Por que o “boom do vinil” pode ser má notícia para música eletrônica

Por que o “boom do vinil” pode ser má notícia para música eletrônica

Na corrida da produção e venda de de LPs, grandes gravadoras produzem massivamente, enquanto pequenas labels independentes de dance music comem poeira.
19.1.16

Todas as fotos por Daniel Brothers para a Daily VICE, exceto quando indicado o contrário.

Dan Hill comanda a Above Board Distribution, uma empresa de Londres que lida com acordos de prensagem e distribuição, normalmente chamados de "acordos de P&D". Sua lista de clientes inclui selos icônicos como Crosstown Rebels, Rekids e Hotflush Recordings, que trabalham com a Above Board na prensagem e distribuição de discos para as lojas do varejo. Num momento em que as vendas de vinil nos EUA estão no ponto mais alto desde o surgimento do CD, em 1989 – chegando ao colossal número de nove milhões de álbuns vendidos na primeira metade de 2015, em comparação com 14 milhões em todo o ano de 2014 – seria razoável supor que os negócios andam melhores do que nunca. Contudo, mesmo com as vendas disparadas, os selos independentes de dance que Dan representa – e a própria Above Board – muitas vezes têm a impressão de que seus discos estão se perdendo na multidão.

"As gravadoras foram obrigadas a aceitar que agora o tempo de fabricação dos discos ficou muito maior", diz Dan por e-mail, fazendo referência aos tão noticiados atrasos na produção que assolam a indústria do vinil. Como ele explicou recentemente ao Guardian, as longas filas nas fábricas de prensagem de discos praticamente triplicaram o tempo de prensagem do catálogo da Above Board, que passou de cerca de quatro semanas para dois a três meses. "[Os atrasos] prejudicam o fluxo de caixa se você pagou um adiantamento ao artista, ou se gastou com o design gráfico ou a masterização", ele me explica, "e as gravadoras estão demorando muito mais para recuperar esse dinheiro".

A sobrecarga de discos que contribui para esses atrasos – e que inunda as fábricas com pedidos adicionais – inclui discos pop de grande destaque, como o recordista 25, de Adele, que vendeu 22 mil discos de vinil em sua primeira semana, o terceiro melhor desempenho já registrado pela Nielsen. De acordo com o relatório de música de 2015 da Nielsen, Dark Side of The Moon, do Pink Floyd, Abbey Road, dos Beatles, e Kind of Blues, de Miles Davis, chegaram ao top dez em matéria de vinis vendidos. A décima posição ficou com a trilha sonora de Guardiões da Galáxia. Como artigos vêm sugerindo há quase uma década, o vinil está em voga novamente; agora, porém, está alcançando um nível inédito de mainstream, e as corporações estão lucrando com isso. Há até uma série repleta de astros e estrelas na HBO, chamada, bem literalmente Vinyl.

Hoje em dia é possível comprar discos praticamente em qualquer canto, desde lojas virtuais como Discogs, Juno e eBay, até lojas de discos locais e na, sim – Urban Outfitters, que, ao contrário do que muita gente pensa, na verdade não é a maior varejista do mundo. A campeã é a Amazon, que vendeu mais vitrolas do que qualquer outro produto de áudio para domicílios no período de festas de fim de ano de 2015. Na Grã-Bretanha, a maior revendedora de música, a HMV, vendeu uma vitrola por minuto na época do natal. Corre até a notícia de que a Whole Foods – e a rede de supermercados inglesa Tesco – acrescentou discos ao seu estoque de produtos alimentícios.

Após gerar um montante de US$222 milhões de renda total nos dois primeiros trimestres de 2015 – e manchetes sugerindo que serviços como Spotify e Apple Music, longe de massacrar as gravadoras na competição, talvez estejam, na verdade, contribuindo para as vendas crescentes do vinil com seus streams – há muito dinheiro flutuando por aí no negócio dos discos hoje em dia. Mas será que "boom do vinil", como os jornalistas o estão chamando, é realmente o melhor termo para entendermos essa maré de vendas? Ou será que o vinil está simplesmente sendo comercializado de outra forma, por empresas que têm mais poder do que a maioria das outras? E, se for esse o caso, qual é o impacto que isso tudo tem sobre os selos de dance music independentes?

