An illustration of a woman carrying a heavy clock with hobbies floating around her
Cathryn Virginia
trabalho

O que conta como hobby, e será que tenho algum?

Jovens estão tentando recuperar o tempo roubado pelo capitalismo.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor
17 January 2020, 10:00am

Uma noite em outubro, enquanto eu esperava meu seltzer com lima num bar, meu amigo Seth me perguntou uma coisa que eu não sabia como responder: “Você tem algum hobby?”.

Meu cérebro passou por uma lista de atividades que faço fora do trabalho. Me imaginei cozinhando, lendo, correndo na esteira, lendo o Twitter. Eu não tinha certeza se qualquer uma dessas coisas constituía um hobby. Mesmo adorando cozinhar, alguém pode argumentar (como meu editor fez) que isso é um meio para um fim – nutrir meu corpo. Sou uma ávida leitora, mas às vezes também leio para o trabalho ou avalio livros por dinheiro. Correr, pra muita gente, é um hobby, mas pra mim é apenas exercício que faço para manter a forma: não corro com outras pessoas, não tento correr melhor, e não gosto particularmente de correr.

Seth também disse que não tinha nenhum hobby, mesmo querendo ter. Apontei que eu consideraria andar de bicicleta – o que o Seth faz com frequência – um hobby, mas ele via isso mais como meio de transporte. Além dos nossos trabalhos em tempo integral, parece que nos envolvíamos principalmente em atividades que sustentavam nossas vidas: ou seja, coisas que tornam trabalhar possível. Além disso, descobrimos que passamos muito do nosso tempo de lazer fazendo coisas por hábito, coisas que não queríamos nos sentir tão atraídos pra fazer: ler o Twitter, ver fotos no Instagram e outras atividades que relativamente não exigem pensar muito centradas na internet.

Há boas explicações para essas circunstâncias, que podem parecer familiares pra muita gente – particularmente jovens – que participam da vida de trabalho contemporânea e têm a segurança financeira e privilégios para considerar seriamente essas questões. Nos EUA, millennials ganham 20% menos do que os boomers ganhavam no mesmo estágio da vida, apesar de boa parte deles ter pelo menos um diploma universitário comparado com boomers. Ano passado, os EUA bateu o recorde de período mais longo sem um aumento federal do salário-mínimo, e apesar do número de americanos que têm mais de um trabalho ter caído nas últimas décadas, os dados atuais podem não levam em conta a enormidade do trabalho informal, e a uniformidade de como muita gente pega trabalhos paralelos para complementar a renda.

Americanos estão trabalhando mais que nunca, então faz sentido que haja menos tempo para interesses extracurriculares. E as pessoas entendem como o trabalho pode dificultar encontrar – e manter – um hobby.

“Sinto que o trabalho é um grande obstáculo para começar qualquer hobby novo”, Seth, que trabalha com direito em políticas de Nova York, me disse mais tarde por telefone. “Não trabalho à noite nem nos fins de semana, mas muitas vezes, me matricular numa aula de música ou algo assim é proibitivo pra mim.”

Mas também há forças mais sutis evitando que os jovens dediquem seu tempo a atividades fora do trabalho. Nos últimos anos, a cultura do trabalho vem penetrando quase toda a faceta das nossas vidas, transformando trabalho de uma coisa que fazemos para pagar contas e nos alimentar num estilo de vida, até numa identidade. “É uma obsessão por se esforçar, ser implacavelmente positivo, sem humor, e – quando você percebe – é impossível escapar”, Erin Griffith escreveu para o New York Times ano passado. E damos um alto valor social para o tipo de trabalho que Griffith descreve, ou pelo menos a aparência disso (que ela chama de “workaholismo performativo”): Um estudo de 2017 descobriu que quanto mais ocupada uma pessoa parece, ela é vista como mais importante pelas outras.

