FYI.

This story is over 5 years old.

WRONG CMS GET OUT

Psicólogos explicam por que tantas pessoas acreditam terem vivido histórias mirabolantes — como participar de rituais satânicos.

Uma série de vídeos postados este ano no YouTube mostram duas crianças compartilhando informações perturbadoras sobre uma sociedade secreta que atua no norte de Londres.

Os irmãos afirmam ter sido vítimas de uma seita satânica, liderada por vários professores e membros da igreja do rico subúrbio de Hampstead. Nos vídeos, que já foram vistos por milhões de pessoas, os dois descrevem o sacrifício e a necrofagia de bebês, orgias grotescas e rituais satânicos.

Publicidad

"Eles afirmam que vários bebês foram abusados, torturados e sacrificados", resumiria um juiz no decorrer do caso. "Suas gargantas eram cortadas e seu sangue, bebido. Os membros da seita também usavam os crânios dos bebês — muitas vezes ainda com o sangue e cabelo das crianças — como máscaras durante suas danças ritualísticas."

Eles acusaram dezenas de professores e adultos da região como membros de uma seita pedófila liderada pelo seus próprios pais.

Como era de se esperar, a polícia levou essas acusações à sério.

Seis policiais revistaram a igreja, onde nenhuma evidência de rituais satânicos foi encontrada. Depois de dois interrogatórios, as crianças admitiram que a história era falsa — os verdadeiros abusos físicos e psicológicos vinham da parte de sua mãe Ella Draper e do seu namorado Abraham Christie, que também os haviam obrigado a mentir para a polícia.

"Era tudo inventado", disse a menina de nove anos aos investigadores. "Ele me disse para falar tudo aquilo, e eu disse 'por que, Abraham? Isso nunca aconteceu' e ele disse 'sim, isso aconteceu, então pare de mentir e conte tudo para a polícia. Eles dançam com crânios de bebês na igreja, certo?' Foi isso que Abraham me disse, e eu disse 'não, eles não fazem isso' e ele disse 'sim, eles fazem — pára de mentir, sua pestinha.'"

Embora as crianças tenham negado tudo, alguns descrentes afirmam que há muito mais por trás dessa acusação. "Acreditem nas crianças!" e "satanistas!" eram alguns dos apelos ouvidos há algumas semanas durante um protesto em frente à escola das duas crianças.

Publicidad

Como um número tão grande de pessoas se deixou levar por acusações tão infundadas e como a linha entre realidade e ficção se tornou tão confusa?

Enquanto isso, na justiça, a juíza Pauffley determinou que a seita satânica nunca havia existido. "Posso afirmar categoricamente que nenhuma dessas afirmações são verdadeiras", disse. "Tenho total certeza de que tudo que a Sra. Draper, seu namorado Abraham Christie e as crianças disseram é completamente falso. As denúncias não tem fundamento algum. Essas histórias são fruto de uma forte pressão psicológica aliada a abuso físico constante."

"Ambas as crianças sofreram significantemente. Sua inocência foi corrompida. Sua noção de realidade foi lesada.

"Suas mentes foram envenenadas."

***

Por mais bizarra que essa história pareça, não é a primeira vez que alguém cria uma narrativa sobre terríveis rituais satânicos — em alguns casos, a história é repetida tantas vezes que a própria vítima passa a acreditar nela. Existem registros de casos parecidos desde o início dos anos 80. Em um documentário da BBC Radio 4, o jornalista David Aaronovitch aponta o livro Sybil, publicado em 1973, como a origem do que seria futuramente conhecido como "a histeria satânica".

O livro, escrito por Flora Rheta Schreiber, conta a suposta história verídica de Shirley Ardell Mason (sob o pseudônimo Sybil Dorsett) e sua terapeuta Cornelia B. Wilbur. A história começa quando "Sybil" procura Wilbur para curar sua ansiedade.