Como DJ de renome mundial e proprietário da seminal loja de discos especializada em house, a Gramaphone, de Chicago, Michael Serafini testemunhou em primeira mão as mudanças de maré nas vendas dos discos no decorrer da última década. Serafini não necessariamente compra a ideia do tal "boom do vinil", no sentido de que ele não acredita que os novos consumidores sendo cooptados realmente se importem com os discos enquanto meio. Pelo contrário, ele vê a mudança nas vendas como resultado da reformulação publicitária de discos clássicos feita pelas grandes gravadoras, no formato de itens de colecionador que chamam atenção, e dos varejistas não-especializados em música utilizarem o "fator cool" do meio para ajudar a vender outros itens. "O vinil é uma ferramenta de marketing para esses lugares", ele diz de empresas como a Urban Outfitters. "Eles têm os meios financeiros de estocar vinis de sucesso, sejam álbuns clássicos ou de EDM, e atrair gente jovem para pegar um disco e comprar um par de calças".

"Eles não estão nem aí para [o que as pessoas estão] comprando, porque não ganham muito dinheiro com isso – o lance é mais chamar atenção para os produtos mais importantes", continua. "A música que eles vendem não é para um verdadeiro aficionado".

"As grandes varejistas não estão nem aí para o que as pessoas estão comprando, porque elas não ganham muito dinheiro com isso – o lance é mais chamar atenção para os produtos mais importantes. A música que eles vendem não é para um verdadeiro aficcionado." – Michael Serafini, Gramaphone Records

Serafini talvez tenha razão: um estudo de 2015 realizado pela ICM Unlimited, de Londres, descobriu que 34% dos consumidores que compram discos nem sequer possuem ou utilizam uma vitrola. Quando conversei com ele pelo telefone, Dan Hill, da Above Board, disse ter percebido um aumento acentuado no número de discos clássicos relançados, em edições de colecionador, pelas grandes gravadoras em 2015, discos que, enfatizou ele, podem normalmente ser comprados por poucos dólares em sebos de discos. Depois de construir as primeiras máquinas de prensagem do mundo nos anos 60 – e então voltar as costas ao vinil para vender CDs e música digital no final da década de 90 e início da seguinte – as grandes gravadoras estão voltando para o mercado do vinil, e expulsando as independentes da linha de produção.

"Quando começamos a trabalhar na Razor-N-Tape, o cronograma era de seis semanas, e agora já subiu para 12 semanas", diz JKriv, um dos responsáveis pelo selo independente do Brooklyn (o outro é Aaron Dae) por trás de sucessos das casas noturnas underground de artistas como Dimitri, de Paris. "Temos que trabalhar com lead-times muito mais longos do que antes". Como muitos outros selos de dance, a R-N-T sofreu as consequências do que JKriv descreve, em termos inequívocos, como o fenômeno de "as grandes gravadoras reeditarem porcarias inúteis que entopem as fábricas, que eram usadas principalmente por pequenas gravadoras como a nossa". Por causa dos atrasos, eles passaram a sofrer também a pressão de ter que providenciar os lançamentos que planejam vender no Record Store Day – uma celebração bianual do vinil que costuma marcar os dias de maior renda do ano tanto para as gravadoras quanto para as lojas de discos – com até sete meses de antecedência, devido a uma diretriz imposta pela organização. Mas, para gravadoras que trabalham na base de um disco por vez, planejar com tanta antecedência é uma tarefa difícil; são muitas as variáveis que têm de ser controladas, incluindo arte de capa, arquivos de masterização, e até mesmo as próprias produções.

Aaron Dae e Jason Kriv, da Razor-N-Tape

Embora a venda dos vinis de música eletrônica esteja, tecnicamente, aumentando – o relatório Nielsen do ano passado citou a venda de 572 mil LPs do gênero, em comparação as 249 mil cópias de 2012 – o acentuado aumento em unidades vendidas dos últimos anos não leva em conta os selos menores e independentes, cujas finanças talvez estejam em declínio. E, tendo menos dinheiro em mãos, fica ainda mais difícil opor resistência às gordas verbas e pedidos volumosos que as grandes gravadoras fazem às fábricas.

Resumindo, a atual infraestrutura de produção de vinil não tem como acompanhar a demanda; segundo dados coletados pelo proprietário da maior fábrica de prensagem do mundo, Tom Vermeulen, existem somente 50 fábricas de prensagem em todo o mundo, sendo 19 delas nos EUA. Embora se tenha visto nos Estados Unidos a abertura de um punhado de novas fábricas nos últimos cinco anos – incluindo a Stereodisk, em NJ, a Hit-Bound Manufacturing, em NY, e uma futura fábrica da Third Man Records em Detroit – poucos aspirantes a empreendedores têm qualquer pressa de abrir negócios, devido aos custos proibitivos do maquinário.

