Cultură

De quanto dinheiro precisas para largar o trabalho e viajar sem data de regresso?

Fizemos as contas.
22.6.18
Ilustração por Ben Thomson.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Austrália.

Estás a ler isto no escritório, certo? Sabemos isso porque carregaste neste artigo. Todas as pessoas na história laboral da humanidade sonharam pelo menos uma vez com esta situação: comprar um bilhete de avião, despedir-se do escritório e nunca mais voltar. Umas férias de duas semanas não está nada mal, mas é muito melhor a ideia de viajar sem datas de regresso na cabeça, rodeado de vistas maravilhosas, sem e-mails para responder e sem comer saladas à secretária.

A não ser que esse sonho, lá está, seja totalmente impossível de concretizar. Poupar é complicado, sobretudo sem que se conheça a quantidade exacta de dinheiro de que se necessita para o conseguir fazer. A ideia de viajar durante um ou mais anos parece muito cara. Quantos mais e-mails tenho que responder antes de escrever uma carta de demissão? Quantas mais canecas de chá tenho que fazer numa mini cozinha só para atrasar trabalhar?

Para tentar descobrir, fizemos as contas. Aliás, falámos com alguns dos viajantes de longa duração que estão a tornar este sonho realidade.

O destino determina o orçamento

Há 195 países no Mundo, mas também não é preciso coleccioná-los a todos. Enquanto vais planeando como podes escapar do escritório, pensa que o preço da viagem muda drasticamente consoante os destinos. Pode parecer óbvio, mas quando se prepara uma viagem de tão longa duração, cada cêntimo que se poupa traduz-se em tempo extra.

Os teus euros vão render muito mais no Sudoeste Asiático e na América do Sul, do que na América do Norte e em grande parte da Europa. "Se escolheres destinos baratos, a coisa pode sair-te a mil euros por mês ou menos", comenta Alex Reynolds, uma "mochileira" que partilha as suas viagens no blog Lost With Purpose. Alex recomenda a Índia para os que não queiram gastar muito dinheiro, já que conseguiu viver lá durante algum tempo com 425 euros por mês.

Contudo, se tens a certeza que queres teres esta experiência em lugares mais dispendiosos, pode ser que tenhas que trabalhar um pouco em algo que não requeira demasiado esforço: dar aulas de inglês, recepcionista de hotel, conseguir um trabalho à distância… há muitas opções.

"Estive um ano a viajar pelos principais países do chamado Primeiro Mundo e gastei uns 17 mil euros", afirma Peter Shaw, que deixou o seu emprego numa empresa para fazer uma viagem de longa duração e tem um blog chamado Nomadical Sabbatical. Não voltou a trabalhar a tempo inteiro, mas ganha dinheiro com o seu blog e um outro negócio que tem na Internet.

"Se escolhes destinos mais caros, como Japão ou Europa, acho que um número realista estaria entre os 8.500 e uns 12.500 euros, sempre e quando complementes esse orçamento com um trabalhinho ocasional. Mas, se escolheres destinos mais baratos poderias fazê-lo com um montante entre os quatro e os 6.500 euros. Conheço pessoas que andaram a viajar durante dois anos enquanto trabalhavam um pouco e quando começaram tinham pouco mais de 1.500 euros no banco".

Lia García, que escreveu uma crónica no seu blog Practical Wanderlust sobre a sua lua-de-mel de um ano com o marido, Jeremy, poupou para a viagem durante mais de cinco anos, assumindo que o dinheiro seria suficiente para cobrir os gastos dos dois, mas descobriu demasiado tarde que tinha conseguido juntar muito menos do que efectivamente necessitava.

O seu conselho: se viajares em casal não esperes que se dividam os custos, já que continuam a ser duas pessoas, ainda que não pareça depois do primeiro mês a dividir o colchão cheio de pulgas do hostel onde estão hospedados. "Pelo sim pelo não, diria que é preciso poupar 17 mil euros para uma viagem de um ano", alerta.

Mesmo que tenhas pensado evitar destinos mais caros, se não arredondas por cima, ainda acabas a voltar mais cedo. "Calcula mais de 1.500 euros por mês, para o caso de ser preciso. Mais vale ter a mais do que a menos", afirma Reynolds.

