Drogas

A beberricar "Gin and Juice" com Snoop Dogg

Entre um copo e outro, a lenda do rap fala sobre os melhores cocktails, erva medicinal e o que vai acontecer na sua vida em 2017.

Por Brad Japhe
06 Fevereiro 2017, 7:30am

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma MUNCHIES US.

Poucos artistas podem gabar-se de serem tão influentes, durante tanto tempo como Snoop Dogg. Quase 25 anos depois da edição do seu disco de estreia, Doggystyle, o cantor, estrela de televisão e empreendedor da indústria da canábis medicinal continua tão relevante como sempre foi. Parte disso deve-se à sua natureza prolífica (lançou 127 singles durante estas duas décadas e meia), mas a simpatia contagiante de Snoop também tem um papel de relevo no seu sucesso. Afinal de contas, a gentileza nunca sai de moda.

Nem a erva. O estatuto de Snoop como embaixador não oficial da marijuana, também ajudou a cimentar o seu legado. O MUNCHIES encontrou-se com Snoop no centro de Los Angeles, para beber cocktails de gin com sumo e ouvi-lo fazer várias revelações, desde o seu prato preferido quando a fomeca da ganza aperta, até à pessoa que conseguiria fumar mais charros que ele. Mais importante ainda, esta breve conversa com o ícone do rap, oferece algumas lições sobre a longevidade.

Foto por Jared Ranahan

MUNCHIES: O que é que estamos a beber?
Snoop Dogg: Um "Laid Back" [ preparado por Niko Novick, da N2 Mixoligy: uma parte gin, uma parte vodka de maçã, duas partes sumo de abacaxi fresco e um toque de soda com gelo].

Sabes que a Martha Stewart preparou-me este mesmo cocktail no nosso programa [Martha and Snoop's Potluck Dinner Party]. Mas ela meteu-lhe uma bola de gelo. Uma bola de gelo enorme. Aquela louca. Nunca tinha bebido um cocktail com uma puta de uma bola de gelo enorme. Aquilo fodeu-me a cabeça, mas estava bom. Nunca achei que ia dizer que curto bolas, mas... tens um toque de gin, um toque de abacaxi e é só chop chop [o gelo].

A tua amizade com a Martha é inesperada, mas verdadeira. Como é que vocês trabalham tão bem juntos?
Ela é diferente do que eu estava acostumado. Mas, bem, ela também é muito como o que eu estava acostumado, porque é uma pessoa. Apenas parece diferente e nasceu numa era diferente, mas estar com ela, ela é como estar com qualquer pessoa. É por isso que funciona, porque ela nunca diz nada que pareça uma loucura aos meus ouvidos. É sempre, tipo "caramba, eu sabia que ias dizer isso". É por isso que nos damos bem, é por isso que temos uma ligação, eu e a Martha. Porque até parece um casamento sagrado, não conversa da treta.

Apresentaste um cocktail antigo a uma nova geração com a música "Gin and Juice". Quem ´e que te apresentou essa bebida?
A minhã mãe! A minha mãe gostava de beber nos anos 70. Dava festas em casa, tínhamos um bar na sala e um leitor de cassetes. Toda a gente bebia [gin] e divertia-se. Para mim, essa bebida representa bons tempos.

De que música te lembras dessa época?
The Dramatics, Marvin Gaye, Isley Brothers, Manhattans. Qualquer coisa que te fizesse dançar, sabes? A minha mãe e os convidados dançavam. Na altura, achava que era a bebida que os fazia dançarem. Pensando nisso agora, devia ser porque tinham sempre um copo cheio na mão.

O gin foi sempre o teu favorito? Há muita gente da cena do rap que prefere conhaque, por exemplo.

Não bebo do castanho, meu... Já sou castanho o suficiente. Muito castanho não faz bem. As piores ressacas são com isso. Aquelas tipo "Jesus, nunca mais vou beber". Com os destilados brancos, não ficas nesse estado.

Qual é o teu cocktail de festa perfeito?
[ Pensa durante um minuto] Ah! "Pink Panties" [uma mistura de limonada rosa, gin, gelado, morango e gelo]. Acho que o pessoal já não faz esse. Quando andava no Liceu, essa era a bebida que as miúdas bonitas faziam quando queriam fingir que tu tinhas hipótese com elas. Só que, na verdade, nunca ia acontecer. Elas faziam o cocktail, ficavas embalado, mas depois, chapéu, nunca conseguias nada!

"Adoro fazer música, adoro fornecer o que estava a faltar a muitos desses artistas que cresci a amar e poder trabalhar com eles agora".

Quais são os teus planos para 2017, Snoop?
Tenho um filme a sair para Coolaid. Aquele disco era muito alucinado. Era óptimo. E acho que a editora não o tratou como devia. Por isso, fiz um filme para ajudar as pessoas a entenderem de onde aquilo veio. É um filme que deve sair em Março para apoiar o disco. Vou também trabalhar com vários artistas incríveis. October London é um deles. É um óptimo cantor/compositor. Vou fazer algumas coisas com a minha filha, ela agora está a cantar. Acabei de fazer um álbum com Morris Day... portanto, fiquem atentos. Também estamos a trabalhar no disco novo de Bootsy Collins. Estou a fazer um pouco de tudo. Adoro fazer música, adoro fornecer o que estava a faltar a muitos desses artistas que cresci a amar e poder trabalhar com eles agora, porque eles ainda querem fazer música e eu ainda quero trabalhar com eles.