O mundo dos discos é uma das raras indústrias que não evoluíram no compasso dos avanços tecnológicos; as máquinas funcionam com peças velhas e fora de produção. De acordo com um artigo da FACT publicado em 2015, uma única máquina de prensagem pode custar mais de US$100 mil, e sabe-se que as fábricas já chegaram a gastar US$5 mil em um único parafuso. Junto com as máquinas, muitas pessoas que realizam tarefas essenciais ao processo de prensagem, como galvanoplastia e masterização, estão envelhecendo e se aposentando. "As pessoas que masterizam discos sumiram da face da terra", diz Serafini. "Isso está afetando a música também, porque, quando se prensa coisas em vinil, é preciso garantir que sejam masterizadas do jeito certo, ou a qualidade sairá comprometida".

Tom Vermeulen, que é dono da Record Industry – a fábrica de prensagem de vinil em Haarlem, na Holanda, que detém o título de maior fábrica em todo o mundo – testemunhou os efeitos que as grandes gravadoras tiveram sobre as filas de produção. Vermeulen comprou a empresa em 1998, uma época em que o negócio estava em um ponto alto na década, com as vendas rendendo cerca de US$150 milhões em todo o mundo por ano. Em 2006, os números haviam despencado para menos de 50 milhões de dólares, queda sem dúvida em parte devida à ascensão do compartilhamento de arquivos digitais. Ele comanda a fábrica até hoje, e faz negócios com todo mundo, desde as chamadas "três grandes" – Sony, Warner e Universal – até selos holandeses especializados em techno, como a Clone Records.

A Record Industry produz cerca de 30 mil discos por dia, operando 33 prensas e também uma sala própria de masterização e corte; tudo – até mesmo a impressão das capas – é feito sob um único teto. Atualmente, a fábrica mantém um fluxo constante de produção das sete da manhã até onze da noite todos os dias, em dois turnos; Vermeulen conta que espera aumentar a produção para 50 mil discos por dia, com o acréscimo de um terceiro turno. Com as constantes ondas de pedidos, a Record Industry luta para satisfazer clientes impacientes, tanto os grandes quanto os indies. "[A demanda é] tanta que não conseguimos prensar tudo em tempo, e estamos andando para trás", diz ele. "Obviamente, as grandes usam muito da nossa capacidade, mas os selos menores também encomendam grandes quantidades".

Do outro lado das águas, em um chuvoso dia de outono em Nova York, fiz uma visita à Brooklynphono, uma fábrica menor, propriedade da dupla de marido e mulher Fern e Tom Bernich, um casal de apaixonados pela dance music underground, que têm Levon Vincent, iconoclasta do techno de Nova York, como cliente e amigo. Quando estacionei no prédio de blocos de concreto no bairro de Sunset Park, situado no Brooklyn e passando por um veloz processo de elitização, uma pequena gravura em estêncil de uma vitrola na porta era o único sinal da atividade acontecendo lá dentro. Ao entrar, fui imediatamente atingido pelo cheiro de uma série de substâncias pungentes, complementado por uma orquestra de ruídos dos pistões das cinco prensas da fábrica, incluindo uma prensa de discos de sete polegadas que foi resgatada de um ferro-velho local.

Um disco novinho em folha saindo da prensa na Brooklynphono.

Fundada em 2005, a Brooklyn Phono é uma das três fábricas atualmente em funcionamento em Nova Yoork, sendo as outras a Brooklyn Vinyl Works e a Hit-Bound Manufacturing. (Após o fechamento, em 2012, de sua antiga fábrica no Brooklyn, a EKS, noticiou-se que o proprietário Will Socolov tem planos de abrir novas instalações na área). Tom e Fern estão no negócio há mais de dez anos, sobrevivendo à crise do final dos anos 2000 e chegando à movimentada época atual. Ao contrário da Record Industry, contudo, Fern diz que a demanda maior não teve muita influência sobre o tempo normal de produção – de dois a três meses. A Brooklynphono tem atualmente uma produção de dois mil discos de 12 polegadas e 750 a mil discos de sete polegadas por dia – todos prensados num único turno de oito horas. Com o passar dos anos, diz Tom, ele e Fern conseguiram otimizar a operação, de modo a aproveitar ao máximo seus turnos de trabalho, materiais e funcionários. Eles estruturaram sua empresa de modo a prolongar a sustentabilidade de suas máquinas, em vez de simplesmente prensar a maior quantidade possível.

Tom Bernich trabalhando na prensa.

