Esta é a maneira certa de falar sobre o desenvolvimento de África

A Africa Summit da LSE acolheu uma variedade de especialistas de todo o Continente africano para discutirem o seu futuro.

Por Jason Okundaye; fotos por Alex Rorison; Traduzido por Madalena Maltez
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07 Maio 2019, 3:11pm

Todas as fotos por Alex Rorison.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Para entender melhor como enquadramos o diálogo sobre a história e o futuro de África, temos primeiro que reconhecer quem pode contar a história do Continente. Recentemente, estive na sexta edição da Africa Summit, organizada pela London School of Economics (LSE). Um evento repleto de visões informadas sobre as “fronteiras do futuro” de África, com a presença de uma diversificada colecção de académicos, activistas, artistas e empreendedores africanos que passaram dois dias a mapear um futuro amplo para um continente diverso de 54 países e 1,3 mil milhões de pessoas.

O público era formado principalmente por estudantes negros, ávidos por interagirem com os oradores e participantes dos painéis, que mergulharam em debates e questões críticas. Desde discussões sobre o império do cinema Nollywood da Nigéria e a Netflix, até ao empoderamento de África através da energia renovável, a cúpula e a variedade de tópicos abordados foi diferente de qualquer coisa a que já assisti. O evento esteve muito longe do debate público simplista das últimas semanas, focado em “salvadores brancos”, as suas peregrinações por África e o direito a decorarem os seus Instagrams com fotos de crianças negras aleatórias.

Ainda assim, também não deixou de se lembrar que os governos ocidentais ainda têm muito poder sobre quem tem ou não acesso para liderar este tipo de plataformas de discussão. Na abertura dos trabalhos, o professor Tim Allen, director do Firoz Lalji Centre for Africa do LSE, apontou que cerca de 25 dos investigadores que tinha convidado para o evento – como oradores, e figuras centrais para debates – tiveram os vistos recusados para entrar no Reino Unido.

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Muitas pessoas ainda acreditam nas imagens estereotipadas da África corrupta, doente e devastada pela guerra, as favoritas de organizações como a Comic Relief e os seus filantropos de redes sociais; sendo a mensagem subjacente que esses pobres africanos deviam estar gratos pela generosidade do mundo ocidental.

Mas, o problema é que essas narrativas sobre África não só nos levam de volta a visões datadas, como a da capa “Continente sem Esperança”, da The Economist, de Maio de 2000, como também apagam a forma como os próprios africanos estão a fazer um trabalho incrível ao lidarem com os desafios sociais, políticos e económicos dos dias de hoje.

O desejo dos africanos de moldarem e controlarem a história única dos seus respectivos países, não é uma questão de esconder os problemas do Continente, mas sim de reconhecer que as soluções não podem ser reduzidas apenas a aliviar a pobreza e que é preciso que aqueles que realmente sabem do que falam conduzam as reformas internas.

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Ismail Ahmed, fundador e presidente-executivo da organização de transferência de dinheiro WorldRemit, forneceu a nota-chave de abertura da cúpula, relatando como a Somalilândia se está a tornar numa “sociedade sem moeda”. A Somalilândia declarou independência da Somália no começo da guerra civil em 1991, mas só é reconhecida pela comunidade internacional como uma região autónoma da Somália, não como um estado próprio.

Sem um sistema bancário formal e a emergir de uma rebelião separatista, a Somalilândia – pelos padrões ocidentais – parece um candidato perfeito para a “libertação” externa. Mas, Ahmed explicou que, através da inovação dos somalilandenses, em resposta a esses desafios, estão a ser criados serviços de dinheiro móvel de vanguarda, que começaram com o lançamento em 2009 do Zaad pela operadora de rede móvel Telesom.

Antes do dinheiro móvel, o PIB da Somalilândia era 100 por cento moeda real, com as pessoas a terem que carregar mochilas cheias de notas de papel para, por exemplo, irem ao mercado devido ao baixo valor do dinheiro. Agora, com a disseminação rápida do dinheiro móvel, os somalilandenses estão instantaneamente a adquirir, vender, enviar e a receber dinheiro internacionalmente, de uma forma que antes não era realista. Ahmed acredita que “o futuro de África é promissor e sem moeda”, com o dinheiro móvel a transformar rapidamente economias locais.

