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Michel: Bom, quando eu tinha 15 anos, fui chutado de sete escolas. Eu devia ter TDAH ou algo assim, porque odiava a escola e estava sempre procurando alguma coisa pra começar por conta própria. Então passei a exportar casacos hippies baratos de Istambul. Eram basicamente couro de ovelha virado do avesso com mangas. Comecei a vendê-los nesse bar de haxixe na Holanda. Eles venderam pra caralho. Assim sendo, eu viajava muito entre Istambul e Holanda. Os negócios iam bem e eventualmente fui abordado em Istambul por um cara chamado E.
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Ícones Fabergé. Muitas e muitas caixas disso. Vi as caixas sendo carregadas no avião enquanto estava dentro dele, quase sem acreditar que aquilo estava acontecendo. Você vê sua bagagem entrando no avião seguida de três caixas enormes cheias de arte roubada.
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É um título muito pretensioso, mas sim, eu fui um grande contrabandista. Eu era muito ambicioso. Tudo começou a ficar sério quando fui pra Rússia, depois de Beirute. Na Rússia, os contrabandistas de arte trabalhavam todos juntos, assim conseguiam ter tentáculos em muitos países diferentes. Então, se você estivesse “dentro do jogo”, fosse uma perspectiva promissora como eu era e tivesse contato com um dos clãs, você tinha contato com todos eles. Fui envolvido inteiramente porque conhecia todas as pessoas e podia entrar em contato direto com elas. Conseguia ir a países atrás da cortina de ferro. Estava lidando com VIPs. Não pense que isso era uma organização vagabunda — estávamos lidando com pessoas do alto escalão político. Tudo o que você precisava fazer era se certificar de que todo mundo recebesse sua parte.Lembro de um jantar com esses VIPs russos em que havia uma prostituta embaixo da mesa. Você tinha que tentar manter uma cara séria enquanto ela engatinhava por toda parte fazendo boquetes. Quem não conseguisse ficar sério tinha que pagar a conta. [Risos]Também aprendi a beber na Rússia, porque se você não bebe com eles, eles não confiam em você. Então aprendi a negociar mesmo estando assim [coloca a mão em cima de um dos olhos pra mostrar como estava bêbado]. Realmente aprendi todo o básico lá. Os russos são muito educados. Me diverti muito, o que me fez esquecer que aquilo era minha universidade. Foi quando aprendi sobre grandes contrabandos. Havia um mercado negro e me tornei uma saída que tinha a possibilidade de negociar de tudo no Ocidente.
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Bom, você podia plantar coisas em leilões. Eu tinha uma galeria e compradores direto no mercado, pra quem podia trabalhar como intermediário. Os lucros eram tremendos.Os compradores tinham consciência de que estavam lidando com arte contrabandeada?
Ah sim! Olha, não sou um teórico da conspiração, mas o mercado de arte é uma indústria de bilhões de dólares. Se isso [contrabando] não for tolerado em certos níveis, os bancos nunca vão atingir seus picos. Tinha pessoas na minha lista de pagamento na alfândega… Quase não era necessário contrabandear, você podia trazer tudo quase que oficialmente desde que pagasse a pessoa certa.Qual foi a obra mais cara que você já contrabandeou?
Não vou te enganar. Um único carregamento da Rússia ficava entre um e três milhões, o que nos anos 60 era muito dinheiro. E eram viagens regulares — duas vezes ao mês. Estava chovendo dinheiro, então fiz minha base em Beirute. Do ponto de vista financeiro, Beirute era um mercado bancário livre, então era possível trocar um milhão de dólares de maneira completamente aberta e ninguém fazia nenhuma pergunta. Claro, eu tinha que brincar de gato e rato com a Interpol.E como você conseguiu escapar deles tantas vezes?
