Cultura

O brasileiro Ariel Barbeiro aprendeu na prisão o futuro do corte de cabelo das periferias

Hoje é um fenómeno na Internet, mas teve de passar por vários "apertos" no sistema prisional até encontrar a técnica do "cabelo blindado".

Por Julia Reis
17 Dezembro 2018, 7:41pm

Ariel Barbeiro, ao meio. Foto: Larissa Zaidan/VICE Brasil

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Na terceira cadeira de um salão localizado no piso térreo de uma casa na Vila Brasilândia, zona norte de São Paulo, Dom Pedro cortava o cabelo e refrescava-se num dia em que a sensação térmica apontava para os 30 graus.

Pelo menos uma vez por mês, ele senta-se num assento estofado de cabedal vermelho. Coloca uma capa preta sobre a roupa para proteção e atentamente vê o barbeiro montar o corte que mais parece uma coroa - o "blindado".

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Foto: Larissa Zaidan/VICE Brasil

O esquema é simples: dégradé na régua, um risquinho ao lado, um pente e três latas de tinta lavável, daquelas de carnaval e festas de criança. Por 80 reais [cerca de 18 euros], o jovem de 11 anos sai da barbearia no estilo e pronto para chamar a atenção na escola.

Dom Pedro é só um entre um grande número de putos que Ariel Franco conquistou. A demanda é tal que o barbeiro teve que mudar de local. “Quando aqui cheguei, via-se o tijolo e era só reboco nas paredes”, recorda. E acrescenta: “Fiz esta decoração à pressa e para o ano quero acertar tudo direitinho”.

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Dom Pedro. Foto: Larissa Zaidan/VICE Brasil

Depois de criar um perfil no Instagram para promover os seus cortes e a técnica do "blindado", conquistou dois patrocinadores americanos, visibilidade e 102 mil seguidores ao redor do Mundo.

“Há quatro anos nem imaginava que ia viver isto que estou a viver”, conta Ariel. Em 2014, estava no Centro de Detenção Provisória de Vila Independência a cumprir pena por tráfico. O símbolo de silêncio que faz no final de cada vídeo é para todas as pessoas que não acreditaram na sua caminhada até aqui. “É um sinal para toda a gente que duvidou, porque eu contrariei as estatísticas”, explica.

Tráfico, prisão e solitária: a caminhada até à barbearia

Ele foi o primeiro dos cinco irmãos que Dona Neuza e Seu Genario tiveram no Jardim Carombé, também na zona norte de São Paulo. Enquanto o seu pai trabalhava no ramo da segurança, Neuza dedicava a vida a cuidar da casa, dos filhos e das maçãs do amor que fazia todos os fins de tarde.

Num desses finais de tarde, quando Franco tinha sete anos, ela cobriu as maçãs, cravadas no espeto de madeira, com caramelo claro e entregou ao filho. Ele pegou no presente, foi para a rua e vendeu-as. Quando voltou para casa, deu o dinheiro à mãe e fez um pedido: “Mãe, faz o seguinte: faz-me umas maçãs do amor. Podes fazer?”. Ela assim fez. E ele vendeu tudo.

Dos sete aos 13 anos, viveu muito na rua e pelas "quebradas" perto de casa. Quando tinha 14, acabou por se envolver com o tráfico. Trocou os gelados e as maçãs do amor por uma arma, dinheiro, mota e alguns contactos. Quando tinha 19 anos e estava no auge do crime, foi apanhado pelos polícias durante uma acção e passou dois anos dentro de um presídio.

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Ariel no meio da miudagem. Foto: Larissa Zaidan/VICE Brasil

Foi só lá dentro que Ariel conheceu a barbearia e começou a praticar. “Estava com a mente a mil e muito revoltado. Foi então que um amigo meu disse: ‘Já estás há tanto tempo aí, porque é que não cortas o cabelo para relaxares?’ Comecei a cortar e acabei por me identificar”.

