Cultura

Como as tatuagens salvaram indonésias da escravidão sexual na Segunda Guerra Mundial

Uma tradição de casamento ajudou estas mulheres a escaparem a um destino cruel durante a ocupação japonesa.

Por Kathleen Malay, e Rizky Rahad; fotos por Arman Dzidzovic
22 Janeiro 2019, 4:01pm

As tatuagens tradicionais. Todas as fotos pela autora.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Indonésia.

Mariana Hoar lembra-se do medo de viver sob a ocupação japonesa. E da dor. “Quando os japoneses vieram, já nos tatuávamos, então eles achavam que éramos casadas”, conta-me, apontando para as linhas desbotadas sob a sua pele marcada pelo sol. E acrescenta: “Na nossa cultura, as tatuagens significavam que éramos casadas. Assim deixavam-nos em paz... Tínhamos medo”.

Mariana bate na pele com as pontas dos dedos, imitando os movimentos da agulha de tatuagem tradicional. “Agulha, agulha, agulha. Sangue”. “Doía?”, pergunto. “Doía muito”, assegura Mariana.


Vê: "As mulheres que se tatuaram para escapar à escravidão sexual"


Estávamos na pequena aldeia de Umatoos, uma comunidade modesta, onde casas antigas com telhado de palha convivem com prédios modernos no distrito de Malaka do Oeste, na metade indonésia da Ilha de Timor. Num país repleto de lugares remotos, Malaka é ainda mais remoto. O distrito rural faz fronteira com a pequena nação de Timor Leste, um país de 1,25 milhão de habitantes, antiga colónia portuguesa, que, em 1975, depois da descolonização e de um breve período de independência, foi invadido e ocupado pela Indonésia - ocupação que durou até 1999, tendo o novo estado soberano sido proclamado em 2002. Malaka fica mais perto da Austrália que da capital indonésia, Jacarta, e cruzamos de Batugade, em Timor Leste, para nos encontrarmos com as mulheres da aldeia de Mariana.

As mulheres de Malaka ocupam um lugar único na história da Indonésia, mas que hoje foi quase totalmente esquecido. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Indonésia – e grande parte do Sudeste Asiático – estava sob ocupação japonesa, mulheres como Mariana conseguiram resistir às duras realidades da vida sob ocupação, através de uma tradição de casamento local. As mulheres da cultura Malaka costumavam tatuar-se quando casavam, marcando a pele com desenhos intrincados para mostrar que eram “comprometidas”.

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Mariana Hoar.

“Em cidades grandes, as tatuagens simbolizam delinquência – que alguém é bandido – mas aqui, as tatuagens são o nosso legado, é uma parte da nossa cultura que está ligada a uma pessoa”, explica Daniel Bria Suri, um líder tribal. E realça: “Essa tradição é herdada, ela retrata a filosofia da nossa tribo. Algumas [tatuagens] simbolizam as casas tradicionais. Algumas simbolizam a natureza”.

Quando as tropas japonesas chegaram a Malaka, levaram com elas uma campanha brutal de escravidão sexual, conhecida como jugun ianfu, ou "mulheres de conforto" e Mariana e as suas amigas decidiram marcar-se como casadas, apesar de ainda serem solteiras. Isso salvou-as dos bordéis do Exército Imperial Japonês e de um sistema que arrastou entre 20 mil a 410 mil mulheres para uma indústria de guerra trágica e desumana, que até hoje assombra muitas nações asiáticas.

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As mulheres de Malaka mostram as suas mãos tatuadas. Estas seis mulheres estão entre as últimas sobreviventes da tradição.

“As tatuagens tornaram-se a arma definitiva para as mulheres enfrentarem os soldados japoneses”, conta Daniel. E sublinha: “Com as tatuagens nos seus corpos, os japoneses deixavam-nas em paz”. A prática de roubar mulheres em territórios ocupados para escravidão sexual tornou-se, supostamente, um padrão para evitar outro incidente internacional como o que aconteceu em 1937, quando tropas japonesas violaram e massacraram as pessoas de Nanquim, China, quando a cidade estava sitiada. Jornais do Mundo inteiro publicaram histórias sobre soldados japoneses a esfaquearem indiscriminadamente mulheres grávidas, a violarem 20 mil outras e a matarem entre 200 a 300 mil pessoas, numa onda de seis semanas de carnificina.

Depois disto, os líderes militares japoneses decidiram que permitir que os soldados tivessem acesso a mulheres de conforto evitaria um caso semelhante e as condenações internacionais que viriam com ele, confiando no cálculo cruel de que milhões de violações discretas era melhor que dezenas de milhares de violações públicas.

As forças japonesas assumiram o controlo da Indonésia de Março de 1942 até Setembro de 1945, quando a Guerra acabou. A ocupação tem um papel complicado na história indonésia, tão emaranhada com a história de independência da nação que é muito difícil separar as duas coisas. Quando os soldados japoneses chegaram à Indonésia, o país estava sob controlo colonial holandês. Quando os holandeses recuaram, os japoneses inicialmente foram vistos como libertadores de uma nação oprimida.