“Crescendo numa família de classe média alta na área de Nova York, fui socializado para valorizar sucesso acima de tudo”, me disse Ryan Mandelbaum, que começou a observar pássaros depois de escrever uma matéria para o Washington Post sobre os esforços de conservação das garças em Nova York. “No começo, eu não conseguia decidir o que queria fazer porque ficava muito estressado com desperdiçar tempo e não fazer algo de valor.”

Não é só que essa cultura do trabalho nos encoraja a ver qualquer paixão ou interesse fora do trabalho como um pequeno negócio em potencial, ou “trabalho paralelo”, isso também nos deixa conscientes de que tempo é dinheiro, como Mandelbaum sugeriu.

Em seu livro de 2019 How to Do Nothing, a autora Jenny Odell explica que sob o capitalismo, somos obrigados a pensar nos nossos dias como 24 horas “que podem ser monetizadas”. Mesmo para pessoas em situações econômicas menos precárias que pessoas que precisam ter um segundo (ou até terceiro) emprego, essas condições tornam “o tempo uma fonte econômica que não podemos mais justificar gastando em 'nada'”.

“Hobbies exigem tempo e, dependendo do hobby, dinheiro”, me disse Odell. (Ela deu crédito ao Feminist Bird Club por tornar a observação de pássaros mais inclusiva e acessível: O clube é um espaço para pessoas LGBTQ, mulheres e pessoas não-brancas descobrirem a observação de pássaros, e a maioria dos passeios deles é grátis.)

“Mas vamos dizer que um hobby é gratuito ou acessível pra você, e você tem o tempo”, Odell continuou. “Pode ser difícil não ver mesmo seu tempo livre como dinheiro – e nesse caso, hobbies parecem 'caros' se não produzem nada além de prazer e satisfação pessoal.”

Ainda assim, mesmo para quem rejeitou essa mentalidade, pode ser difícil imaginar como passar seu tempo livre. E assim, como Odell explica em seu livro, desfrutar de seu tempo de lazer também exige reclamá-lo da “economia de atenção”, o aparato capitalista que disputa nossa atenção de jeitos bem literais, como quando plataformas de redes sociais como Facebook e Instagram tentam manter os usuários em seus sites pelo maior tempo possível. Mas o que faríamos se pudéssemos treinar nossa atenção para algo mais significativo pra nós?

“Pode ser difícil não ver mesmo seu tempo livre como dinheiro – e nesse caso, hobbies parecem 'caros' se não produzem nada além de prazer e satisfação pessoal.”

“Acho que é preciso começar do zero”, disse Seth. Ele disse que isso pode parecer intimidador: Encontrar um hobby completamente novo significa aceitar que, seja lá o que ele escolher – tocar um instrumento, se juntar a um grupo de corrida, começar a fazer escalada numa academia – ele vai ser ruim nisso por um tempo. E isso pode desanimar pessoas que não digerem bem não ser boas em alguma coisa logo de cara.

Num artigo de opinião de 2018 na Times, Tim Wu, autor de The Attention Merchants: The Epic Struggle to Get Inside Our Heads, propunha que essa é a “razão mais profunda” para poucas pessoas terem um hobby. “Nossos 'hobbies', se é que essa é a palavra certa para eles hoje, se tornaram muito sérios, muito exigentes, uma ocasião para ficar nervoso se você é realmente a pessoal que diz ser”, ele escreveu. “Se você é um corredor, não é mais suficiente dar a volta no quarteirão; você está treinando para a próxima maratona. Se você é um pintor, você não pode mais passar uma tarde agradável, só você, sua aquarela e suas flores; você está tentando conseguir uma exposição numa galeria ou, pelo menos, uma quantidade respeitável de seguidores nas redes sociais.”

Mas segundo especialistas em lazer – sim, isso existe – um desejo de melhorar é uma parte essencial de ter um hobby. Passatempos como correr ou pintar são qualificados como “prazeres sérios” segundo Robert Stebbins, professor emérito do departamento de sociologia da Universidade de Calgary. Isso não significa que essas atividades precisam ser abordadas com o perfeccionismo que aplicamos no trabalho – aqui, “sério” é simplesmente uma diferenciação de atividades de prazer “casuais”, como sair com amigos, beber num bar ou assistir televisão.