Publicidad

O objetivo da abordagem terapêutica de Wilbur, narra Schreiber, era ajudar Sybil a recuperar memórias reprimidas dos repetidos abusos sexuais conduzidos por sua mãe durante sua infância. Logo após o início do tratamento, Sybil começou a apresentar sinais associados ao transtorno de múltiplas personalidades (TMP) e se fragmentou em 16 tipos distintos.

O livro impulsionou uma série de tratamentos neo-Freudianos que envolviam a descoberta dessas memórias reprimidas. Outra consequência foi o aumento do controverso diagnóstico do TMP (hoje conhecido como transtorno dissociativo de identidade), culminando em sua classificação como uma doença real pela Associação Psiquiátrica dos Estados Unidos em 1980.

"Foi uma experiência real. Se você perguntar a Michelle, ela vai afirmar que se lembra dos mínimos detalhes. Para ela, tudo é extremamente real"

Entretanto, os eventos narrados em Sybil são extremamente duvidosos. O psiquiatra Herbert Spiegel ouviu diversas gravações de conversas entre Schreiber e Wilbur, e é da opinião que Wilbur inseriu essas outras personalidades na mente de Mason utilizando técnicas de hipnose ao longo da terapia.

O livro Sybil também inaugurou um novo gênero de literatura pseudo-científica que romantiza a terapia de pacientes com memórias reprimidas ou TMP. Dezenas de livros do mesmo tipo foram lançados na época e todos contavam histórias muito parecidas.

Em 1980, Michelle Smith e seu psiquiatra e marido, Lawrence Pazder, escreveram um livro chamado Michelle Remembers, que reintroduziu, com sucesso, o oculto no imaginário do século 20, espalhando uma histeria coletiva que assolou os EUA e, em menor grau, atingiu o Reino Unido. Essa febre poderia ser facilmente descrita como um Bruxas de Salem moderno.

Publicidad

Smith iniciou a terapia para tratar uma depressão causada por um aborto espontâneo. Em uma das sessões, ela teria se desconectado da realidade e gritado por 25 minutos; em seguida passou a falar com voz de criança. Os dois então passaram por mais de 600 horas de hipnose, durante as quais Pazder ajudou Smith a "recuperar" memórias reprimidas do abuso sexual satânico conduzido por sua mãe e outros membros de uma seita em sua cidade natal, Victoria, no estado britânico de Columbia.

Assim como no caso de Sybil, a credibilidade de Michelle Remembers já foi posta em escrutínio diversas vezes. Quando um jornalista do The Mail on Sunday perguntou se os fatos narrados no livro eram reais, Pazder respondeu que "foi uma experiência real. Se você perguntar a Michelle, ela vai afirmar que é disso que lembra.' Para ela, tudo aquilo é extremamente real. Sempre duvido desse tipo de caso. É preciso completar um longo processo de terapia antes de chegar a qualquer conclusão. Todo mundo está focado em provar ou refutar o que aconteceu, mas no final isso não importa."

Investigações posteriores revelaram várias inconsistências e ambiguidades ao longo do livro, como acidentes de carro que nunca aconteceram. Amigos de infância e outras testemunhas confirmaram que não há nenhuma possibilidade desse ritual satânico de 81 dias ter acontecido.

Além disso, muitas das supostas memórias reprimidas eram parecidas com filmes de terror da época, como O Exorcista e A Profecia, além de possuir semelhanças com relatos de sociedades secretas da África Ocidental, onde Pazder havia trabalhado durante a década de 60.

Publicidad

A perceptível ausência de provas empíricas relacionadas às acusações presentes em Michelle Remembers não foi o suficiente para impedir que Pazder se tornasse um especialista no campo, sobretudo durante a febre ocultista que assolou o país no começo dos anos 80.