Você precisa estar sempre um passo à frente deles. Era possível subornar a maioria, mas alguns não aceitavam isso. Eu era arrogante, me mostrava na cara deles às vezes. Era idiotice, mas eu via as notícias sobre os meus contrabandos nos jornais e gostava daquilo, isso mostrava como eu podia fazer qualquer coisa mesmo com eles atrás de mim. Eu também viajava com passaportes falsos e mudava minha aparência. Mudava a cor dos olhos de azuis pra castanhos com lentes de contato, pintava meu cabelo de loiro… Todos esses truques bregas. Eles funcionavam naquela época.
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Bom, eu estava fugindo e acabei preso na minha vila em Marbella. Conhecia um dos chefões da máfia italiana que também tinha uma vila lá. Éramos grandes amigos. Então, depois de dez minutos de prisão, o conselheiro dele ligou no meu celular. Ele disse: “Felice não pôde vir, mas te mandou lembranças”, então fui mandado pra Madri onde jantei com um membro muito importante da polícia. Ele arranjou tudo pra que eu fosse pra cadeia lá ao invés de ser extraditado pra França, onde eles realmente estavam atrás de mim. Passei bons tempos na cadeia [em Madri]. Eu tinha a garantia de sair em um ano e comprei um celular de um dos garotos do ETA de lá. Foi como no filme Os Bons Companheiros. Tinha minha própria cozinha, meu próprio chuveiro e todo dia subornava um dos guardas pra ir ao mercado — era fantástico.Parece uma curtição mesmo.
Foi, mas as coisas mudaram quando fui pro Planalto de Jos na Nigéria. Lá vi aquelas fantásticas cabeças de terracota dos Nok que eles enterram nos túmulos dos antepassados. Eram peças com potencial de milhões de dólares e eu estava lá pra comprá-las. Mas acabei conhecendo as pessoas de lá — faz muito frio no Planalto de Jos à noite, então sentávamos todos juntos ao redor do fogo —, e eles não tinham quase nada pra comer, mas ainda assim ficavam ali a noite toda pra proteger a cultura de seus ancestrais dos abutres que vinham pra cavar, roubar e matar. Isso tocou meu coração. Você não consegue lidar com essas coisas. Você não quer que as pessoas morram por causa da arte. Era tudo apenas um jogo, mas aí eu estava no topo daquela colina e, de repente, me confrontei com a realidade. Se isso não te mudar, você não é um ser humano.
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Sempre encaro meus problemas. Você tem que mostrar que tem colhões. Curiosamente, muitos desses assassinos, se são pessoas certas mesmo, chegam até você com certo respeito, se você não se esconder. Quando a máfia iugoslava ia sequestrar o meu pai e meu irmão por eu ter ajudado uma operação policial contra eles, tive que voltar pra Amsterdã e encarar isso. Eu disse: “OK, pode vir. Se vocês vão me matar, me matem. Se vocês querem meu dinheiro, vão se foder.” Essa é a língua que eles falam. Estava com os meus seguranças num terraço em Amsterdã e um carro passou e começou a atirar em mim. Uma bala passou direto pela minha perna.
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Só um arranhão. [Risos]Pra ser honesto, fico surpreso de você ainda estar vivo.
Olha, fui baleado em três ocasiões diferentes, já apontaram armas pra minha cabeça, a polícia já me perseguiu… Pra sobreviver, eu tenho sido um camaleão. Falo muitas línguas. E também não sou apegado a nada. É como viver numa falha geológica — se você ouvir um barulho, pegue suas coisas e dê o fora dali. Não se acostume com nada. Posso dormir como um bebê numa cama improvisada no mato.Um filme sobre a vida do Michel, escrito e dirigido pelo especialista em subculturas King Adz e coproduzido pelo ex-agente da CIA Bob Baer, está em processo de produção. Chamado The Iconoclast, o filme vai ser como o Gomorra só que ambientado no Louvre, com o Tom Hardy barbudo no papel de Michel Van Rijn (pelo menos é o que estão dizendo).Mais histórias sobre gente foda?O (Ex) Maior Traficante de Heroína do Mundo InteiroRule Britannia: Fraude