Há alguns anos, quando alguém pensava em ser músico, os lugares de vocalista e de guitarrista eram, quase sempre, os mais desejados. Talvez por representarem posições de maior relevo em bandas clássicas (assim de repente, lembramo-nos dos Beatles e Rolling Stones), estes lugares eram, invariavelmente, preferíveis aos de baterista, baixista e teclista.
Ikutaro Kakehashi, inventor dos sintetizadores Roland, mudou o cenário ao criar um vasto número de teclados electrónicos que mexeram - e de que maneira - na forma como vemos a música. Por este motivo, escolhemos 18 faixas para uma playlist em tributo ao japonês, falecido no início de Abril.
Uma lista em que as mulheres estão muito bem representadas (e não é por nenhuma admiração particular pela Associação Capazes), há romantismo e sensualidade a rodos, muito pezinho de dança, uma ou outra dúvida existencial e diversos "monstros sagrados". Depeche Mode, Pink Floyd e Jean Michel Jarre não foram convocados, mas mereciam. By the way, não é obrigatório o uso da marca Roland - para isso, se calhar, vais querer espreitar aqui.
Vê também: "Um pezinho de dança em Tóquio"

DONNA SUMMER – "I Feel Love" (1977)
Juntar a voz sensual de Donna à mestria do compositor Giorgio Moroder, só podia dar uma mistura explosiva. Mistura que marcou o disco sound e tudo o que girou à sua volta. Bela maneira de começar este tributo.
BLONDIE – "Heart of Glass" (1978)
Quem concorda com a letra de Gabriel O Pensador sobre loiras, deve seguir imediatamente para a próxima canção. Nesta actuação ao vivo, antes do segundo minuto, Debbie Harry (com um outfit estranho e generoso) faz uma curta declaração política sobre o abuso do poder nuclear. Curioso. Ela era uma autêntica sex bomb.
EURYTHMICS – "Love is a Stranger" (1982)
O filme que deu o Óscar de "Melhor Argumento Original" a Sofia Coppola, mereceu o título "O Amor é Um Lugar Estranho", na tradução em português. Duas décadas antes, Annie Lennox e Dave Stewart viviam intensamente (fora e dentro do estúdio) essa estranheza juntos.
MARVIN GAYE – "Sexual Healing" (1982)
Incontornável êxito da música soul devia estar num manual para utilizadores, intitulado, "Como fazer as pazes de forma tórrida, depois de uma discussão sobre o último episódio de 'Big Little Lies'". A violência doméstica deve piar fininho.
HERÓIS DO MAR – "Só Gosto de Ti" (1984)
Os Heróis do Mar podiam ser acusados de encarnar muita coisa, mas uma era evidente: a sua pop era refinada e não saía da cabeça. Até hoje.
THE CURE – "In Between Days" (1985)
Disseram-nos que os rapazes não choram, puseram todos a amar à Sexta-Feira e fizeram multidões venerar o álbum "Disintegration". Sejas rapaz ou rapariga, tenhas ou não make up, ou um cabelo esgroviado, toca a mexer o corpo com este tema.
NEW ORDER – "Bizarre Love Triangle" (1986)
O poliamor soa a relação sentimental entre abelhas e a desculpa certeira para evitar coisas sérias a dois. Tendo este grupo aparecido após o fim dos Joy Division, "BLT" podia ser uma música dedicada a uma das frases que a personagem de Ian Curtis disse à esposa no filme Control. A propósito da questão se ele amava outra mulher, respondeu: "O que é que isso tem a ver connosco?". Bela saída…
HAPPY MONDAYS – "Kinky Afro" (1990)
Será esta a banda mais nárcotica e cool de Inglaterra? Há 27 anos, talvez fosse. Nessa época, os irmãos Ryder faziam malhas do caraças e meteram os brancos a dançar o seu viciante groove. Em palco, podia faltar tudo menos o amigo Bez a gingar o esqueleto, movido por aditivos que tornavam a espuma dos dias bem mais colorida.
PET SHOP BOYS – "Jealousy" (1990)
Nós sabemos que a escolha podia ter recaído num mundano subúrbio, num qualquer pecado, ou no jogo do dominó. Compreendemos que preferias uma dessas e não precisas de andar à porrada (como se vê no final deste clip), como se fosses um atleta do Canelas. Porém, das menos rodadas do vasto espólio dos dois autores de West End Girls, esta é das melhores.
BJORK – "Big Time Sensuality" (1993)
O grunge andava na mó de cima, os Blur acreditavam que a vida moderna era lixo e a Europa dos U2 era electronicamente Zoo. Assim do nada (bem, já dava que falar com os Sugarcubes), uma islandesa ironizava sobre o comportamento humano. Posteriormente, espalhou charme pelas ruas de Nova Iorque.
PULP – "Common People" (1995)
Devia ser o hino para os "bifes" continuarem na UE (ao vivo, em Reading, 2011).
DAFT PUNK – "Revolution 909" (1996)
Qualquer revolução devia ser feita à base de tomates, rusgas e nódoas. Mais do que a descrição do teledisco, depois da estreia destes franceses, ainda estamos para saber se houve algum longa-duração na música de dança tão consistente e apetitoso. É fazer os trabalhos de casa para descobrir.
AIR – "Le Soleil Est Pres de Moi" (1997)
A maresia, o sol, la musique. Um final de tarde, um vinhinho tinto, com a temperatura certa e uma bela companhia com vocoder. A banda sonora perfeita numa praia perto de si.
SUEDE – "She's in Fashion" (1999)
Está longe de ser "a" canção da formação britânica, apesar de ser bonitinha e radiofónica. Escolhemo-la porque nesta live presentation é bem visível o produto do Sr. Kakehashi. Arigato.
KRAFTWERK vs WHITNEY HOUSTON – "I Wanna Dance With Numbers" (2001)
Ah pois é! Pensaste que ao falarmos de teclados iríamos deixar de fora os alemães robotizados e a menina que teve o Kevin Costner como guarda-costas? Assinado por Richard X, no projecto Girls on Top, deve ser consumido antes de três vodkas Grey Goose com gin (n.r.: epá, esta playlist está um pouco alcoólica!), para evitar que fiques desnorteado com este delicioso mashup.
LADYTRON – "Seventeen" (2002)
Elas quando têm 15, querem aparentar ter 20. Quando têm 35, querem a energia dos 19. Quando têm 50, querem…nem sabemos bem o quê. É complicado. Os Ladytron defendem peremptoriamente, "they only want you when you're seventeen, when you're twenty one, you're no fun". Maybe.
MGMT – "Siberian Breaks" (2010)
Abril 2017. Trump e Putin fazem birra entre eles e disputam o território (e a guerra) da Síria como se estivessem a jogar Monopólio; em Portugal, a venda do Novo Banco cheira tão mal como frequentar o WC de um festival às duas da manhã - daqueles que não são constantemente limpos; na Suécia, (mais) um incidente com um veículo a derrubar pessoas em pleno passeio. Como emigrar para a Sibéria não é opção, o melhor é fazer uma pausa e tripar durante 12 minutos. "Oh Marianne, pass me the joint"…
BEACH HOUSE – "Take Care" (2010)
A viagem em honra aos sintetizadores termina com o afável duo de Baltimore. Fica bem.
