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Food by VICE

Namorar com um chef convenceu-me a nunca mais namorar com um chef

Durante quatro meses, as minhas noites consistiram em bebedeiras e orgias culinárias francesas, sacrificadas no altar do vazio intelectual.

Por Juliette Ganadé; Traduzido por Madalena Maltez
28 Maio 2019, 3:42pm

Este artigo foi originalmente publicado no MUNCHIES - Food by VICE.

Se me dissesses na escola que o aprendiz de cozinheiro borbulhoso com quem eu apanhava o autocarro todos os dias se tornaria, 10 anos depois, no macho alfa da vida nocturna parisiense, provavelmente partia-me a rir. Primeiro, porque o meu interesse em comida – já insignificante na época – pouco se desenvolveu durante os meus quatro anos de faculdade, onde sobrevivi exclusivamente à base de Cheetos, tarama e pastéis de bacalhau.

Segundo, porque há 10 anos, a figura do chef francês – como representado na cultura popular – era Maïté, Jean-Pierre Coffe ou Joël Robuchon no programa de culinária Bon Appétit Bien Sûr. A sua promessa: o tipo de culinária cheia de molhos e charcutaria, tão pesada como as piadas porcas que os seus herdeiros contavam a cada manhã no autocarro da escola.

É difícil explicar como é que, no coração das raparigas, os chefs finalmente roubaram o lugar do arquétipo do DJ falido ou dos vendedores da Colette. Terá sido por causa dos programas de Anthony Bourdain? Uma consequência directa da tendência food porn? A inauguração do Septime? A participação de Pierre Sang no Top Chef? Os chefs obtiveram o seu sex appeal de Darwin, ou do génio anónimo por detrás de “Fais-moi une piperade” - uma ode vanguardista ao comer bem e aos prazeres da carne?


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Enquanto escrevo estas palavras, a fantasia do chef divertido, sofisticado e com consciência ecológica continua a ganhar tracção e gerou já um número impressionante de groupies de cozinheiros. Sophie Marceau sucumbiu ao sotaque sensual de um chef francês. Grace Coddington pediu para tirar uma fotografia com David Chang. E R. Kelly canta sobre as delícias de um 69 em cima de um fogão de indução e outras javardices na lendária “In the Kitchen”.

E ali estava eu, durante seis meses, caída de amores por um tipo que fazia umas sanduíches italianas de morrer. Passava na sua loja todos os dias à hora de almoço para o ver a fatiar prosciutto como se fosse um filme porno.

Por volta dessa época, numa noite gelada de Fevereiro, os deuses da gastronomia sorriram-me e fizeram com que o meu chef e eu cruzássemos caminhos à frente de um bar de má reputação. “Queres ver uma coisa engraçada?”, perguntou-me, como uma espécie de apresentação. Arregaçou as mangas da camisa, revelando os antebraços de um viking e uma tatuagem majestosa do brasão da sua família. Reconheci o emblema imediatamente – éramos da mesma região. Um gin tónico, dois Ricards e cinco ou seis doses misteriosas depois, descobri que ele tinha trabalhado numa das cozinhas de maior prestígio da cidade, nunca tinha visto Game of Thrones (apesar de se parecer muito com um dos personagens mais viris da série) e, mais importante, que me queria ver outra vez.

Foi assim que dei por mim no meio de um jogo de rugby, entre um público de gerações diversas de bochechas coradas, sotaques do sul e uma preferência por me chamar de “a miúda” em vez de se tentarem lembrar do meu nome. Rapidamente, fui sugada por um tipo de tornado Rabelaisiano, onde rodavam garrafas de champanhe e vinhos grand cru, enchidos de luxo e infinitas piadas sobre pénis. Juízes de programas de culinária, chefs premiados, os prodígios mais promissores... Diante dos meus olhos estavam os queridinhos da culinária francesa a embebedarem-se, a beberem cerveja em capacetes de moto e a tentar fazer palhaçadas ao estilo Jackass, que só parecem uma boa ideia quando tens oito gramas de álcool no sangue. Fiquei pasmada: a menos de 800 quilómetros da minha terra natal, o País Basco, caí num vórtex temporal e acabei num inferno sem fim de Fêtes de Bayonne.

Durante quatro meses, as minhas noites foram basicamente recriações do filme La Grande Bouffe, com a tendência suicida incluída – mas sem as prostitutas. Era mais ou menos assim: beber, comer, beber de novo, cambalear até ao próximo bar, pedir tudo do menu de tapas, engolir os petiscos em oito minutos, ir cumprimentar os chefs na cozinha de outro estabelecimento, comer mais um pouco, sair de lá com as sobrancelhas chamuscadas, pedir outro champanhe, subir ao balcão de um bistrô e bater no peito. Chegávamos sem avisar a um restaurante lotado, davam-nos a melhor mesa e nem precisávamos de olhar para o menu. O chef recebia os meus novos amigos com uma chicotada de pano de prato e mandava para a mesa dezenas de pratos refinados que, às vezes, nem estavam na lista.

Infelizmente, essa orgia de sabores acontecia num completo vácuo intelectual. As conversas, mesmo que às vezes envoltas em considerações políticas que fediam a ideologia da Frente Nacional (tipo: “Veremos quem é que se vai rir em 2017!”), centravam-se apenas no mundo da comida. Nos quatro meses de namoro, fiquei a saber todas as cuscuvilhices daquele mundo, incluindo a história de um certo magnata do petróleo que reservou dois andares de um palácio em Paris e contratou um chef pessoal para trabalhar na cozinha durante a sua estadia. Paranóico até ao tutano, reza a lenda que só usava produtos importados dos Emirados Árabes – consistindo basicamente de latas de molho bolonhesa Panzani com rótulo em árabe. Uma vez, o cliente pediu que a cozinha ficasse aberta até ele voltar. Como nunca mais voltou, o magnata deu uma gorjeta equivalente a um mês de trabalho aos funcionários que ficaram a noite toda acordados.


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Invariavelmente, acabávamos no clube com “três pistas – três DJs”, o favorito deles, onde o gang cantava “Les Lacs du Connemara” e virava shots de Jägermeister até ao desmaio. É triste dizer, mas, no final de contas, o meu chef e eu nunca conseguimos trocar mais de quatro frases seguidas. Depressa percebi que a comida era o seu principal meio de comunicação. Ralar uma trufa do tamanho de uma bola de ténis em cima do meu ovo frito, encher-me de foie gras até eu passar mal – era a maneira dele de dizer que gostava de mim. O nosso relacionamento era um bacanal bem ensaiado, que ele cancelava sempre que estava muito ressacado.

Na noite em que o vi a cambalear até ao meio da rua e partir o pára-brisas de um carro que lhe tinha buzinado, decidi que estava na hora de bazar. A realidade acabou por alcançar as minhas fantasias – a realidade de um universo alienado, onde os guardiões da excelência gastronómica trabalham em cozinhas premiadas, 12 horas por dia, seis dias por semana e, com isso, sacrificam os seus fígados e boas maneiras para prepararem pratos com sabores subtis que contrastam fortemente com a mesquinhez da sua condição.

E, por isso, agradeço a todos eles do fundo do meu coração.


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