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Ismail Ahmed.

O painel “Money Matters” cobriu a questão da inclusão e exclusão financeira em África. A realidade é que milhões de pessoas do Continente não têm acesso a serviços financeiros. Mas, reforçando a conclusão de Ahmed, o painel reiterou o papel que a tecnologia pode ter ao desenvolver mecanismos financeiros mais acessíveis e amplos para indivíduos e negócios. Dinheiro móvel, que é usado por cerca de 21 por cento dos adultos por todo o Continente, tem tido sucesso onde bancos mais tradicionais falharam em simplificar os seus serviços. Como o orador Segun Agbaje – CEO do Guaranty Trust Bank da Nigéria – disse, a exclusão financeira está profundamente ligada à marginalização, já que “não é uma questão de contas bancárias, mas da capacidade de funcionar como um membro da sociedade”.

Queria saber mais sobre o impacto diferente entre géneros decorrente da exclusão financeira e como isso está a ser resolvido, portanto falei com uma das participantes e alto quadro do Access Bank Ghana, Matilda Asante-Asiedu, para lhe perguntar sobre a iniciativa “W” do seu banco. Segundo o Banco Mundial, as mulheres do Gana têm menos acesso a serviços financeiros do que os homens do país. Matilda diz-me que a iniciativa “W” responde a essa desigualdade, focando-se em desenvolver alfabetização financeira às ganesas, fornecendo educação, workshops e consultoria para a fundação de negócios.

Apesar da desigualdade no acesso a serviços, Asante-Asiedu explica que as “mulheres de África são muito empreendedoras”, referindo-se a um estudo recente que descobriu que 46 por cento dos pequenos e médios negócios no Gana são propriedade de mulheres, a maior percentagem do Mundo.

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Matilda Asante-Asiedu.

Para saber mais sobre essa visão diversa do futuro de África e como essas narrativas são controladas, conversei ainda com outros três oradores: o professor de empreendedorismo da Universidade de Nairóbi, Bitange Ndemo, o músico Fuse ODG e a activista de género e parceira da LSE Atlantic, Tanya Charles.

Ndemo tem uma visão empolgante sobre o uso de inteligência artificial em África para adaptar diferentes estilos de aprendizagem nas escolas, particularmente para crianças com autismo, TDA, dislexia e dispraxia. Lembrei-me do meu tio, que só foi diagnosticado com dislexia 20 anos depois de sair da Nigéria para estudar no Reino Unido e imaginei como o desenvolvimento da IA em África poderia ajudar crianças que, geralmente, são excluídas das salas de aula. Ndemo diz que essa questão está intimamente ligada a problemas de comunicação entre diferentes dialectos locais e as línguas nacionais mais formais que as nações adoptaram dos seus países coloniais.

“A IA é uma nova tecnologia maravilhosa para a África atingir o mesmo patamar, especialmente no que diz respeito a problemas de linguagem”, avança o especialista. E realça: “Precisamos de treinar os jovens para aprenderem os sistemas que entendem linguagens locais, para ajudar a criar conceitos que melhorem a comunicação das pessoas. As nossas línguas são muito dinâmicas – quando novas palavras surgem, elas não têm a hipótese de serem traduzidas para as línguas locais”.

Ndemo usa o exemplo do conceito de “break-even-point” [ponto de equilíbrio], em que o total da receita é igual ao total de gastos. É um conceito que não se traduz de uma forma que possa ser entendida num dialeto local, por isso muita gente acharia difícil entendê-lo. “Mas, precisas de entender esse conceito para fazer negócios”, justifica. Parece, portanto, que as Inteligências Artificiais têm potencial para transformar métodos de comunicação e podem ser a chave para oferecer uma educação mais inclusiva.

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A actriz Genevieve Nnaji (à direita).
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Mais tarde, Fuse ODG explicou a sua frustração com organizações que apresentam imagens totalmente negativas de África. Em 2014, o músico foi convidado ,mas recusou-se a contribuir para o o revival do Band Aid de Bob Geldof: “Não podia fazer parte daquilo, porque eles estavam a reforçar a narrativa de África como um lugar totalmente miserável, com toda a gente a morrer”. Fuse sublinha que essas imagens negam a África a oportunidade de se envolver em investimentos sérios. “Se continuarmos a incentivar essa imagem negativa e a fazer de África um caso de caridade, só vamos conseguir duas libras ou dois dólares – isso não é suficiente”.