Hoje em dia, deixas outros artistas escreverem letras para ti. Como é esse processo?
Deixo as pessoas escreverem para mim, não porque esteja com algum bloqueio criativo, mas porque, às vezes, a perspectiva de fora é melhor que a tua perspectiva. Tipo "Sexual Eruption", Shorty Rare escreveu essa música. Ele apresentou-me a música e disse: "Quero que fiques com esta música". Mas ele não estava a cantar, só a falar. Então, agarrei na letra, meti um pouco de autotune nos meus vocais e disse: "Espera. Não quero fazer o 'T-Pain' aqui. Mete o T-Pain aqui e a mim ali". Essa é a diferença entre músicas normais com autotune e esta, porque o Shorty Rare deu-me essa música. Ele compôs, produziu, fez o arranjo e eu acrescentei o meu sabor e fiz o que sempre faço.

Mas nem sempre te sentiste confortável com outras pessoas a comporem para ti.
No início tinha um problema com isso, porque era um MC. Sou um MC do caralho! Escrevi para Dr. Dre. Compus para ele. Não vais compor nada para mim. Uma vez, eu e um rapper - não posso dizer o seu nome - começámos com o pé esquerdo por causa disso. Começámos mal, porque ele apresentou-me uma música e eu disse: "Man, não podes escrever para mim!". Ele vendeu milhões e milhões de discos e tem todo o meu respeito. Na arte da guerra, eu ainda estava no topo do jogo, então não precisava que outra pessoa escrevesse as minhas letras. Escrevia mesmo tudo sozinho. [Risos]

Snoop Dogg com o barman Niko Novick. Foto por Jared Ranahan.


Estás envolvido na cena da canábis medicinal. O que sentes em relação à proliferação dos produtos de erva comestíveis, em particular?

Não tenho um botão liga/desliga com os comestíveis. Aprecio o facto de estarem a criar comestíveis, porque algumas pessoas não gostam do fumo, não gostam de como ficas a cheirar, portanto os comestíveis são uma outra forma de te medicares. Também é um método óptimo de te sentires bem com o que estás a consumir sem ninguém saber. Respeito isso, mas, ao mesmo tempo não consumo comestíveis, porque não dá para controlar. Perco o controlo sobre mim sempre que o faço, porque quando entra na minha corrente sanguínea, acabou. Não gosto de me sentir assim.

E o que achas da legalização da marijuana no teu Estado natal, a Califórnia?
É nisso que o Mundo é baseado agora. É mais medicado que dedicado. Tens que ver isto como algo que cura as pessoas, que está a salvar o Mundo. Como eu sempre digo, mesmo isto por exemplo [ aponta para o copo de bebida na mesa]: vai a um evento desportivo e vê como as pessoas agem ao consumirem isto; violentas, agressivas. A equipa delas perde e vai haver porrada. Mas quando estás num evento desportivo e consomes isto [faz um gesto de quem está a fumar um charro], não te vais meter com ninguém. Se a tua equipa perde... foda-se, perderam.

"Um dos melhores pratos para a fomeca da ganza é sanduíche de bolonhesa frita com queijo".

Wiz Khalifa disse recentemente que consegue fumar mais que tu. Há alguma verdade nisso?
Wiz Khalifa não consegue fumar mais que eu. É jovem e ambicioso. Está numa missão. O karaté dele é bom. Mas nunca vai conseguir. Hoje só há uma pessoa que consegue fumar mais que eu: Willie Nelson. É a única pessoa que pode superar-me. Finito!

Como é que sabes que foste superado a fumar erva?
Quando queres parar. Quando estás à procura de uma saída. Queres quebrar a corrente. É uma rotação, é tipo uma corrida - tipo estafetas 4 por 4 - e do nada alguém te entrega o bastão e pensas: "Vou ficar aqui parado enquanto vocês correm a cena toda".

No programa com a Martha, mostras que tens muito talento para cozinhar. Que pratos gostas de fazer quando estás com a moca?
Um dos melhores pratos para a fomeca da ganza é sanduíche de bolonhesa frita com queijo. Depois metes as tuas batatas fritas favoritas dentro da sandes. É o básico.

Como é que ensinas os teus filhos a beberem e fumarem com responsabilidade?
Nenhum dos meus filhos bebe. Mas fumar responsavelmente? É só ser um exemplo. Tenta não ser hipócrita. Como é que lhes vou dizer que não podem fumar, quando eu fumo? É assim que eu faço. Tento sempre mostrar respeito. Não sou uma pessoa que desrespeita. Podes reparar nisso hoje, não vais sentir cheiro de erva neste cenário, porque respeito a visão do que estamos a fazer. Posso agir como um palhaço se for preciso, mas esta não é a hora nem o lugar. Aqui é fato e gravata.

Como é que a tua relação com a erva evoluiu ao longo dos anos?
Ela medica-me. Olho à volta e vejo todos esses empreendedores, rappers, atletas, como o peso deles flutua e como eles têm problemas com que não conseguem lidar, como se sentem suicidas, isto e aquilo, violência doméstica, etc. Mas Snoop Dogg segue uma dieta severa: isto e aquilo - não todas as alternativas acima descritas. Quando começas a misturar tudo, acabas com tudo o que disse antes. Mas quando manténs as coisas simples, tens um caminho suave para trilhar e é disso que eu gosto.

Obrigado por falares connosco, Snoop.