As minas que vivem à caça de peneiras de futebol
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As minas que vivem à caça de peneiras de futebol

Sob sol escaldante, 60 garotas tentam o sonho de ser uma das escolhidas para o recém-formado time feminino do Audax-Unip.
22.2.17

As mãos passam com ansiedade pelos rostos suados, como se fosse possível disfarçar a tensão. Algumas ajeitam os cabelos em coques ou longos rabos de cavalo. Outras, mais reservadas, amarram as chuteiras pelas beiradas do campo. Cada metro quadrado abriga um ritual, uma conversa interna, uma oração.

Perto da uma da tarde, debaixo de escaldantes trinta e um graus em São Paulo, cerca de 60 meninas não escondem o nervosismo de participar da seletiva de futebol que pode mudar suas vidas. Elas sonham em fazer parte do elenco Audax-Unip, uma equipe profissional recém-formada que disputará as duas principais competições de futebol feminino do país, o Brasileiro e o Paulista.

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Pouco antes do início da prova, algumas ainda andam apressadas pelos cantos das pistas. Quase tão difícil como passar pela tal peneira é localizar o campinho de grama sintética do Benfica do Brasil da Vila Maria, na zona norte de São Paulo, escondido entre os diferentes sentidos da caótica Marginal Tietê. A caminhada é longa como a que está por começar lá dentro, na cancha.

Acompanhada de uma amiga, Raquel da Silva, de 17 anos, saiu de Guarulhos e rodou quase duas pela capital até encontrar o campinho. De cabelos crespos bem presos, o tronco forte, ela suspira aliviada ao ver que chegou em cima da hora. "Saí de casa às 11, rodei isso aqui tudinho", conta, esbaforida. "Perguntei para várias pessoas. Vários rolês, mas graças a Deus conseguimos chegar."

Foto: Felipe Larozza/ VICE

No dia anterior, 140 meninas compareceram à seletiva. Trinta foram pré-aprovadas para se juntar ao grupo que passará por uma rígida seleção. De todas, dez serão escolhidas para se integrar às dezoito atletas já contratadas pela parceria entre time e universidade. Treinarão por um tempo, serão observadas e só três ou quatro delas serão transformadas em jogadoras de futebol pra valer.

"As peneiras masculinas e femininas são mais parecidas entre si do que as pessoas podem imaginar", conta Maurício Salgado, responsável pela escolha e que há 22 anos realiza tais seletivas. "A expectativa é exatamente a mesma, pois lidamos com sonhos. Uma das poucas diferenças que observo é que as mulheres são mais autocríticas e acabam aceitando melhor o 'não'."

Foto: Felipe Larozza/ VICE

Vera Godói é uma das poucas mães presentes. Há anos ela não desiste de apoiar o sonho da filha Juliana, de 24 anos, de se tornar profissional. Desde pequena, a garota sempre teve mais afinidade com os meninos do que com as meninas do seu condomínio. O bate-bola surgiu naturalmente. Assim como grande parte das concorrentes, ela participou de várias outras peneiras e se lesionou em outras tantas. "Claro que eu achei estranho no começo a paixão de minha filha pelo futebol, mas depois abracei e apoiei", conta Vera.

Em campo reduzido, sete contra sete, elas têm quinze minutos para mostrar habilidade. Encerrado o primeiro teste, Raquel, a que chegou em cima da hora, sai de campo acenando negativamente com a cabeça. Mesmo depois de lutar e se destacar, ela não se dá por satisfeita . "Elas não passaram a bola e não consegui fazer nenhuma tabela. Já ganhei tantas medalhas na escola, é pelo nervosismo mesmo", diz. O espírito crítico parece alegrar o treinador. Ela é uma das convocadas para segunda etapa. Juliana, por sua vez, não segue na disputa.

Felipe Larozza/ VICE

Nas partidas seguintes, vê-se muitas chuteiras coloridas e pouca preocupação tática. O cenário é bom para quem se destaca no individual. É o caso de Amanda Heindrich, meio-campista rápida e habilidosa. Ao contrário da maioria das garotas presentes, ela não pensa no futebol como forma de mudar de vida. Ela já conta até com experiência internacional. "Jogar futebol é, desde novinha, o meu sonho", conta. "Participei de outras peneiras e depois fui para os Estados Unidos treinar. Foi uma experiência bem legal, mas desisti."

Foto: Felipe Larozza/ VICE

A retomada do sonho de virar jogadora, porém, não dura muito. No primeiro tempo da última fase de seleção, Amanda sofre uma duríssima dividida e sai caminhando com dificuldade. "Depois dessa sou eu que não quero jogar aqui", diz, reclamando sobre a falta de auxílio para a lesão. Em nova desistência, desta vez forçada, a aspirante deixa transparecer que, ao contrário de quase todas as suas concorrentes, não depende do futebol para melhorar de vida. Se em peneiras masculinas costumamos ver um monte de pais com seus filhos, nas femininas eles quase não aparecem. Há apenas dois presentes para apoiar as garotas. Leo Nakata é um deles. Ele está com a filha, que estuda e pratica o esporte em uma escola americana de classe média alta. "Nem sei bem se é um sonho, estou aqui mais pela experiência, mas me imagino no futuro trabalhando com algo relacionado ao esporte", conta a menina, que parece não se importar com o resultado da experiência. "Vamos ver onde ela chegará", comenta o pai.