"A margem [de lucros] é muito menor para nós [do que é para as fábricas de maior porte], então, se você está prensando grandes quantidades e usa quatro ou cinco máquinas em vez de três, é possível ganhar algum dinheiro", diz Tom. "As de porte médio estão saudáveis, e as grandes empresas, com vinte máquinas ou mais, devem estar se saindo muito bem." De acordo com Tom, para fábricas de médio porte, como a Brooklynphono, o essencial para lucrar é cultivar um público fiel e não descuidar da qualidade. "Se você fizer um bom produto e cobrar um preço razoável, não vai fechar as portas", diz.

"Se você fizer um bom produto e cobrar um preço razoável, não vai fechar as portas."– Tom Vernon, Brooklynphono

A Brooklynphono não se nega a trabalhar com as grandes, mas a empresa se esforça para também atender os pedidos dos clientes menores e fiéis. "Temos a oportunidade de ganhar um bom dinheiro, e forrar o ninho para termos alguma proteção nos períodos de seca", diz Tom sobre trabalhar com as grandes. "Entendo aceitar mais trabalhos do que você consegue consumir e atrasar várias gravadoras menores que lhe mantiveram em funcionamento nas épocas mais paradas. Conseguimos um equilíbrio que nos permite atender todo mundo, mas cobramos um bônus das grandes, o que nos ajuda a não ficar para trás das [maiores fábricas] e talvez a conseguir um dinheiro extra para comprar mais uma máquina ou construir alguma coisa que ainda vai durar por uma década".

Os selos de dance independentes têm suas próprias maneiras de sobreviver e prosperar em meio à sanha por discos. Justin Carter – cofundador (com Eamon Harkin) do coletivo organizador de festas e selo especializado em house e techno Mister Saturday Night, no Brooklyn – é um fanático pela cera. A dupla criou o selo em 2012; assim como acontece com as festas DIY que eles ocasionalmente organizam nas noites de sábado por toda a cidade (e em todos os domingos do verão), eles fizeram questão de fazer tudo pessoalmente, da produção dos negativos à distribuição.

"Logo percebemos que existem esses congestionamentos no sistema de produção de discos nos Estados Unidos", conta Carter. "É uma indústria bastante capenga". Depois de alguns anos, a Mister Saturday Night se deu conta de que precisava de uma ajudinha para chegar ao início da fila de prensagem, especialmente em meio a outros selos que pagavam mais ou com maior antecedência. Mais à frente, em 2013, eles optaram por um acordo de produção com uma empresa chamada Crosstalk, à qual pagavam uma comissão pelo gerenciamento da produção e da manufatura, ao mesmo tempo mantendo completamente a propriedade sobre os discos, e trabalhando como distribuidores. Posteriormente, passaram para um acordo tradicional de P&D com uma empresa chamada FIT Distribution, de Detroit.

Justin e Eamon, do Mister Saturday Night.

Junto com esse acordo, a Mister Saturday Night adotou a estratégia de prensar dois discos simultaneamente. Isso lhes possibilitou uma maneira de se adiantar aos inevitáveis atrasos da prensagem, permitindo que estocassem prensagens com antecedência em relação às datas agendadas para os lançamentos, em vez de esperar que as prensagens chegassem uma de cada vez.

"É difícil saber quando as coisas vão ficar prontas."– Aaron Siegel, FIT Distribution

A instituição britânica Mute Records, com décadas de história e lar de famosos artistas experimentais da música eletrônica como Depeche Mode e Moby, vivenciou os efeitos do congestionamento à sua própria maneira, principalmente enfrentando dificuldades em reabastecer os estoques de discos de sucesso. "Títulos como Hurry Up, We're Dreaming, do M83, sofreram com falta de estoque, porque a reprensagem, às vezes, pode demorar até seis meses", diz Nicole Blonder, presidente do marketing e da produção de vinis, por e-mail. Embora a Mute tente se manter à frente, fazendo novos pedidos com grande antecedência, o selo ainda assim já chegou a ficar por meses sem um determinado disco em estoque. "Os fãs ficam frustrados, eles não compreendem, e a gente não é indiferente a isso", diz ela. "Isso, na melhor da hipóteses, gera ansiedade, e, na pior, prejudica as nossas finanças".

Embora muitos distribuidores que trabalham com as grandes gravadoras estejam lucrando com a demanda maior, aqueles que trabalham apenas com as independentes também estão enfrentando dificuldades. Aaron Siegel, da FIT Distribution, em Detroit, não é exceção. Com uma lista de clientes que inclui selos de dance icônicos nos EUA como a Sound Signature, de Theo Parrish, e a Metroplex, de Juan Atkins, ele diz que teve de adotar algumas táticas para contornar os atrasos, e para administrar as expectativas entre as fábricas de prensagem e os impacientes donos de gravadoras. "As fábricas de prensagem ficam putas com gente que pergunta o tempo inteiro: 'Quando é que fica pronto?'", diz ele. "Eu não informo a data de lançamento; é difícil saber quando as coisas vão ficar prontas".

