FYI.

This story is over 5 years old.

Noticias

O que o vídeo da viatura de polícia arrebentada por manifestantes nos ensina sobre a França

Vai pensando que é só no Brasil que a coisa tá tensa.

Captura de tela do famoso vídeo polêmico

Da manifestação "contra o ódio anti-polícia", organizada na quarta-feira, 18 de maio pela Alliance, o sindicado policial de direita, fica apenas uma imagem: a de uma viatura incendiada ao largo da reunião de jovens contra-manifestantes.

O incidente, ocorrido no contexto da mobilização francesa contra a Lei do Trabalho, é só mais um entre muitos outros. Desde o começo do movimento, são raras as manifestações que não terminaram em confronto com a polícia. Muitas delegacias foram atacadas, especialmente em Paris e Rennes. Desde março, ocorreram por volta de 1.300 interpelações e "51 pessoas foram presas em flagrante e condenadas frequentemente a penas pesadas", de acordo com Bernard Cazeneuve, ministro do Interior.

Publicidade

Diante desse evento, nós nos perguntamos se cercar polícia e tocar fogo em viatura seria algo tão escandaloso quanto nos dizem os discursos ou se, ao contrário, a ira desses jovens com muitos diplomas e sem grana seria algo bem compreensível.

OK, NÃO É LEGAL BATER NOS TIRAS

Pode-se dizer o que quiser sobre a onipresença da polícia na França, sobre as denúncias de agressão contra manifestantes mais ou menos pacíficos ou sobre o fato comprovado de que os policiais votam maciçamente pelo Front National. Se a grande maioria da população francesa tem uma opinião positiva sobre eles, deve haver uma razão. Imagino que os imbecis que atacam dois caras que deram o azar de simplesmente estar na área só ajudam a reforçar essa simpatia – evidenciando a covardia de alguns manifestantes, em contraste com o sangue frio dos canas que se contentaram apenas em se esquivar dos golpes.

ÀS VEZES, TENDO EM VISTA AS CIRCUNSTÂNCIAS, É BOM DESCONFIAR DOS CANAS

Desde o começo do movimento Nuit Debut (Noite em Pé) na Place de la République, em Paris, no dia 31 de março, um número importante – embora difícil de precisar – de jovens irritados levou porrada das forças policiais. No Facebook nem dá mais pra contar as imagens de hematomas e ferimentos publicadas pelas vítimas depois dos espancamentos, como essa jovem estudante da escola de Belas Artes, que apanhou feio nas pernas. Os motivos variam de acordo com os casos, mas de modo geral a polícia arrebenta os jovens só por manifestarem seu descontentamento com o governo Hollande/Valls. Tá, e também porque eles xingavam os policiais, o que não é lá nenhum abuso em um país aberto como a França. Violência gera violência, ainda mais em um país tão engajado politicamente. É normal que essa molecada fique com raiva de seus agressores – e aproveite para usar qualquer coisa à disposição para arrebentar com uma de suas viaturas.

Publicidade

Uma viatura queima ao largo da manifestação "contra o ódio anti-polícia". Foto via VICE News.

UMA CERTA POLÍCIA É O BRAÇO ARMADO DAQUELA DIREITA MAIS À DIREITA

No meio de um bando de policiais que não dão a mínima para a política, algumas caras conhecidas, membros da Alliance, tocavam a organização de quarta-feira. Situado muito à direita, esse sindicato não perde uma oportunidade de denunciar o laxismo das reformas promovidas pela esquerda desde a chegada de François Hollande à Presidência em 2012. A presença muito midiatizada de Marion Maréchal-Le Pen, Gilbert Collard ou ainda Eric Ciotti na Place de la République diz muito sobre as relações do sindicato com as figuras mais à direita do tabuleiro político francês – relações que legitimam, para alguns, a fórmula policiais = fascistas.

ESTE CLIMA DE ÓDIO É ALIMENTADO PELO GOVERNO FRANCÊS

OK, sempre se pode acusar alguns policiais de brincar com fogo quando frequentam os caras mais atrasados do sistema político francês. Só que, há várias semanas, todo mundo concorda com uma coisa: são as decisões vindas de cima que ajudam a estragar a situação. Como declarou um policial ao periódico JDD, eles são hoje "peões políticos", que devem se dobrar a ordens absurdas que põem manifestantes e policiais em risco. Depois de ter contribuído para azedar o clima do país com o projeto de Lei do Trabalho, o governo – particularmente Manuel Valls e Bernard Cazeneuve – vai pagar caro se um dia alguém morrer durante uma manifestação.

OS COMENTÁRIOS SOBRE O VÍDEO DÃO UM BELO RETRATO-FALADO DO FRANCÊS ATUAL

Ninguém se surpreende com a leitura dos diversos comentários mais ou menos "de direita" que apareceram depois do vídeo postado pelo usuário Fans Style no Facebook. O teor é igual ao de todos os outros comentários deixados por todos os outros usuários em todas as plataformas desde o comecinho da história da Internet. São partidários, agressivos, de muita má-fé e, frequentemente, estúpidos. O que responder a um rematado babaca, como esse homem que escreve descaradamente: "se eu fosse polícia, não conseguiria me controlar… ser xingado e maltratado por uns merdinhas desempregados?", com 877 curtidas? Nada. Uma coisa, no entanto, surpreende: o fato de que pouquíssimas vozes mais moderadas falem mais alto que todos esses palermas. Todo mundo concorda: esses "cachorros" não atacaram os policiais no dia 13 de novembro passado nem depois dos atentados contra o Charlie Hebdo; é "só na França que se vê isso" ou ainda, "nos Estados Unidos, os policiais já teriam atirado e sossegado todo mundo". Aí a gente lembra dos resultados das últimas eleições regionais em dezembro último: os candidatos de direita francesa tiveram 40% dos votos, e os de extrema-direita quase 27%, o que faz com que atualmente 67% dos eleitores sejam de direita. Comentários como aqueles são a imagem desses resultados e do que é a França em 2016: tristes.