Em 1985, Pazder apareceu no programa 20/20, transmitido pela ABC, na primeira grande reportagem televisiva sobre satanismo. Ele instruiu policiais acerca dos perigos dos rituais satânicos, e Michelle Remembers passou a ser usado como um manual que servia tanto para identificar satanistas como para orientar assistentes sociais. Pazder serviu como consultor em mais de 1.000 casos de abuso satânico, incluindo o julgamento da pré-escola McMartin — o julgamento mais longo e caro da história dos Estados Unidos.

Assim como no recente caso de Hampstead, o julgamento de McMartin teve início quando uma mãe acusou seu ex-marido e professor de Los Angeles, Ray Buckey, de abusar de seu filho em 1983. Não se sabe ao certo se a criança confirmou o abuso, mas a polícia decidiu, depois de interrogar Buckey, que não existiam provas suficientes para justificar uma acusação.

Em vez disso, eles mandaram uma carta para cerca de 200 pais de estudantes do jardim de infância McMartin, e pediram que eles perguntassem para seus filhos se eles haviam sido vítimas de algum tipo de abuso na escola. Centenas de crianças foram entrevistadas por funcionários de um centro de prevenção do abuso infantil, processo que revelou que outras 360 crianças haviam sido supostamente abusadas.

Publicidad

"Muita gente acredita que a memória funciona como uma câmera, mas isso não é verdade."

"Utilizando bonecos para incentivar as crianças a revelar o que havia acontecido, os terapeutas puderam denunciar os terríveis segredos da escola McMartin," anuncia uma reportagem da época. Conforme a cobertura da mídia ganhava força, o mesmo acontecia com as acusações: sete outras escolas da área de Los Angeles foram envolvidas na investigação.

O país estava dominado pelo pânico; era cada vez mais claro que muitas das técnicas utilizadas para interrogar crianças envolviam um alto grau de sugestão. Pouco tempo depois, todos os acusados no caso McMartin foram absolvidos e os depoimentos das crianças, invalidados.

***

Esses casos revelam algo perturbador sobre nossas mentes. Como um número tão grande de pessoas se deixou levar por acusações tão infundadas? E como a linha entre realidade e ficção se torna tão confusa a ponto de indivíduos inventarem histórias tão grotescas sobre suas próprias vidas?

No começo dos anos 70, a influente psicóloga Elizabeth Loftus criou a ideia do efeito de desinformação — uma teoria que afirma que informações adquiridas podem alterar a lembrança de eventos passados. Seu trabalho inovador mudou nossa ideia de memória.

"Muita gente acredita que a memória funciona como uma câmera, mas isso não é verdade", disse Loftus, que, mesmo aos 70 anos, continua a dar aulas de direito e psicologia na Universidade da Califórnia. "Nós não gravamos um acontecimento e projetamos mais tarde. Na realidade, reconstruimos memórias a partir de pedacinhos de lembranças que aconteceram em diferentes lugares e períodos."

Publicidad

Loftus e seu colega John Palmer conduziram uma experiência em 1974, na qual um grupo de voluntários era exposto a vídeos de acidentes de carro. Eles descobriram que o uso de palavras sugestivas durante as entrevistas afetavam a lembrança de eventos que haviam acabado de acontecer.

As implicações dessa descoberta são chocantes. "Esse tipo de pesquisa é essencial para o sistema legal", disse Loftus à Motherboard. "Em vários julgamentos, as testemunhas apresentam lembranças que precisam ser analisadas cuidadosamente. Não podemos aceitá-las só porque são ditas com confiança ou apresentam muitos detalhes. Essas memórias falsas podem ser utilizadas em julgamentos, destruindo a vida de muitos inocentes."

A terapia de regressão tem mais a ver com a criação de novas memórias do que com a descoberta de lembranças reprimidas

"Isso pode acontecer porque a testemunha não guardou muitas informações sobre o evento em questão ou porque sua percepção do acontecimento mudou ao longo do processo", ela disse. "Ou talvez ela esteja sendo interrogada por alguém que quer provar algo, alguém que faça perguntas sugestivas. Essas são algumas das situações que podem produzir memórias distorcidas — lembranças contaminadas por algum fator externo tempos após o verdadeiro acontecimento."

