Identidade

Por dentro do primeiro concurso de sereios de França

São apenas 10 gajos, confortáveis nas suas barbatanas.

Por Matthieu Foucher; Traduzido por Sérgio Felizardo
16 Julho 2019, 11:43am

Fotos por Matthiew Foucher.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE França.

No final de Junho, enquanto a França suava em bica com temperaturas recordistas, um grupo de homens tirou um momento para escapar à onda de calor e competir no primeiro concurso Mister Tritão França. Organizado por Merman Ludo, o evento – que os responsáveis acreditam ser o primeiro do género no Mundo – teve 10 competidores de todo o país, que se enfrentaram numa batalha para serem considerados o melhor sereio que a França alguma vez viu.

Destinado apenas a sereios amadores, o concurso foi dividido em quatro partes: uma sessão de fotos aquática, uma parte de natação – onde tinham que nadar debaixo de água ao longo de pelo menos 25 metros – e dois desfiles, um em roupa de banho e um em fantasia. Os candidatos foram avaliados por um júri de quatro pessoas, incluindo Ingrid la Sirène – ex-Miss Sereia Internacional e actual directora do Miss Sereia França.

No final, o sereio Kewin foi coroado Mister Tritão França. Falei com ele, com os segundo e terceiro classificados e com o meu sereio favorito, Chris, sobre a paixão deles por sereias e porque é que se sentem confortáveis nas suas próprias barbatanas.

Aurélien, Terceiro Classificado

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Aurélien é originário de uma zona rural no centro de França, onde vive com o parceiro. Trabalha numa petshop, onde cuida da área de peixes. Apaixonado pelo fundo do mar desde pequeno, Aurélien já foi um nadador activo. Desistiu porque considera que o desporto “não tem imaginação”. Depois descobriu o mundo das sereias no YouTube e sentiu empoderado.

“Sempre tive dificuldade em aceitar o meu corpo”, confessa. E acrescenta: “Ser um tritão permite-me ser outra pessoa, superar a forma como os outros olham para mim e aceitar-me como sou. Quando estou debaixo de água, ninguém me incomoda e posso finalmente ser eu mesmo”. Também gosta muito do aspecto de fantasia no geral, na pele de sereio pode viver temporariamente “numa realidade paralela ao mundo humano” e “esquecer toda a brutalidade deste”.

Todavia, encontrar um lugar para treinar com o traje completo não tem sido fácil – muitas piscinas não permitem que use o rabo. Quando pode, nada num rio próximo e às vezes no mar no sudoeste de França, atraindo olhares “curiosos e impressionados”. Depois de ler comentários de um estranho numa artigo sobre ele, decidiu parar de se importar com a opinião dos outros. “O que as pessoas acham normal hoje em dia, não é necessariamente o que achavam normal quando este hobby começou. Enquanto isso, não quero desperdiçar o meu tempo com esse tipo de gente e só quero viver a minha vida”, realça.

Alexandre, Segundo Classificado

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Alexandre, 22 anos, descobriu este mundo com a namorada, Laurianne, também conhecida no meio como Miss Kawaii. “No início achei estranho, mas nado há cinco anos e adoro estar debaixo de água”, explica. E acrescenta: “Se pudesse, ficaria sempre sob a superfície. Mas, em termos de performance física, nadar com o rabo não é a mesma coisa para as pernas”. O pintor de aviões pratica o hobby com a namorada há cinco anos, mas só o admitiu publicamente ano passado.

Desde que se assumiu, tem feito um esforço consciente para ignorar o gozo de que é alvo. “Os homens não vêem o aspecto masculino disto”, refere. Ele busca inspiração na mitologia nórdica e tempera a sua persona com um toque viking: “Faz-me pensar em Poseidon e no seu filho – há aqui um elemento de combate". E Alexandre está acostumado ao combate, especialmente ao ter de confrontar os seus haters no trabalho: “Os meus colegas gozam, mas isso só me motiva a ser ainda melhor”, assegura.

Kewin, Mister Tritão 2019

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O Mister Tritão França 2019 só descobriu o mundo dos sereios e sereias no ano passado. “Nado há muito tempo e esta foi uma oportunidade de voltar à modalidade”, diz Kewin. Agora, treina uma vez por semana numa piscina com uma mono barbatana simples. Às vezes, quando o clima está bom, vai nadar na costa, acompanhado da filha pequena – mesmo que ela ainda não tenha ainda mostrado interesse em ser sereia.

“Quando encontrei o perfil do Ludo e vi que ele estava a organizar uma competição, pensei muito se deveria participar”, revela. E acrescenta: “Mas, comprei o rabo de tritão no final do ano passado e resolvi entrar na competição”. E foi a decisão certa. Kewin já começou o seu reinado com a barbatana direita, tendo sido convidado para a feira La Mer XXL – uma das maiores exposições marinhas do país – para nadar num tanque gigante, com a coroa de Mister Tritão a brilhar orgulhosamente na sua cabeça.

Chris, O Meu Favorito

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Chris – que fez 30 anos no mesmo dia da competição – é cosplayer há oito anos, mas só descobriu sobre sereios e sereia há três anos, durante uma sessão de fotos organizada por um amigo. “Sempre fui fã de criaturas mitológicas e sereias em particular”, explica. E revela: “Depois dessa primeira sessão de fotos os meus olhos brilharam”.

No dia-a-dia, trabalha como chefe de caixa numa rede de supermercados, mas nas horas vagas criou uma empresa dedicada a criar barbatanas e acessórios para sereias. Treina num lago perto de casa em Orléans e aprecia a modalidade pela liberdade que sente. “Quando estou na água, tudo é silêncio e nada mais existe ao meu redor”. Chris acredita que mais homens participariam nesta actividade se a sociedade não visse as sereias como criaturas apenas femininas. “Os homens precisam atender muitas expectativas quando se trata da sua masculinidade”, realça. E justifica: “Os meus pais expulsaram-me de casa quando eu tinha 20 anos por ser gay. Quando já passaste por algo assim na vida, desafiar as normas é, por padrão, mais fácil”.

Por causa do seu cabelo comprido vermelho vivo, Chris está acostumado aos olhares de julgamento, particularmente no trabalho: “Faz parte da minha vida ter pessoas a olharem para mim. Durante um tempo estive muito envolvido na luta contra a homofobia, mas percebi que é demasiado cansativo", conclui.


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