Fuse também tinha um conselho para o que os ocidentais podem fazer para se envolverem em África, dizendo que antes de tentarem abordar uma questão “deveriam procurar africanos reais, que já estão a fazer o mesmo lá e trabalhar com eles”. O artista dá crédito, por exemplo, a Ed Sheeran, que investiu na escola que montou no Gana. E salienta: “A forma como ele trabalha no Gana é muito verdadeira, porque está a trabalhar comigo e eu sei como é que estas coisas devem ser feitas”.

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Fuse ODG.

Tanya Charles concorda: “Estamos sempre a ter a mesma conversa, porque o dinheiro se concentra em torno dessas pessoas e elas continuam a ser vistas como as autoridades em questões que são, essencialmente, africanas, quando deveriam estar a voltar-se para África para realmente perguntarem e verem o que está a acontecer, ver que soluções já estamos a desenvolver sozinhos”.

O problema de não-africanos controlarem a narrativa de África não é apenas o facto de isso ser condescendente ou incorrecto, mas também pode ter consequências perigosas. Enquanto homem gay da África Ocidental, muitas vezes sinto-me frustrado com a intervenção ocidental nos direitos LGBTQ africanos.

Em 2007, um grupo pan-africano de direitos humanos LGBTQ condenou o activista Peter Tatchell e a Outrage! numa carta aberta, por colocar africanos LGBTQ em perigo ao não consultarem activistas locais e exagerarem as violações do governo: “Não apreciamos ou aceitamos os esforços de indivíduos ou organização ocidentais que transformam o nosso trabalho de libertação numa campanha publicitária de ego para si mesmos”, dizia a declaração.

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Um painel a discutir a diáspora africana.

Falei com Tanya sobre essa questão e sobre o facto de o governo dinamarquês sancionar a Tanzânia por comentários homofóbicos por parte de um embaixador. “Essas sanções acabam por punir as pessoas mais vulneráveis, por isso considero-as ferramentas ineficazes”, diz-me Tanya. Activistas LGBTQ africanos têm argumentado que as sanções dinamarquesas tornam os tanzanianos LGBTQ alvos fáceis, aumentando o risco de violência contra eles.

“O que precisamos de fazer é trabalhar com os nossos políticos, fazer algo básico como falar sobre as instituições que nos colocam como parte de ideias muito estreitas sobre o que significa ser homem ou mulher”, explica Tanya.

Espaços como a LSE Africa Summit continuam, por isso, a ser vitais para apresentar as melhores mentes a um público mais alargado– pelo menos, para aqueles que tiveram permissão para passar a fronteira britânica. Quanto mais ouvia cada painel e orador, mais ridícula me parecia a percepção dominante sobre África no Reino Unido e em grande parte do mundo ocidental, influenciada mais por pessoas de fora das indústrias de desenvolvimento e da televisão do que pelos próprios africanos.

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Ozwald Boateng.

Como o estudante de economia da LSE de 30 anos Michael Lemoru salienta: “Participei em todas as cúpulas nos últimos anos e o calibre das discussões e diálogos supera sempre o do ano anterior. Uma citação de Kemiyondo Coutinho, 'Se não contares tu a tua história, outra pessoa o irá fazer', mostra a importância de sermos verdadeiros sobre a nossa cultura e tomarmos o controlo da narrativa africana”.

O problema das narrativas africanas serem controladas por “libertadores” não-africanos vai além da simples vergonha alheia e informações incorrectas e está intrinsecamente ligado à tentativa ocidental de dominação social, política e económica do Continente. O controlo da narrativa, convida a acções e respostas baseadas em percepções falsas. Isso significa mais interferência e mais filantropia inútil, quando o que os africanos querem é colaboração e investimentos genuínos. Se queres falar sobre a história e o futuro de África e chegar a soluções para as questões actuais e históricas do Continente, precisas de envolver africanos nessas conversas e estar preparado para os deixares guiar-te a pessoas, lugares e ideias que nunca achaste que existissem.


Jason Okundaye / Alex Rorison

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