Mas, depois, a realidade dos tempos de guerra assentou. Alguns idosos hoje em cidades como Jacarta gostam de dizer que três anos sob domínio dos japoneses foi pior que mais de 300 sob domínio dos holandeses. Mas, a história é muito mais complexa. Foram os japoneses que ajudaram a atiçar o sentimento nacionalista da Indonésia durante aqueles anos de ocupação, até dando uma plataforma para o homem que mais tarde se tornaria o pai fundador do país – Sukarno.

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Maria Bita.

Mais tarde, investimentos japoneses ajudaram a jovem Indonésia a crescer para o que hoje é a 16ª maior economia do Mundo e a maior do Sudeste Asiático. Essa história complicada deixa o período da vida sob ocupação japonesa fora dos livros de história – incluindo a questão das "mulheres de conforto". Enquanto países por toda a região, como as Filipinas, Coreia do Sul e China, continuam a lidar com cicatrizes de uma política tão profundamente prejudicial, o governo indonésio, em grande parte, ignorou a questão, explica Winarta, director da organização Independent Legal Aid Institute (ILAI), que ajuda sobreviventes a contarem as suas histórias e a prepararem-se para processos legais exigindo reparações que não foram assumidas pelo governo indonésio.

“A Indonésia sempre tentou encobrir a história do jugun ianfu”, diz Winarta. E justifica: “A Indonésia não reconhece que o jugun ianfu existiu. Mas, provámos que existiu. Sabemos sobre a situação económica e política durante a Nova Ordem [do general Suharto] e quanto dependíamos das nossas relações económicas com o Japão. Manter relações com o Japão era mais importante que resolver o caso jugun ianfu, que eles achavam que poderia causar um problema diplomático”.

Em Malaka, a memória do que mulheres como Mariana fizeram está, também, prestes a morrer. Hoje, poucas mulheres que têm as tatuagens estão ainda vivas. Mulheres jovens em Malaka já não querem marcar a pele quando se casam. Parte da razão para isso é a marcha inevitável para a modernização que ocorre na Indonésia desde que o país conquistou a independência. Culturas indígenas por toda a nação estão lentamente a morrer, perdendo terreno para uma identidade nacional mais ampla, que passa como um rolo compressor por cima das tradições dos povos locais. “As meninas hoje já não se querem tatuar como as suas avós”, explica Daniel. E realça: “Elas preferem usar um anel ou um colar [para mostrar que são casadas]”.

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Maria Theresia Hoar.

No entanto, há outra razão, talvez mais importante, para as tatuagens estarem hoje a desaparecer em Malaka: a dor. Maria Theresia Hoar diz-me que as tatuagens eram algo que as mulheres tinham que suportar para manter as tradições da aldeia. “Dói”, afirma. E acrescenta: “Nem perguntes. Dói muito, mas eu queria casar-me, então tive de aguentar”.

“Amávamos as pessoas daqui”, acrescentou a sua amiga, Maria Bita. E continua: “Queríamos casar. Por isso, demos nossas pernas para serem tatuadas”. Esta é uma ideia a que sempre voltamos aqui na VICE Indonésia – o conceito de que tradição é algo a ser preservado e também algo que continua a um custo. A mesma equipa com quem eu estava em Malaka já explorou como uma tradição de noivas caras está a manter as mulheres solteiras por mais tempo em Sumba, como cerimónias de funeral extravagantes obrigam os indígenas a procurar trabalho fora das suas comunidades em Toraja e como festivais de circuncisão podem colocar um fardo financeiro em cima de uma família.

Uma e outra vez, somos confrontados com a realidade dos tipos de sacrifício necessários para manter uma tradição que, na maioria dos casos, está a desaparecer. Vale a pena preservar todas as tradições? Honestamente, não sei. Mas, depois de passar um tempo com as mulheres de Malaka, não consegui deixar de reparar na frequência com que a pressão e o peso de manter tradições recaem sobre os ombros das mulheres.

Hoje, as mulheres de Malaka já não se tatuam. Mas, também não correm o risco de serem raptadas e obrigadas a trabalhar num bordel. Enquanto nos preparávamos para ir embora, as palavras de Dominga Kehi, uma jovem que decidiu não se tatuar, ficaram-me na cabeça. “Elas eram fortes, aguentando a dor enquanto o corpo todo era tatuado”, diz Dominga. E salienta: “Elas sangravam muito. Na época, as nossas avós entendiam que as tatuagens eram uma forma de resistir aos japoneses. Mas, hoje, as pessoas encontraram formas menos dolorosas de mostrar que estão comprometidas”.

Há alguma justaposição melhor que esta? Comecei este artigo com as memórias de dor de Mariana, porque foi isto que ficou na mente de muitas destas mulheres. Isto porque, na época, no passado, nos dias sem dúvida mais sombrios, mulheres como Mariana estavam sobrecarregadas com uma tradição – e uma realidade quotidiana – que doía. E hoje, num país sem exércitos invasores e bordéis militares, um país com democracia e smartphones, esse tipo de dor já não é algo que as mulheres simplesmente tenham de aceitar. Não quero dizer que, hoje, vivemos num mundo sem dor, mas vivemos num país onde, pelo menos para a maioria, o que mais dói não tira sangue.


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