Saúde

Vegans estão traumatizados e precisam de ajuda, diz psicóloga vegan

Ser vegan​ é cada vez mais mainstream, mas essa jornada aparentemente não é tão palatável pra todo mundo.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor
Vegans protestando
Ativistas do PETA no Dia Mundial do Veganismo. Foto: Bettina Strenske/Alamy Live News.

Estamos no meio do grande despertar vegan no Reino Unido. Um em cada oito britânicos agora se identifica como vegan ou vegetariano; supermercados estão começando a atender a demanda (hoje você pode comprar hambúrguer vegan até na esquina); seu pai, mesmo relutante, sabe o que é um “estilo de vida baseado em plantas”; um cara recentemente teve que se demitir do trabalho depois de fazer piada sobre caçar vegans por esporte: uma piadinha que sempre foi escrota, mas que alguns anos atrás não teria virado manchete, muito menos uma série de notícias com direito a demissão e pedido público de desculpa.

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Enquanto ser vegan é cada vez mais mainstream, essa jornada aparentemente não é tão palatável pra todo mundo. Descobrir os impactos da criação extensiva de animais e ter que conviver com pessoas que não compartilham seus novos valores pode ser um desafio, e não tem muito apoio disponível para quem se vê nessa situação, diz a psicóloga vegan Clare Mann.

Para saber mais sobre o assunto, bati um papo com a Mann por telefone.

VICE: Como você acabou se tornando uma psicóloga vegan?
Clare Mann: Sou psicóloga há 30 anos, mas passei de psicologia organizacional para psicoterapia para tentar entender a condição humana e falar sobre a questão, sobre o propósito da vida. Me tornei vegan 10 anos atrás e comecei a falar sobre direitos animais em palestras e festivais.

Quando você percebeu que podia juntar as duas coisas?
Quando comecei a falar publicamente sobre a questão, pessoas do mundo todo começaram a me mandar mensagens sobre os desafios de ser vegan. Quando elas descobrem as coisas horríveis que os animais passam nos matadouros, elas ficam horrorizadas. As pessoas dizem que precisavam falar com alguém, então comecei a oferecer consultas pessoalmente em Sydney, Austrália, e por Skype para o resto do mundo.

Quais são as questões mais comuns sobre as quais as pessoas falam com você?
Vejo sinais típicos de trauma. As pessoas ficam com medo do mundo porque descobrem sobre a onipresença da crueldade com os animais, e não conseguem acreditar que humanos possam fazer isso.

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"Ouço muitos vegans dizerem que querem se matar, mas não querem deixar os animais para trás"

Relacionamentos também podem acabar quando as pessoas descobrem que não conseguem aceitar um marido que come carne ou amigos que colocam leite no chá. Com o veganismo, se a outra pessoa não muda, ela acaba sendo parte do problema. Você não pode lavar as mãos num banheiro e vestir um suéter de lã sem contribuir com a crueldade animal, a menos que tome passos para não ser parte disso. Um desafio para muitos vegans.

Também vejo pessoas que trabalharam com ativismo animal, que podem ter entrado em matadouros ou feito trabalho de câmera escondida, que testemunharam a crueldade contra os animais em primeira mão.

Parece bem traumático mesmo. Como você ajuda as pessoas a lidar com isso?
Se a pessoa chega com depressão ou ansiedade, investigo para saber exatamente qual o motivo. E quando ele surge, geralmente, tem a ver com autoestima ou problemas no trabalho. Passo pelas rotas normais para lidar com luto e depressão, ajudando as pessoas a aumentar sua autoconsciência e perceberem que não estão à mercê do mundo. Elas estão reagindo ao que viram, e decidem como vão responder. Elas podem se tornar mais empoderadas.

Digo que se você se tornar um bom comunicador em vez de querer dar lição de moral, a maioria das pessoas é bastante razoável e você vai sair de toda conversa sabendo que estendeu a compaixão dos outros.

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Essa ansiedade e depressão podem se tornar sérias?
Isso geralmente se torna um tipo de misantropia. Conduzi por volta de 1.300 entrevistas com vegans do mundo inteiro e, honestamente, fico surpresa por não haver mais casos de suicídio. Ouço muitos vegans dizerem que querem se matar, mas não querem deixar os animais para trás.

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Foto: Penelope Barritt / Alamy Stock Photo

Como você aconselha os vegans a falar com amigos e família, especialmente se o fato deles continuarem consumindo carne os irrita?
Aconselho as pessoas a desenvolver suas habilidades de comunicação até um nível em que são convidadas para a conversa, para fazer as pessoas entenderem as mentiras que sempre ouviram sobre a criação de animais. Se você consegue começar um diálogo e ver que pessoas se interessam e quais as dúvidas delas, aí você pode tentar levar sua mensagem adiante com vídeos e documentários – eles fazem o trabalho pra você. As pessoas geralmente resistem e pedem provas.

"Os vegans não querem um terapeuta que não seja vegan"

O que faz algumas pessoas quererem ser vegans e outras não, se consideramos que todo mundo é relativamente bem informado sobre o que acontece nas fazendas industriais?
É preciso uma pessoa forte para viver com angústia existencial, sabendo que não pode confiar em organizações importantes, então muita gente resiste à mensagem do veganismo. E algumas pessoas estão mais em contato com suas emoções – vegans costumam ser tipos mais “emotivos”, que percebem o mundo e tomam decisões de acordo com valores, significados e como se sentem; em vez do tipo “pensadores”, cujas preferências para tomada de decisão são mais lógicas. A maioria das pessoas sabe que tem algo errado, mas o limiar delas para sentir a dor disso é demais.

Com cada vez mais gente se tornando vegan, por que há tão poucos terapeutas vegans?
Há muitos psicólogos vegans por aí, mas eles não usam esse termo. Alguns temem que outros profissionais achem que eles estão colocando sua ética de lado, mesmo tendo terapeutas cristãos, por exemplo. A diferença comigo é que sou uma palestrante conhecida da área, e deixo meus valores claros, enquanto outros terapeutas vegans são mais jovens e não trabalham em consultórios particulares, então têm medo de perder o emprego.

Você gostaria que houvesse mais pessoas como você?
Sim – meu objetivo é encontrar e incentivar mais pessoas a fazer isso, porque os vegans não querem um terapeuta que não seja vegan. Se alguém procura um psicólogo normal, a pessoa não espera que o médico se torne gay para entendê-la, mas com o veganismo é diferente; os vegans acham que a falta de ação dessa pessoa contribui para o problema.

@jessica_e_brown

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