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Saúde

"Há vegans traumatizados e que precisam de ajuda", diz uma psicóloga vegan

Ser vegan​ é cada vez mais mainstream, mas a jornada de mudança dos hábitos alimentares não é agradável para toda a gente.

Por Jessica Brown; Traduzido por Madalena Maltez
20 Novembro 2018, 2:38pm

Activistas da PETA no Dia Mundial do Veganismo. Foto: Bettina Strenske/Alamy Live News.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

O Reino Unido está a viver um pleno despertar vegan. Um em cada oito britânicos identifica-se agora como vegan ou vegetariano; os supermercados estão a começar a responder à demanda (hoje em dia podes comprar hambúrgueres vegan em qualquer esquina); até o teu pai, apesar de relutante, sabe o que é um “estilo de vida baseado no consumo de plantas”; um homem recentemente teve de se demitir do emprego depois de fazer uma piada sobre caçar vegans por desporto: uma piadola que sempre foi maldosa, mas que há alguns anos atrás não se teria tornado manchete de jornal, muito menos uma série de notícias com direito a demissão e pedido público de desculpas.

Mas, à medida que ser vegan se torna cada vez mais mainstream, a jornada não é, aparentemente, tão "saborosa" para toda a gente. Descobrir os impactos da criação extensiva de animais e ter de conviver com pessoas que não partilham os teus novos valores pode ser um desafio - e não há muito apoio disponível para quem se vê nessa situação, diz a psicóloga vegan Clare Mann.


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Para saber mais sobre o assunto, conversei com Mann por telefone.

VICE: Como é que te tornaste uma psicóloga vegan?
Clare Mann: Sou psicóloga há 30 anos, mas passei da psicologia organizacional para a psicoterapia, de forma a tentar entender a condição humana e falar sobre a questão, sobre o propósito da vida. Tornei-me vegan há 10 anos e comecei a falar sobre direitos dos animais em palestras e festivais.

Quando é que percebeste que podias juntar as duas coisas?
Quando comecei a falar publicamente sobre a questão, gente de todo o Mundo começou a enviar-me mensagens sobre os desafios de ser vegan. Quando descobrem as coisas horríveis que os animais passam nos matadouros, ficam horrorizadas. As pessoas diziam-me que precisavam de falar com alguém, portanto comecei a oferecer consultas pessoalmente em Sydney, Austrália, e por Skype a nível global.

Quais são os temas mais comuns?
Vejo sinais típicos de trauma. As pessoas têm medo do Mundo, porque descobrem a omnipresença da crueldade com os animais e não conseguem acreditar que seres humanos possam fazer tal coisa. Há também relações que acabam quando as pessoas descobrem que não conseguem aceitar um parceiro que come carne, ou amigos que põem leite no chá.

Com o veganismo, se a outra pessoa não muda, acaba por, também, ser parte do problema. Não podes lavar as mãos numa casa-de-banho, nem vestir uma camisola de lã sem estares a contribuir para a crueldade animal, a menos que tomes medidas para não fazer parte disso. É um desafio para muitos vegans. Também vejo pessoas que se empenharam em activismo animal, que podem ter entrado em matadouros ou feito trabalhos de câmara escondida, que testemunharam a crueldade contra os animais em primeira mão.

Como é que ajudas as pessoas a lidarem com isso?

Se a pessoa chega com depressão ou ansiedade, investigo para saber exactamente qual é o motivo. E quando este surge, geralmente, tem a ver com auto-estima ou problemas no trabalho. Passo pelos caminhos normais para lidar com luto e depressão, ajudando as pessoas a aumentarem a sua auto-consciência e perceberem que não estão à mercê do Mundo. Estão a reagir ao que viram e podem decidir como vão responder. Podem tornar-se mais empoderadas. Digo sempre que, se te tornares num bom comunicador em vez de quereres dar lições de moral, verás que a maioria das pessoas é bastante razoável e vais sair de todas as conversas a perceber que os outros sentem compaixão.

Essa ansiedade e depressão podem tornar-se sérias?
Geralmente, isto torna-se um tipo de misantropia. Levei a cabo cerca de mil e 300 entrevistas com vegans de todo o Mundo e, honestamente, fico surpreendida por não haver mais casos de suicídio. Ouço muitos vegans dizerem que se querem matar, mas não querem deixar os animais para trás.

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Foto: Penelope Barritt / Alamy Stock Photo

Como é que aconselhas os vegans a falar com amigos e família, especialmente se o facto de essas pessoas mais próximas continuarem a consumir carne os irrita?
Aconselho as pessoas a desenvolverem as suas capacidades de comunicação a um nível em que são convidadas para a conversa, para fazer as pessoas entenderem as mentiras que sempre ouviram sobre a criação de animais. Se consegues começar um diálogo e ver que pessoas se interessam e quais as dúvidas que têm, podes tentar levar a tua mensagem adiante com vídeos e documentários – são ferramentas que fazem o trabalho por ti. As pessoas geralmente resistem e pedem provas.

O que faz com que algumas pessoas queiram ser vegans e outras não, se tivermos em conta que toda a gente é relativamente bem informada sobre o que acontece nas quintas agrícolas de produção industrial, por exemplo?
É preciso ser uma pessoa forte para viver com a angústia existencial, sabendo que não pode confiar em organizações importantes, por isso é que tantas pessoas resistem à mensagem do veganismo. E algumas pessoas estão mais em contacto com as suas emoções – os vegans costumam ser mais do tipo “emotivo”, gente que percebe o Mundo e toma decisões de acordo com valores, significados e com a forma como se sentem; em vez do tipo “pensador”, cujas preferências para tomar decisões são mais lógicas. A maioria das pessoas sabe que há algo errado, mas preferem não ter que sentir a dor da situação.

Com cada vez mais gente a tornar-se vegan, porque é que há tão poucos terapeutas vegans?
Há muitos psicólogos vegans por aí, mas não usam esse termo. Alguns temem que outros profissionais achem que estão a pôr a sua ética de lado, apesar de haver terapeutas cristãos, por exemplo. A diferença comigo é que sou uma palestrante conhecida da área e deixo claros os meus valores , enquanto outros terapeutas vegans são mais jovens e não trabalham em consultórios particulares, portanto têm medo de perder o emprego.

Gostarias que houvesse mais pessoas como tu?
Sim, o meu objectivo é encontrar e incentivar mais pessoas a fazerem isto, porque os vegans não querem um terapeuta que não seja vegan. Se alguém procura um psicólogo normal, a pessoa não espera que o médico se torne gay para a compreender, por exemplo, mas com o veganismo é diferente; os vegans acham que a falta de acção dessa pessoa contribui para o problema.


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