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Saúde

Há 34 anos que o governo dos EUA envia 300 charros por mês a este homem

A saga de Irvin Rosenfeld, que conquistou o direito a tratar a sua doença com a ajuda de erva medicinal.

Por Daniel Oberhaus
03 Outubro 2016, 9:00am

Irvin Rosenfeld a fumar um charro. Imagem cortesia Irvin Rosenfeld.


Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Calculando assim por alto, Irvin Rosenfeld já terá fumado umas 135 mil ganzas desde 1982. Aproximadamente 10 por dia, todos os dias, há 34 anos. Apesar deste hábito, que provavelmente faria mossa até a Snoop Dogg, este habitante da Flórida, de 63 anos, tem uma vida bastante normal. É corrector sénior de uma grande empresa imobiliária, passa os sábados a trabalhar como voluntário com crianças e adultos deficientes e lida da melhor maneira possível com uma doença óssea rara chamada exostose cartilaginosa múltipla congénita.

Quando liguei para o escritório de Rosenfeld, ele tinha acabado de fumar um dos 300 charros já preparados que o governo dos Estados Unidos da América lhe envia todos os meses, enquanto paciente do programa Investigational New Drug (IND) da FDA. O material fornecido pelo governo a Rosenfeld é de baixa potência - cerca de quatro por cento de THC - e não o deixa mocado. Essa escolha, diz, não foi dele. Desde que experimentou marijuana pela primeira vez no começo dos anos 70, é incapaz de ficar mocado, devido a uma anormalidade nos receptores de canábis do seu cérebro. Mas ainda assim a erva alivia a sua dor crónica e, segundo ele, é a única razão para ainda estar vivo.


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Quando, aos 10 anos, Rosenfeld foi diagnosticado, os médicos depararam-se com mais de 200 tumores a cobrirem os seus ossos. Esses tumores deveriam multiplicar-se e crescer e, enquanto isso, Rosenfeld teria que lidar com as lascas ósseas dolorosas que a doença causa. No melhor dos casos, Rosenfeld teria uma vida de dor incessante pela frente, com que poderia lidar através de pesadas doses de analgésicos. No pior dos casos, os tumores iriam proliferar, iriam tornar-se malignos e iriam matá-lo.

Com esta perspectiva de vida nada risonha, Rosenfeld foi para a faculdade em 1971. Até àquela altura nunca tinha experimentado erva - com todos os narcóticos receitados que tinha à disposição, não via razão para acrescentar uma droga ilegal à mistura. Mas acabou por ceder à pressão dos colegas e começou a fumar socialmente.

Por volta da décima vez que fumou um charro, Rosenfeld notou algo impressionante: estava sentado a jogar xadrez com um amigo há quase meia hora e não sentia qualquer dor. Antes, nem sequer conseguia permanecer numa mesma posição por mais de 10 minutos sem sentir dor. E naquele momento não tinha tomado nenhum analgésico. "Foi quando percebi que esta droga ilegal chamada marijuana era o único remédio que me proporcionava tal efeito", salienta Rosenfeld.

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Rosenfeld a mostrar os seus charros no Congresso americano em 2005. Foto cortesia de Rosenfeld.

Rosenfeld largou a universidade em 1972 e fez uma petição ao governo federal para ter direito a fumar erva medicinal, mas os seus apelos não eram ouvidos. Foi então que, em 1977, Rosenfeld conheceu Robert Randall, que tinha conseguido autorização governamental para usar erva medicinal um ano antes. Randall foi diagnosticado com glaucoma aos 20 anos e os médicos garantiram que ficaria cego até os 30. Mas, um dia, depois de fumar um charro, percebeu que a canábis melhorava os pontos pretos da sua visão.

"Ele ligou as duas coisas imediatamente", conta Alice O'Leary, viúva de Randall e sua parceira no activismo pela legalização da erva. "Primeiro achou que era bom demais para ser verdade, mas, depois de muita tentativa e erro, provou a si mesmo que era verdade. Portanto, tornou-se parte da nossa rotina procurar erva". E, claro, era algo ilegal. Em 1975, Randall e O'Leary foram presos por cultivarem cinco pés de canábis na varanda de casa em Washington DC, a oito quarteirões do capitólio. Eles poderiam facilmente ter pago a multa e encerrado o assunto, mas decidiram levar o governo federal a tribunal, com base na necessidade médica.

E, por acaso, um estudo da UCLA sobre o efeito da erva na pressão intra-ocular estava em fase de conclusão. Randall tornou-se então um dos participantes do estudo e conseguiu mostrar que a marijuana ajudava mesmo a aliviar o seu glaucoma e poderia até impedir ou retardar a cegueira, mesmo que apenas por alguns anos. Com esses dados, o juiz do caso de Randall retirou as acusações contra ele e O'Leary.