Foto: Felipe Larozza/ VICE

Passadas três da tarde, vinte e duas jogadoras são selecionadas para o jogo final, realizado em campo inteiro. Na ponta esquerda do time vermelho, uma atleta enche os olhos dos selecionadores. Baixa, porém técnica e aguerrida, ela comanda todas as jogadas por seus pés. Aprovada, pede que seu nome não seja revelado pela reportagem. Rodando e participando por peneiras pelo Brasil, foi contratada por um time de Pernambuco por um salário de 600 reais. Veio para o teste em São Paulo porque não gostaria de ficar longe da mãe, moradora da capital. "Se for contratada fico por aqui", disse.

A maioria das garotas, porém, não tem a mesma sorte. Um dos destaques da primeira seletiva, a aguerrida Raquel não foi para o jogo final. Saía de campo cabisbaixa, com um sorriso triste. "Deus é quem sabe", falou, antes de deixar o local da peneira. Algumas que não passavam no teste ficavam no local para acompanhar como espectadoras até o fim. Miriã Nascimento, de 17 anos, era uma delas.  Tímida, mal consegue levantar os olhos verdes para contar que o pai fora jogador de várzea e ela o acompanhava desde os cinco anos. Hoje é a filha quem corre atrás da bola nos campinhos periféricos de Jundiaí.

Foto: Felipe Larozza/ VICE

Não faz muito tempo, Miriã teve que ficar um ano sem jogar depois de uma lesão. Ainda assim, entre pernas machucadas e insucessos nas peneiras, segue em busca do sonho. "Estamos aí novamente, tentando", diz, reticente. Ao lado dela, com um uniforme falsificado da seleção brasileira, Emily Gomes fala com mais naturalidade sobre a realidade das meninas no futebol. Em especial as mais velhas, que passam a infância batendo bola no meio de marmanjos. "Aí vêm as brincadeiras, te chamam de 'sapatão' para baixo. Nunca me importei."

Por ironia ou não, hoje o objetivo das pessoas que lutam por mais visibilidade para o futebol feminino é desconstruir a automática comparação com a modalidade masculina. A defesa delas é que é preciso entender as diferenças culturais e históricas, como as proibições de mulheres praticarem o futebol na década de 40, os menores investimentos, as escassas oportunidades e, claro, o machismo. Ainda assim, no meio desse abismo, o início de carreira de boleiros e boleiras não estão tão distantes quanto parecem.

Foto: Felipe Larozza/ VICE

As meninas contratadas pelo Audax-Unip, por exemplo, ganharão salário mensal aproximado de 1.500 reais e uma bolsa de estudos. Segundo o Bom Senso Futebol Clube, 82% dos jogadores masculinos não recebem mais de 1 mil reais por mês. A distância está mesmo entre as estrelas, já que na prática é impossível uma atleta feminina ter a mesma condição financeira de um jogador de grande clube. Basta comparar as rendas de Marta e Neymar.

Maurício, o selecionador, afirma que as diferenças devem continuar grandes, mas o cenário parece ter melhorado nos últimos anos."As coisas mudaram tanto que até a figura do empresário já surge no mundo do futebol feminino. Já recebemos ligações e indicações de meninas", conta.

Foto: Felipe Larozza/ VICE

Acompanhando a seletiva, a goleira Viviane Domingues, de 27 anos, conta que participou de sua primeira peneira em 2005, no Juventus. "Foi lá que se formaram várias atletas, inclusive que passaram por seleção brasileira, como eu", diz. Ao observar as jovens que lutavam por espaço, diz sentir um misto de tristeza e felicidade. "Muita coisa está melhorando, mas são poucos os clubes que acolhem as meninas. Lamento pelo desenvolvimento das jogadoras que quase sempre é tardio", diz. Sua principal queixa é a falta de categoria de base. "As de 15 anos jogam bola nas escolas, mas não se desenvolvem tecnicamente." Ao final de todo o processo, a expressão do rosto de Emily é a lembrança que fica. Mostrando força e segurança durante todo tempo, sai cabisbaixa, escondendo os olhos lacrimejados. Acompanha todos os testes até o final. Pouco tempo depois, pedimos um retrato. Ela abre o sorriso tímido e diz: "Ainda vou vestir a camisa do Brasil". Em futuras peneiras, a luta vai continuar.

Foto: Felipe Larozza/ VICE