O dinheiro pode esticar mais do que pensas

Há muitos truques e conselhos para que o teu dinheiro dure mais enquanto estás no estrangeiro. Se os tiveres em mente, provavelmente podes ir de viagem mais cedo. A tua prioridade máxima devia ser procurar alojamento barato ou gratuito, pelo menos para uma parte da viagem: recupera essas amizades esquecidas, ou volta a pôr-te em contacto com esses familiares com quem não falas há anos.

"O alojamento é o mais caro de tudo. Se procurares um sítio grátis ou barato vais poupar muito", aconselha Shawn. No caso de não teres nenhum milionário conhecido que te possa ajudar, Shawn propõe trabalhares em quintas agrícolas ou fazeres um intercâmbio, no qual possas aplicar alguma das tuas capacidades ("as pessoas precisam sempre de um informático") em troca de alojamento. Também podes optar por Couchsurfing, que com o Airbnb é atractivo para um grande número de viajantes que querem poupar nos gastos.

Se vais fazer uma viagem de longa duração, não esperes desfrutar dos luxos da típica viagem anual de três semanas pela Europa. Os hotéis são quase inalcançáveis, a não ser que o destino eleito seja muito barato. "Para além disso, são muito aborrecidos, por isso não há problema", salienta Shawn. E acrescenta: "Tem de se fazer vários sacrifícios e aprende-se a viver sem luxos". Todavia, não se pode prescindir da segurança. "Se te oferecem um sofá grátis em casa de alguém que não te inspira confiança, aceitares não será a melhor ideia", avisa

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Outro dos gastos mais importantes é na comida, mas aqui também se pode agir de maneira inteligente. "Cozinha os teus próprios pratos sempre que possas", aconselha García. E justifica: "Poupa-se dinheiro e é mais saudável. Para além disso, ir comprar comida é uma das experiências mais originais quando chegas a un novo destino. É muito divertido ir aos supermercados na América do Sul ou na América Central".


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O melhor das viagens de longa duração é que não tens que pôr o chip de turista. Não há pressa nenhuma para ver tudo, podes planear com tempo e evitar a época alta se quiseres poupar muito dinheiro. Também podes conceder-te alguns pequenos caprichos e embarcares em expedições mais exploratórias, porque, lá está, tempo não te falta.

"Ainda que não vás a destinos baratos, podes sempre gastar o mínimo se viajares com cabeça e viveres ao mesmo ritmo que os habitantes", recomenda Reynolds. E refere: "Podes andar de transportes públicos, ir a parques e espaços naturais, comer ao ar livre, conhecer gente local… Onde quer que vás, faz o que vires".

Motiva-te

Se poupar para viajar é algo que te custa, pensa que vale a pena. Tens a oportunidade de trabalhar o resto da vida, mas nem sempre vais ser suficientemente jovem e livre para passar toda a noite acordado em Berlim, ou fazer mergulho na costa do México.

"Nunca trocaria as experiências que tive a viajar durante um ano, pelo dinheiro de um salário anual, com tudo o que isso implica", confessa Shawn. E remata: "Foi a melhor experiência da minha vida, vi coisas alucinantes, conheci gente encantadora e tenho muitas histórias para contar".Já Reynolds acha que nem toda a gente é capaz de fazer viagens de longa duração, mas ela sim: "Se não tens a certeza, experimenta primeiro tirar umas férias grandes, meio ano ou um ano sabático. Se isso te faz sentir bem, significa que está na hora de redigires a carta de demissão".

García está de acuerdo en que si crees que ese tipo de viajes están hechos para ti, es que lo están, así que ya puedes empezar a ahorrar. “Si eres como yo, que ha estado soñando con viajar durante mucho tiempo, viendo cómo pasaban los años esperando a que mi vida diera un vuelco de 180 grados, merecerá la pena”.

García está de acordo em que se achas que este tipo de viagens foram feitos para ti, então é porque foram e podes começar a poupar. "Se és como eu, que contei com viajar durante muito tempo, a ver os anos passar e à espera que a minha vida desse uma volta de 180 graus, vai valer a pena".

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