Essa contaminação não se limita aos pequenos detalhes de nossas memórias. Atualmente Loftus conduz uma pesquisa para comprovar que é possível plantar memórias vívidas de eventos que nunca ocorreram na mente de outrem.

Publicidad

"Fazemos com que as pessoas acreditem lembrar de situações completamente inventadas", ela disse. "Tentamos convencer as pessoas de que elas haviam se perdido num shopping aos cinco ou seis anos de idade e que, depois de muito desespero e choro, foram salvas e devolvidas aos seus pais."

Loftus apresentou algumas experiências reais para um grupo; entre elas, estava a história falsa do shopping. Em seguida, entrevistou os voluntários utilizando técnicas de sugestão. Depois de três entrevistas, quase um quarto das pessoas caíram no truque e começaram a acreditar nesse acontecimento.

"É possível fazer com que as pessoas transformem uma história em memória, especialmente se ela for crível e você não vacilar em nenhum momento", ela disse. "É algo parecido com uma distorção da memória coletiva."

É exatamente essa distorção da memória coletiva que deixou os pais e alunos da McMartin tão incertos quanto aos verdadeiros acontecimentos.

A distorção da memória coletiva também pode ser utilizada intencionalmente por governos que queiram controlar seu povo. "Muita gente diz que isso aconteceu na China após o Massacre da Praça Tiananmen", disse Loftus.

As manifestações estudantis feitas na Praça Tiananmen em 1989 foram reprimidas com truculência pelos militares. Pouco se sabe sobre o incidente; o governo chinês proibiu qualquer discussão sobre o massacre. Acredita-se que algo entre centenas e milhares de pessoas morreram no que o governo chama de "rebelião anti-revolucionária".

Publicidad

Loftus explicou que "eles diziam que os soldados estavam sendo atacados, que os soldados eram os inocentes e que os estudantes eram os agressores. As pessoas acreditaram nessa versão, e é exatamente isso que acontece na lavagem cerebral."

***

O fato de sermos tão vulneráveis ao poder da sugestão — chegando ao ponto de acreditar em histórias tão absurdas sobre nossas próprias vidas — é perigoso. Esse tipo de pesquisa é essencial para que possamos compreender a maleabilidade de nossa memória.

Não há nenhuma possibilidade desse ritual satânico, que segundo Smith durou 81 dias, ter realmente acontecido

"Pára de mentir, sua pestinha" foi a frase que Abraham Christie teria utilizado para convencer sua enteada a mentir para a polícia. Levando em conta o já mencionado poder da sugestão, é fácil ver como esse tipo de abuso pode ter distorcido a memória dessas crianças. O fato dos dois ainda terem uma certa noção do que é ou não real, mesmo depois de tantos abusos, pode ser indício de um caráter muito resistente.

A base científica da teoria das memórias reprimidas é, no mínimo, duvidosa. Em 2005 um dos maiores especialistas em memória, Richard McNally, escreveu uma carta para a Suprema Corte da Califórnia explicando que "a ideia de que eventos traumáticos podem ser reprimidos e recuperados posteriormente é a lenda mais vil da psicologia e da psiquiatria".

A comunidade científica tende a concordar que a terapia de regressão tem mais a ver com a criação de novas memórias do que com a descoberta de lembranças reprimidas. O mais preocupante é que uma parcela considerável da comunidade psiquiátrica ainda não entendeu isso.

Quanto ao caso de Ella Draper e Abraham Christie, existem teorias de que eles teriam criado a história da seita satânica para impedir que o pai ganhasse a guarda das crianças (Draper negou ter manipulado seus filhos e afirmou que nunca havia disputado a guarda de ambos). Considerando que a mulher está foragida, e que as autoridades acreditam que ela tenha saído do país, é provável que esse mistério continue sem solução por algum tempo.

Tradução: Ananda Pieratii