An illustration of a woman carrying a heavy clock with hobbies floating around her
Cathryn Virginia
Finanças

O que conta como hobby e será que tenho algum?

Devíamos tentar recuperar o tempo roubado pelo capitalismo e pela cultura do trabalho.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
28 January 2020, 4:46pm

Certa noite em Outubro, enquanto esperava pela minha bebida num bar, o meu amigo Seth fez-me uma pergunta à qual eu não soube responder: “Tens algum hobby?”.

O meu cérebro analisou uma lista de actividades que faço fora do trabalho. Imaginei-me a cozinhar, a ler, a correr na passadeira, a ler o Twitter. Não tinha a certeza se alguma dessas coisas constituía um hobby. Apesar de adorar cozinhar, pode-se argumentar (como fez o meu editor) que isso é um meio para atingir um fim – nutrir o corpo. Sou uma leitora ávida, mas às vezes também leio para o trabalho ou avalio livros por dinheiro. Correr, para muita gente é um hobby, mas para mim é apenas exercício que faço para me manter em forma. Não corro com outras pessoas, não tento correr melhor e não gosto particularmente de correr.

O Seth também me disse que não tinha nenhum hobby, mas que gostava de ter. Respondi-lhe que eu consideraria andar de bicicleta – coisa que ele faz com frequência – um hobby, mas para ele era mais como um meio de transporte. Além dos nossos trabalhos a tempo inteiro, parece que nos envolvíamos principalmente em actividades que servem para sustentar as nossas vidas: ou seja, coisas que tornam possível trabalhar. Além disso, descobrimos que passamos muito do nosso tempo de lazer a fazer coisas por mero hábito, coisas pelas quais não nos sentimos assim tão atraídos: Twitter, ver fotos no Instagram e outras actividades em torno da internet que não exigem pensar muito.

Há boas explicações para essas circunstâncias, que podem soar familiares a muita gente, particularmente jovens que participam na vida de trabalho contemporânea e têm a segurança financeira e os privilégios para poderem considerar seriamente estas questões. Nos Estados Unidos, os millennials ganham 20% menos do que os boomers ganhavam na mesma fase da vida, apesar de maior parte deles ter, pelo menos, um diploma universitário. No ano passado, os EUA bateram o recorde de maior período de tempo sem um aumento federal do salário-mínimo e, apesar do número de americanos que têm mais de um trabalho ter descido nas últimas décadas, os dados actuais não têm em conta a quantidade de trabalho informal e como muita gente faz trabalhinhos paralelos para complementar o ordenado.

Os americanos trabalham mais do que nunca, por isso faz sentido que tenham menos tempo para interesses extra-curriculares; o trabalho pode dificultar encontrar – e manter – um hobby.

“Sinto que o trabalho é um grande obstáculo para começar qualquer hobby novo”, disse-me o Seth, que trabalha em advocacia política em Nova Iorque. “Não trabalho à noite nem aos fins-de-semana mas, muitas vezes, inscrever-me numa aula de música ou assim já é inviável para mim.”

Mas também há forças mais subtis que impedem que os jovens dediquem o seu tempo a actividades fora do trabalho. Nos últimos anos, a cultura de trabalho tem vindo a penetrar quase todas as facetas das nossas vidas, para que vejamos o trabalho não como uma coisa que fazemos para pagar contas e nos alimentarmos, mas sim um estilo de vida, até uma identidade. “É uma obsessão pelo esforço, por ser implacavelmente positivo, sem humor e, quando dás por isso, é impossível escapar”, escreveu Erin Griffith no New York Times no ano passado. E damos um elevado valor social ao tipo de trabalho que Griffith descreve, ou pelo menos aparentamos dar (o que ela chama de “performative workaholism”): um estudo de 2017 descobriu que quanto mais ocupada uma pessoa parece estar, mais importante parece aos olhos das outras.