Essas categorias são parte de um esquema que Stebbins desenvolveu nos anos 1970 chamado “The Serious Leisure Perspective”, que divide “prazeres sérios” em três categorias: amador, hobista e voluntário. Uma atividade “amadora” é uma que tem uma contrapartida profissional, explicou Stebbins, como pintura, astronomia ou futebol, enquanto hobistas não têm uma contrapartida profissional – dentro do sistema de classificação de Stebbins, hobbies incluem coisas como colecionar pedras e observar pássaros. Voluntários podem doar seu tempo para organizações de caridade, ou ajudar idosos. Mas coloquialmente, podemos considerar a maioria das atividades que cai sob o guarda-chuva dos “prazeres sérios” como “hobbies”.

Stebbins disse que se não ser bom num hobby logo de cara é muito frustrante pra você, ou você se vê colocando pressão demais para ter sucesso nisso, provavelmente esse hobby não é pra você. “Todas essas atividades exigem se esforçar e perseverar quando as coisas são difíceis, para que a pessoa possa descobrir a satisfação de melhorar”, disse Stebbins. “A coisa principal de qualquer atividade de prazer sério é que a pessoa gosta disso mesmo quando fazer tal coisa é inicialmente doloroso.”

O hobby certo pra você vai trazer prazer para sua vida, e não mais estresse, disse Stebbins. E atividades de prazer “sérias” se correlacionam especialmente com alegria e bem-estar: Pessoas com hobbies têm mais chance de não ter pressão alta, têm níveis mais baixos de cortisol (um hormônio de estresse), e têm níveis mais baixos de depressão, segundo um estudo de 2009.

Mandelbaum diz que observar pássaros foi o que finalmente fez ele “deslogar e sair de casa”. Ele gosta de ser um pouco competitivo com observação de pássaros, e tentar melhorar em identificar as espécies e capturá-las em fotos. E isso mudou completamente como Mandelbaum organiza sua vida: Trabalho não é mais o centro dela, ele disse – observar pássaros sim. O trabalho normal dele é o que torna observar pássaros possível.

“Isso resetou meus objetivos de vida”, ele disse. “Em vez de buscar o sucesso, agora só busco coisas de que gosto.”

Depois de falar com Mandelbaum, percebi que eu já tinha atividades que me faziam sentir assim. Enquanto alguns livros que leio podem ser mais prazerosos que outros, o simples fato de ler me dá prazer, assim como experimentar uma nova receita ou me sentar para uma deliciosa refeição que eu mesma preparei – são momentos calmos longe do mundo do trabalho e obrigações.

Stebbins confirmou, apesar das minhas dúvidas iniciais, que essas coisas “contam” como hobbies, especialmente do jeito como as faço: ler geralmente é uma atividade solitária, mas também discuto livros que gosto com amigos em clubes do livro e troco recomendações com outros leitores. Tento melhorar nisso, buscando ler mais livros que no ano passado a cada ano, colecionando primeiras edições raras, e me desafiando a terminar obras mais longas e complexas.

Claro, não sou totalmente imune aos efeitos do capitalismo: Às vezes não consigo deixar de pensar que se eu largasse meu livro e passasse as noites e finais de semana adiantando o trabalho, eu poderia ter mais sucesso no sentido convencional. E ainda estou aprendendo a dar minha atenção total para coisas que tornam minha vida significativa – às vezes, por força o hábito, entro no Twitter quando sei que preferia terminar um capítulo do romance que estou lendo. Mas vale a pena tentar resistir a esses impulsos.

“O que torna um hobby tão legal é que você tem essa coisa padrão que te faz feliz”, disse Mandelbaum. “Quando tudo mais der errado, posso correr para o parque e ver um cardeal tomando banho.”

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.