobre fantasmas. Sobre os infiltrados do regime cubano no Brasil para enfraquecer os pilares da nação, e sobre o espectro do socialismo que assombra a América do Sul comandado pelo Foro de São Paulo. Sobre os planos de dominação continental do socialismo venezuelano e a eterna ofensiva do marxismo contra a inocência de nossas crianças. Sobre impossibilidade de se confiar na ciência, e os cientistas que mentem sobre o impacto causado pela destruição do meio ambiente brasileiro. Foi a realização de um sonho olavista: oferecer a assembleia das Nações Unidas pras vozes na cabeça de Olavo de Carvalho falarem do complô globalista que estaria por trás da própria ONU.

Em sua defesa do direito à destruição do meio ambiente -- que mistura a crítica ao “globalismo” (que é como a extrema direita internacional entende os processos liberais/capitalistas explicados na ideia de “globalização”) -- Bolsonaro foi ao mesmo tempo líder de torcida do livre mercado sem freios, crítico do neocolonialismo e fanboy do nativismo defendido por Trump. Para além da confusão em defender ao mesmo tempo essas ideias todas, o discurso bolsonarista, ao celebrar uma noção de soberania nacional vinda direto da doutrina militar da ditadura ali do começo dos 1970, parece não se preocupar tanto com a integridade do território brasileiro. O problema não é a total falta de autonomia, ou expropriação de riquezas, ou a violência historicamente presente nos processos coloniais -- mesmo que Bolsonaro, o sujeito que quer fazer de seu filho o embaixador do país nos EUA, saia papagaiando que o Brasil não é mais "uma colônia, sem regras e sem soberania" (porque afinal nada é mais colonial, sem regras, e submisso do que enviar seu filho como preposto para tratar de assuntos com a metrópole).

No geral, a racionalidade do discurso bolsonarista na ONU é a respeito da imposição de um modo de vida, e de um conjunto de regras de convivência, que parecem vir de uma cartilha explicando o que é a “família brasileira” do período do AI-5. Em seu discurso, sua crítica ao ambientalismo -- arrematada pela determinação de que indígenas transformem suas terras em grande entrepostos de mineração -- prevê que as populações nativas sejam, através do extrativismo, transformadas na marra em “brasileiros puros”. Uma noção que, para além do neocolonialismo meio óbvio, se mostra também como um esforço de apagamento de qualquer tipo de outra cultura, ou sociabilidade, ou entendimento do mundo natural e da vida que as populações nativas passem à frente como tradição. É o apagamento de qualquer tipo de alteridade, a exigência de que a população do país seja “purificada”, purgada de qualquer coisa que não seja o positivismo-gente-de-bem-vestindo-verde-e-amarelo.

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O discurso de Bolsonaro na ONU é de uma virulência, paranoia e negação da realidade esperados do tipo de supervilão internacional em que ele parece, de modo cada vez mais confortável, se definir. Sua celebração do combate à "ideologia" (sic) -- que, para o bolsonarismo, seria instalada no terreno “da cultura, da educação e da mídia” -- é na verdade carimbar um salvo conduto para reconstruir a realidade à sua semelhança, apagando pela força qualquer coisa que não se submeta ao roteiro. Se, como Bolsonaro diz, "A ideologia invadiu a alma humana para expulsar Deus", sua missão como enviado divino o dá, em seu entendimento, poderes absolutos sobre o território, a vida e a morte brasileiros.

Não à toa, o “apito de cachorro” soprado por Bolsonaro pelo acirramento autoritário da sua claque desembocou num pedido por “ucranização” entre o vaporoso fascismo tuiteiro nesta quarta, sob o pretexto de constranger os senadores que votaram contra os vetos do presidente à lei de abuso de autoridade. No geral, pedir ucranização é pedir que a base radicalizada se organize em grupos e faça a transição da política à violência, apelando a imagens de políticos enfiados em caçambas de lixo ou ataques diretos à símbolos democráticos realizados por grupos fascistas e de extrema direitas organizados em sua “revolução”, ironia das ironias, pró-União Europeia. De todo modo é um aceno à radicalização e a uma perspectiva de mobilização da violência por sua base e, no limite, de um fechamento do regime.

É importante frisar ainda que, se a Ucrânia tem a guerra, que serve como campo de treinamento e radicalização pra extrema direita, o Brasil tem uma violência a permear historicamente, até por conta da constituição colonial do país, todo o seu território. E isso transborda de certo modo pro neofascismo constituído em torno do bolsonarismo. Esse aceno aos modos de organização da extrema direita ucraniana vem também em um momento em que o regime se alinha a polos de radicalização da extrema direita global, como o evento de viés supremacista branco na Hungria de que a Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos participou na semana passada.



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Não importa muito que um ou outro pedaço das instituições brasileiras ainda funcionem sob as regras da Constituição de 1988; ou se um pessoal acredita que as forças do livre mercado seriam capazes de enfiar alguma racionalidade liberal na cabeça do Bolsonaro pela sabedoria da auto-organização de informações e recursos; ou qual a porcentagem e grau em que a base radicalizada de apoio ao bolsonarismo estaria fechada com o neofascismo que escorre de seu discurso na ONU. O ponto é que, na exigência de submeter todo o corpo social aos fantasmas e fantasias de dentro de sua cabeça, Bolsonaro já age como um ditador. A negação da ciência, as políticas de Estado reconhecendo apenas um pedaço muito específico de sociabilidades e pensamentos como as manifestações “legítimas” e aceitáveis do povo brasileiro, a disposição de tratorar todos os espaços de institucionalidade que não sejam comandados de modo absoluto por ele e sua família. Bolsonaro já articula e mobiliza como pensamento, palavra, e ação, as atitudes do ditador que vê no espelho. É só questão de tempo até isso condicionar o funcionamento de todo o resto das coisas – seja por pura submissão das instituições, seja através do uso da força. A ONU já foi.

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