“Tendo crescido numa família de classe média alta na área de Nova Iorque, fui educado a valorizar sucesso acima de tudo”, disse-me Ryan Mandelbaum, que se dedicou à observação de aves depois de escrever um artigo para o Washington Post sobre os esforços da conservação das garças em Nova Iorque. “Eu não conseguia decidir o que queria fazer, porque a ideia de desperdiçar tempo ou de não fazer algo de valor stressava-me.”

Essa cultura do trabalho não nos encoraja apenas a ver qualquer paixão ou interesse fora do trabalho como um potencial pequeno negócio ou “trabalho paralelo”, também nos deixa constantemente conscientes de que tempo é dinheiro, disse-me Mandelbaum.

No seu livro de 2019 How to Do Nothing, a autora Jenny Odell explica que, no capitalismo, somos obrigados a pensar nos nossos dias como 24 horas “que podem ser monetizadas”. Tanto para as pessoas em situações económicas menos precárias, como para as que precisam de ter um segundo (ou até terceiro) emprego, essas condições fazem-nos ver “o tempo como uma fonte económica que não nos podemos dar ao luxo de gastar em 'nada'”.

“Hobbies exigem tempo e, dependendo do hobby, dinheiro”, disse-me Odell. “Mas suponhamos que um hobby é gratuito ou acessível para ti e que tens o tempo livre necessário”, Odell continuou. “Ainda assim, pode ser difícil aprenderes a deixar de ver o teu tempo livre como dinheiro - e nesse caso, os hobbies parecem 'caros' se não produzirem nada além de prazer e satisfação pessoal.”

Mesmo para quem rejeita esta mentalidade, pode ser complicado imaginares como queres passar o teu tempo livre. E quando assim é, segundo Odell explica no seu livro, desfrutar do tempo de lazer também exige reclamá-lo da “economia de atenção”, o aparato capitalista que disputa a nossa atenção de formas bem literais, como quando plataformas de redes sociais como o Facebook e o Instagram tentam manter os utilizadores nos seus websites o máximo de tempo possível. Mas o que faríamos se pudéssemos treinar a nossa atenção e redireccioná-la para algo que consideremos mais significativo?

“Pode ser difícil aprenderes a deixar de ver o teu tempo livre como possível dinheiro – e nesse caso, os hobbies parecem 'caros' se não produzirem nada além de prazer e satisfação pessoal.”

“Acho que é preciso começar do zero”, diz-me Seth. O que pode parecer intimidante: encontrar um hobby completamente novo significa aceitar que, seja lá o que se escolher – tocar um instrumento, juntar-se a um grupo de corrida, começar a fazer escalada num ginásio – vamos ser maus nisso durante um tempo, o que pode desanimar pessoas que não digerem bem o facto de não serem boas em alguma coisa logo à partida.

Num artigo de opinião de 2018 na Times, Tim Wu, autor de The Attention Merchants: The Epic Struggle to Get Inside Our Heads, propunha que essa é a “razão mais profunda” para poucas pessoas terem um hobby. “Os nossos 'hobbies', se é que essa é a palavra certa hoje em dia, tornaram-se muito sérios, muito exigentes, uma ocasião para se ficar nervoso e achar que aquilo vai provar que somos quem dizemos que somos”, escreveu. “Se corres, já não é suficiente dar a volta no quarteirão; tens que estar a treinar para a próxima maratona. Se és pintor, já não podes passar apenas uma tarde agradável, só tu, aguarelas e as flores; estás a tentar conseguir uma exposição numa galeria ou, pelo menos, uma quantidade respeitável de seguidores nas redes sociais.”

Mas, segundo especialistas em lazer – sim, isso existe – o desejo de melhorar é parte essencial de ter um hobby. Passatempos como correr ou pintar são qualificados como “prazeres sérios” segundo Robert Stebbins, professor emérito do departamento de sociologia da Universidade de Calgary. Isso não significa que essas atividades precisem ser abordadas com o perfeccionismo que aplicamos no trabalho – aqui, “sério” é simplesmente uma diferenciação de actividades de prazer “casuais”, como sair com amigos, beber num bar ou ver televisão.