"Robert Randall tornou-se o primeiro paciente a usar erva medicinal nos EUA desde que o governo proibiu a marijuana em 1937".

Randall abordou a Food and Drugs Administration (FDA) e o Instituto Nacional de Vício em Drogas (NIDA), as duas agências responsáveis por supervisionarem a investigação federal sobre a erva nos EUA e fez uma petição para ter acesso às plantações de canábis dessas organizações para tratar o glaucoma.

"Aquela petição foi uma surpresa para as agências federais", recorda O'Leary. "A erva medicinal não estava no radar naquela época e, de repente, aparece aquele indivíduo a pedir para ter acesso ao fornecimento do governo. E a reação deles foi de grande compaixão. Acabaram por lhe garantir esse direito". Randall tornou-se o primeiro paciente a usar erva medicinal nos EUA desde que o governo proibiu a marijuana em 1937. E, com isso, o programa Investigational New Drug nasceu.

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Robert Randall com o seu primeiro pacote de erva federal em Novembro de 1976. Imagem cortesia de Alice O'Leary.

Quando Rosenfeld conheceu Randall na Virgínia alguns meses depois, explicou-lhe como a FDA estava a bloquear os seus pedidos de acesso à erva medicinal. Randall e O'Leary ofereceram ajuda. Juntos, estabeleceram o protocolo IND para Rosenfeld, e, em 1982, ele tornou-se o segundo paciente do programa.

Durante os anos 80, o IND continuou a crescer, expandindo o acesso para pacientes com HIV e tipos raros de cancro. Mas, em 1992, a administração Bush fechou o programa e apenas 13 pacientes continuaram a receber os benefícios. Rosenfeld foi um desses 13. A cada cinco meses ele recebe seis latas com 300 charros já enrolados. A marijuana, cultivada na Universidade do Mississippi, abastece todo o fornecimento de erva federal norte-americano.

Depois de colhidas no Mississippi, plantas de canábis inteiras são enviadas para Releigh, Carolina do Norte, onde os cabeços são colocados numa máquina de cigarros. Esses cigarros são congelados a seco, colocados em latas e armazenados num frigorifico por tempo indefinido. Rosenfeld diz que os charros que está a fumar este ano foram enrolados e congelados em 2009. "Se estivesses a falar com um especialista que o que quer é apanhar uma boa moca, provavelmente ele ficaria desapontado com a qualidade da canábis", assegura Rosenfeld. E acrescenta: "Eu procuro o aspecto medicinal e aquilo que me enviam já é suficiente".

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Os pacientes do IND Elvy Musikka, Irvin Rosenfeld e Robert Randall com Mae Nutt, uma activista da legalização da marijuana. Imagem cortesia de Irvin Rosenfeld.

A cada dois anos, Rosenfeld e os outros pacientes preenchem obrigatoriamente relatórios de progresso com os seus médicos para o programa, mas, por incrível que pareça, esses relatórios nunca foram usados para investigar os efeitos de longo prazo do uso de erva. No entanto, um estudo independente com os pacientes do IND levado a cabo por um médico chamado Ethan Russo, descobriu que essas pessoas estavam tão saudáveis quanto se podia esperar, tendo em conta as suas doenças.

Por outras palavras, fumar centenas de cigarros de erva por mês não tinha nenhum efeito negativo aparente na saúde dos pacientes. Na verdade, em alguns casos, a marijuana melhorava drasticamente a sua qualidade de vida. Randall, por exemplo, continuou com visão até à sua morte aos 53 anos, apesar de os médicos terem dito que ele estaria cego aos 30. Os médicos também tinham dito a Rosenfeld que os seus tumores provavelmente iriam crescer e multiplicarem-se — mas, desde que começou a usar erva, não houve mais crescimento ou multiplicação.

Muitos daqueles que não conseguiram entrar no programa do IND continuaram a trabalhar para legalizar a erva nos seus estados, incluindo a aprovação da Proposta 215 na Califórnia, que em 1996 foi o primeiro estado norte-americano a legalizar o uso medicinal de canábis. Hoje, 25 estados dos EUA e Washington têm leis similares e, em Novembro próximo, pelo menos nove outros estados irão votar a legalização da para uso recreativo e/ou medicinal.

Ainda assim, Rosenfeld e O'Leary são os primeiros a reconhecer que a luta está longe de acabar. "Em 1982, Bob Randall e eu fizemos um pacto. Prometemos contar ao mundo inteiro os benefícios da erva medicinal. Esse era o nosso objectivo, mas ainda não o conseguimos concretizar a um nível global. É frustrante ouvir os federais insistirem que não há benefício medicinal na canábis, porque sabemos que há. Somos a prova viva de que a erva funciona", conclui Rosenfeld.


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