Fotografando a cena de skate de Tel Aviv com mísseis passando por cima da sua cabeça
Todas as fotos por Guy Pitchon.

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Fotografando a cena de skate de Tel Aviv com mísseis passando por cima da sua cabeça

Não é só skate que Guy Pitchon captura, mas tudo que acontece quando alguém diz “Vamos andar de skate”.
23.4.15

Quando me pediram para entrevistar o fotógrafo Guy Pitchon, que vive em Tel Aviv, fiquei intrigado porque não conhecia nada da cena do skate da cidade. Mas depois de ver o site dele, fiquei doido para papear com um colega nerd de fotografia. Quando não está fazendo design gráfico ou tatuando os amigos, Guy faz fotos tecnicamente incríveis da comunidade skatista de Tel Aviv ou retratos íntimos depois das sessões. Não é só skate que Pitchon captura, mas tudo que acontece quando alguém diz "Vamos andar de skate". Conversei com Pitchon via Skype para saber mais sobre seu novo livro, Love Child, repleto de momentos belos e sinceros de seu ambiente cotidiano.

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VICE: Onde você está agora?
Guy Pitchon: Estou em Tel Aviv. Acabei de chegar em casa, fui à praia hoje.

Legal, queria poder dizer o mesmo. O que te mantém em Tel Aviv?
Cara, gosto muito daqui. Gosto da comida, das pessoas, da minha família, do fato da cidade ser pequena e você poder circular por onde quiser. Pode ser complicado não ter um trabalho mainstream, por isso vendo meus trabalhos de arte, faço design gráfico, grafito, tatuo, dou aulas de fotografia, etc. É difícil ser um fotógrafo de skate em tempo integral aqui porque, por exemplo, fotografo para a Vans aqui, mas isso nem se compara ao cara fotografando para a Vans na Califórnia. Trabalho com o que tenho.

Como Love Child surgiu?
Love Child começou como uma exposição. Dois anos atrás eu ainda era novo na cena de arte e tive dificuldade de achar uma galeria. As galerias com que falei queriam que eu fosse mais específico com o que ia exibir. Eu tinha tudo na cabeça, mas não tinha terminado o trabalho ainda. Finalmente, uma galeria me deu uma chance sem fazer muitas perguntas – a galeria parte da escola onde estudei. O espaço era bem grande, então preenchi isso com impressões em pequena e grande escala, e também com skates artesanais.

O livro foi autopublicado?
Sim, com uma pequena ajuda dessa residência da qual fiz parte em Israel, a Art Port. Fora o orçamento, eles me deram tudo que precisei e todas as decisões foram tomadas por mim.

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Qual imagem de Love Child você considera sua favorita?
Tenho favoritas. A foto do garoto mostrando a tatuagem no braço. A tatuagem é a fórmula do LSD ou alguma coisa assim. [Risos] A outra e esse skatista escalando um abrigo antibomba.

O que veio primeiro, a fotografia ou o skate?
Com certeza o skate. Comecei a andar de skate com meu irmão quando tinha 12 anos, com um shape que ganhei do meu avô. Eu ficava andando de skate em volta do quarteirão o dia inteiro. Acho que me apaixonei por isso desde o primeiro momento. Nunca pensei muito em fotografia até ser exposto a algumas revistas. Depois disso eu quis fotografar o skate e comprei uma câmera simples – foi um processo bem longo, eu não tinha com quem aprender e tive que fazer tudo sozinho, sabe? Com várias lentes, câmeras, iluminação… Por exemplo, por muito tempo você não achava disparadores remotos de flash em Israel, porque eles usam a mesma frequência de rádio que o exército. Mas hoje você já consegue comprar isso aqui.

Você trabalha com estilo de vida e skate, qual dos dois você prefere?
Não sei. Estilo de vida é tecnicamente mais fácil – é legal ficar perto do tema e poder usar uma câmera simples com lentes 50 mm. Para ação, você precisa lidar com muito equipamentos, guardas da segurança dos lugares e com os picos em si, então é mais difícil, mas também mais emocionante. Acho que não conseguiria fazer só o estilo de vida. As fotos de estilo de vida geralmente são tiradas quando saio para fazer fotos de skate, então consigo apreciar as duas coisas.

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Como é o skate em Israel e qual a visão do público em geral?
É incrível, cara! [Tel Aviv é] uma cidade pequena onde você pode ir de skate para qualquer lugar que quiser. Seguranças ou pedestres podem encher o saco, mas a polícia não se importa muito, então é muito raro levar alguma multa. Além disso, há vários picos legais para andar de skate, lugares muito fotogênicos. Da perspectiva do público, acho que o esporte é apreciado hoje em dia. Recentemente, um monte de skateparks estão aparecendo em todo lugar, então menos skatistas estão andando nas ruas, o que acho que as pessoas preferem porque é menos barulho e mais fácil de aceitar.

Você pode falar mais sobre a cena de skate no resto de Israel e no Oriente Médio, onde turbulências políticas e sociais estão acontecendo? Viver nesse ambiente afetou a cena de alguma maneira?
Bom, a política afeta a cena, mas mais no sentido "macro", tipo, é mais difícil viajar com um passaporte israelense, você pode ter o visto negado se não for seguro para as pessoas visitarem, então isso pode nos isolar, o que é ruim. Mas no sentido "micro", a política é menos presente na cena do skate. Mas o mundo da arte é bastante afetado – boicotes culturais, bandas e artistas que não vêm para cá, artistas israelenses são menos convidados para expor no exterior, etc.

Isso já te afetou alguma vez?
Sim, ano passado em Tel Aviv, na noite de abertura da exposição na qual trabalhei por um ano, havia sirenes e mísseis passando por cima das nossas cabeças. Pouca gente compareceu. Eu tinha esquecido isso totalmente até agora. É estranho como isso se torna normal e você se acostuma. Quanto ao skate, acho que isso não me afeta, mas podia ser uma desculpa para eu andar tão mal. [Risos]

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Que fotógrafos te inspiram?
Adoro tudo que o Ed Templeton já fez, e Larry Clark. Mais recentemente, tenho gostado muito do trabalho de Atiba Jefferson e das coisas que o Arto Saari tem lançado. Esses são os principais nomes que me vêm à cabeça. Mas há muitos outros, claro.

Qual seu processo para fotografar?
Varia, mas gosto de encontrar picos aleatórios e imaginar que skatista e que manobra ficariam bem ali. Picos diferentes pedem skatistas diferentes, claro. Aí, com uma pequena equipe, volto ao lugar à noite. Gosto de fotografar à noite porque isso é como uma tela em branco, só o que você escolhe iluminar aparece na foto.

Você já fotografou algum skatista canadense?
Sim. Você conhece Josh Evin?

Sim. Bom, não pessoalmente, mas ouvi falar.
Certo, ele esteve em Israel algumas semanas antes do seu trágico acidente e fiz algumas fotos dele. Andar de skate com ele era divertido, ele era muito louco. Uma das fotos que tirei foi publicada numa revista de skate canadense. Fiquei muito triste quando soube que ele morreu.

Sim, foi triste. Ele tinha muito talento. O que você vai fazer agora?
Vou para o Panamá pela primeira vez daqui três dias, para surfar. Estou muito empolgado! Nunca surfei muito. Fiz fotos de um acampamento de surfe ano passado e durante esse trabalho aprendi a surfar, gostei muito. Estou ficando velho e o skate começa a forçar muito o corpo. O surfe parece um pouco menos desgastante, então espero poder preencher essa lacuna.

Compre o livro do Guy, Love Child, aqui e conheça mais do seu trabalho no site dele.

Tradução: Marina Schnoor