Estas categorias são parte de um esquema que Stebbins desenvolveu nos anos 1970 chamado “The Serious Leisure Perspective”, que divide “prazeres sérios” em três categorias: amador, hobby e voluntário. Uma actividade “amadora” é uma que tem uma contrapartida profissional, explicou Stebbins, como pintura, astronomia ou futebol, enquanto hobbies não têm uma contrapartida profissional – dentro do sistema de classificação de Stebbins, hobbies incluem coisas como coleccionar pedras e observar pássaros. Os voluntários podem doar o seu tempo a organizações de caridade, ou a ajudar idosos. Mas coloquialmente, podemos considerar a maioria das actividades que cai sob o guarda-chuva dos “prazeres sérios” como “hobbies”.

Stebbins diz que se não ser bom num hobby logo à partida é muito frustrante para ti, ou que dás por ti a pressionar-te demasiado para ter sucesso nisso, provavelmente esse hobby não é para ti. “Todas essas actividades exigem esforço e perseverança quando as coisas são difíceis, para que a pessoa possa descobrir a satisfação de melhorar”, diz Stebbins. “A coisa principal de qualquer actividade de prazer sério é a pessoa continuar a gostar de a fazer mesmo quando o início é doloroso.”

O hobby certo vai trazer prazer à tua vida e não stress, segundo diz Stebbins. E actividades de prazer “sérias” estão correlacionadas especialmente com alegria e bem-estar: Pessoas com hobbies têm menos probabilidades de terem tensão alta, têm níveis mais baixos de cortisol (hormona de stresse) e níveis mais baixos de depressão, segundo um estudo de 2009.

Mandelbaum diz que observar aves foi o que finalmente o fez “desconectar e sair de casa”. Ele gosta de ser um pouco competitivo na observação de pássaros e tentar melhorar na identificação das espécies e capturá-las em fotos. E isso mudou completamente como Mandelbaum organiza a sua vida: o trabalho já não é o centro da vida, diz-me ele: observar pássaros sim. O trabalho normal é o que torna a observação de aves possível.

“Isso levou-me a fazer um reset aos meus objetivos de vida”, disse. “Em vez de andar em busca de o sucesso, agora só busco coisas de que gosto.”

Depois de falar com Mandelbaum, percebi que eu já tinha actividades que me faziam sentir assim. Enquanto alguns livros que leio podem ser mais prazerosos do que outros, o simples facto de ler dá-me prazer, assim como experimentar uma nova receita ou sentar-me para comer uma deliciosa refeição que eu mesma preparei – são momentos calmos, longe do mundo do trabalho e das obrigações.

Stebbins confirmou-me, apesar das minhas dúvidas iniciais, que essas coisas “contam” como hobbies, especialmente da forma como as faço: ler é, geralmente, uma atividade solitária, mas também discuto livros que gosto com amigos em clubes de leitura e troco recomendações com outros leitores. Tento melhorar nisso, ler mais livros do que no ano anterior, coleciono primeiras edições raras e desafio-me a acabar de ler obras mais longas e complexas.

Claro, não sou totalmente imune aos efeitos do capitalismo: às vezes não consigo deixar de pensar que, se eu largasse o livro e passasse as noites e fins-de-semana a adiantar trabalho, poderia ter mais sucesso no sentido convencional. E ainda estou a aprender a dedicar a minha atenção total às coisas que dão mais sentido à minha vida – às vezes, por força do hábito, entro no Twitter quando sei que preferia terminar um capítulo do romance que estou a ler. Mas vale a pena aprender a tentar resistir a esses impulsos.

“O que torna um hobby tão bom é que tens essa coisa que te faz feliz”, diz-me Mandelbaum. “Quando tudo o resto corre mal, posso sempre correr até ao jardim e ver uma ave cardeal a tomar banho.”


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