Para que as empresas independentes do ramo sobrevivam e prosperem, é preciso encontrar alguma saída para esse congestionamento. É preciso haver gente nova e talentosa para continuar o trabalho de muitos artesãos habilidosos que lidavam com tarefas como a masterização e a galvanoplastia. São necessárias também novas fábricas de prensagem, novas máquinas de prensagem, e maneiras mais sustentáveis de produzi-las e conservá-las [o novo sistema da Newbilt Machinery é um ótimo começo, mas o custo ainda está na casa dos US$160 mil]. Talvez o mais importante, como previu Michael Serafini, seja que os consumidores se cansem de comprar edições de luxo e de colecionador, e que as grandes gravadoras parem de produzi-las.

"Os fãs ficam frustrados, eles não compreendem, e a gente não é indiferente a isso."– Nicole Blonder, Mute Records

É claro, imaginar um mundo cheio de fábricas de prensagem com um maquinário reluzente de última geração e lag-times insignificantes é um tanto utópico. "Vai ter que ser alguém que realmente é apaixonado pela coisa", diz Justin Carter sobre os que aspiram a abrir fábricas. "A demanda excede a cadeia de distribuição, mas não é intensa o bastante para que se crie uma nova máquina de prensagem, o que provavelmente custaria milhões de dólares". Mesmo com as vendas aumentando, ainda estamos a um mundo de distância da era de ouro do vinil de 1973, quando a indústria de singles sozinha conseguia rendimentos de mais de milhões de dólares nos EUA. "Ainda que haja mais demanda pelo vinil, de quanto é esse aumento da demanda?", pergunta Carter. "Não estamos chegando nem perto da quantidade de discos produzidos durante a época em que, se você queria ouvir música, era obrigado a comprar um disco de vinil".

Contudo, algumas pessoas ainda estão trazendo vida nova à indústria. Segundo uma entrevista à Pitchfork, há o rico aficionado por vinis Jack White, cujo selo Third Man Records tem planos de abrir uma fábrica de mil metros quadrados, com reluzentes máquinas novinhas, em Detroit. E, desde o ano passado, há uma operação semelhante em Kenilworth, Nova Jersey, chamada Sterodisk, que se descreve como "oficina-faz-de-tudo", e que inclui um estúdio de masterização e instalações de prensagem de discos. Ela foi aberta em 2015 pelo ex-funcionário de fábrica de prensagem Leandro Gonzales, do Brooklyn, e com apenas uma máquina semiautomática, a fábrica se especializa em prensagens de alta qualidade e pouco volume, trabalhando exclusivamente com selos independentes.

Pelotas verdes usadas na fabricação de vinis.

Seja lá quais forem as mudanças de maré no mercado de música como um todo, uma coisa é certa: na comunidade da dance music propriamente dita, o vinil veio para ficar. Por e-mail, o artista americano do techno Ambivalent (também conhecido como L4-4A) sugere que os verdadeiros fãs de música e DJs sempre serão essencialmente colecionadores. "Todos os DJs que conheço que [tocam vinil] o fazem por amor e são fãs de coração", diz ele. "Um fã de verdade quer possuir uma coisa da qual ele pode se lembrar, que pode segurar nas mãos". Ele continua: "nunca parei de comprar vinis, ainda que eu também ouça músicas digitalmente, e isso é sempre um lembrete para mim de que o que importa não é a utilidade, não é a eficiência e nem a praticidade. O que importa é dar valor a algo que dura".

Para os donos de gravadoras independentes que trabalham sem descanso para prensar e enviar seus discos, o que importa não é ganhar dinheiro rápido e vender milhões de discos de luxo; mais do que tudo, o que importa é colocar a música no mundo, em um formato que tenha um bom som e que pareça cheio de significado. "Há uma lista de prós e contras dos vinis, então de fato não é o melhor formato de todos os tempos, mas ele tem o seu tempo e o seu lugar", Tom admite para mim na Brooklyn Phono. "Se alguém dedicou muita energia à prensagem de um disco, e depois há uma galera de cinco ou dez mil pessoas curtindo esse disco – então isso é tudo o que importa".

David Garber é o editor de homepage do THUMP. Mande para ele tudo o que encontrar de bom sobre vinil em seu Twitter.

Tradução: Márcio Stockler

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