Depois de se meter numa confusão e passar 15 dias na solitária à espera de uma transferência para a Penitenciária de Segurança Máxima de Presidente Venceslau, pediu piedade às forças divinas. Prometeu que não voltaria ao mundo do crime e que se dedicaria à barbearia. Ao mesmo tempo, o juiz reviu o caso e teve em conta o seu bom comportamento durante todo esse período.


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“Eu saí dia 24 de Novembro e, no dia seguinte, lembrei-me de um amigo que tinha uma máquina de cabelo e pedi-lha emprestada”, conta. Dalí em diante, foi só progresso. Começou a cortar dentro de casa, mudou-se para um lugar maior, conheceu a amiga que a sua mãe fez na fila do presídio, casou-se com ela e hoje tem duas filhas.

Foi perto da comunidade do Inferninho, na Brasilândia mesmo, que Ariel alugou uma parte de uma casa relativamente grande e remendou toda a parede com desenhos a simularem fileiras de tijolos. Arrumou todo o lugar, pendurou os seus sete certificados e ajeitou três espelhos e três cadeiras ao lado de um sofá onde os clientes esperam.

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Foto: Larissa Zaidan/VICE Brasil

Na barbearia, conta com mais duas pessoas. Bruno Aparecido Barbosa, 22, que já está com ele há dois anos, viu que tinha uma vaga aberta no antigo salão de Ariel e deixou de trabalhar ao domicílio e sozinho para aprender com Franco.

O funcionário recém-chegado, César Martins, 30, saiu de Ilha Comprida, litoral de São Paulo, há dois meses. Despediu-se da sua mulher e do seu filho com um “até logo” só para poder trabalhar ao lado do barbeiro da Brasilândia. Assim que conseguiu conquistar um dinheiro extra, levou os dois para a capital e, hoje, mora perto do salão. Os dois têm a possibilidade que muitos barbeiros do Brasil queriam ter.

A arte do corte

Ariel está com a agenda fechada até Abril, com viagens para o Chile, Argentina, Itália e vários outros sítios na América Latina.

Já apaixonado pelo mundo da barbearia e louco para criar algo que nunca tinha visto antes, começou a estudar e a praticar nos seus clientes novos cortes e tendências em ascensão no mundo da moda. Foi então que descobriu o corte “Pombadour”.

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Foto: Larissa Zaidan/VICE Brasil

A popa estilo Elvis, que estourou em 2016, começou a ser pedida pela clientela, que ficou frustrada pela pouca durabilidade do penteado. Assim, Ariel conseguiu desenvolver um estilo que pudesse durar até uma semana e meia intacto. E como para ele “tudo o que tem cor é arte”, adicionou cores fortes em graduação e entrou na febre de todo o complexo da Brasilândia.

“No bailão tá a milhão!”, responde Ariel, quando pergunto sobre o sucesso que está a fazer. “Às vezes vou ao shopping, ao supermercado e há pessoas que reconhecem. Já houve gente que me pediu autógrafo e nunca imaginei isso”.

O "rei das mechas", como lhe chamam os fãs, não quer parar por aqui. Quer bater um milhão de seguidores no Instagram, ser embaixador de marcas internacionais e abrir um franchising usando a sua imagem. Enquanto Laís, a sua esposa, faz a sua agenda e cumpre o papel de assessora, Ariel vai a reuniões, grava vídeos para o Instagram e ambos aprendem na raça como é caminhar para uma carreira de sucesso e de influenciador digital.

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Foto: Larissa Zaidan/VICE Brasil
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Foto: Larissa Zaidan/VICE Brasil

“Toda a gente vai atrás de mim, tal como vocês vieram. E a gente vai aprendendo como fazer as coisas. Tudo há que experimentar.” Ariel já colocou forno eléctrico, martelo do Thor e até uma moto em cima da cabeça dos seus clientes para provar que o seu corte é intacto e mesmo diferenciado. E, hoje fazendo, sucesso pelas "quebradas" e bailes em São Paulo, roda o mundo para levar aos "gringos" a essência dos cortes "chavosos" brasileiros.


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