Cultura

Uma jornada pela arte radical criada por sobreviventes de lesões cerebrais

Uma pequena comunidade de artistas de Londres está a reformular uma questão antiga: porque é que criamos?

Por Joe Zadeh; fotos por Chris Bethel; Traduzido por Sérgio Felizardo
11 Março 2019, 4:51pm

À esquerda, Jason Ferry. À direita, a sua obra "Swollen" (2017).

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

São músicos, poetas, xadrezistas e chefs. Alguns jogam snooker e outros falam sobre as notícias; há o grupo de palavras-cruzadas, os fumadores, cantores e dançarinos; os escritores, o grupo de yoga e o pessoal da jardinagem. Carol é a poeta local; curte horóscopos. Aquário? “Educado, arrumado e limpo”, diz Carol. E assegura: “Gosta de gastar”. Há uma senhora que gosta de se sentar lá fora para observar os patos no canal. E há o estúdio de arte, cheio de pintores, escultores, desenhadores, fotógrafos e artesãos. Encontras esta pequena, mas prolífica, comunidade por detrás de um portão de ferro de uma rua movimentada de Londres. É o Headway East London e toda a gente ali sofreu uma lesão cerebral que mudou a sua vida.

Matthew teve um quisto no terceiro ventrículo. Mahmood foi atacado por um gang de miúdos quando saía do trabalho. Mike, Trudy, Witman e Billy sobreviveram a derrames. Brian foi atropelado por um camião quando seguia na sua mota. Matthew foi atropelado por um carro ao atravessar a rua. Sarah foi assaltada por alguém que queria a sua carteira. Lina teve uma hemorragia cerebral na casa-de-banho de um Buger King. Danny foi espancado numa discoteca. Sam sofreu um acidente de carro. Tal como Nifty.


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“Aqui, a energia motivadora é aceitar o que não podes mudar”, explica o funcionário Ben Platts durante uma conversa no jardim. E acrescenta: “É aceitar a perda e o caos trazidos pela lesão cerebral, depois decidir olhar para o futuro a partir disso. Certo, nada mais faz sentido: Como é que te podes divertir? Quem queres ser?”.

O estúdio de arte abre às 9h00. Os membros entram e ocupam os seus lugares; alguns vão em cadeiras de rodas, outros usam bengalas. Às 11h00 o lugar está a fervilhar. Esculturas secam à frente de ventiladores, portfólios enormes de trabalhos são empilhados nas prateleiras de madeira e há pilhas de cerâmicas nas mesas. Pinturas cobrem as paredes e estão penduradas no tecto com linhas de pesca, criaturas colossais de mosaicos coloridos surgem de cantos escuros. Num deles há um elefante, no outro uma girafa. As palavras “DESCOBERTA ATRAVÉS DA ARTE” estão coladas acima de uma pia respingada de tinta, moldes de gesso secam ao lado do aquecedor eléctrico. “What's Going On?”, de Marvin Gaye toca sai de uma coluna de som a um canto.

Daniel pergunta-se sempre porque está aqui: “O que me aconteceu? Matei alguém? Estou a fugir?”. Geralmente, senta-se e desenha algo em troca de um cigarro e uma chávena de chá. Lynda sente uma felicidade residual depois de um dia no estúdio, mesmo não se lembrando de lá ter estado. Ela tem dificuldade em terminar trabalhos, porque esquece-se da ideia que teve quando começou. Mas, às vezes desenha algo que a transporta para um momento de há 20 anos, como se fosse um "wormhole".


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Arte não é algo fácil para David. A sua cadeira de rodas tem de ser posicionada com exactidão, o papel tem de ser colado na mesa, alguém tem de tirar a tampa da caneta preta e colocar-lha na mão. Ele escreve quintilhas e histórias, mas principalmente desenha animais: um cão boxer a prestar atenção, uma ovelha com a língua de fora, cavalos a galope, a trote ou deitados num campo. Num desenho, um jóquei no cavalo grita “HÁ” enquanto passa a gritar pela tela. David tem problemas de fala e a conversa é difícil, mas olhando para os seus desenhos tens um vislumbre da sua personalidade: a sua infância numa quinta, as suas frustrações pessoais (às vezes escreve “errado” ou “merda” por cima das suas obras) e o seu rude sentido de humor. Muitos dos seus animais têm uma longa pila a pingar; se lhe perguntares sobre isso, ele diz que é um rabo, mesmo quando o animal claramente já tem um.

Alguns membros pintam calmamente em cavaletes, outros socializam nas mesas enquanto desenham. Nas manhãs mais movimentadas, sentes uma onda palpável de magnetismo que te atrai e te deixa a pensar porque é que não pegas num pincel desde a escola primária. “Há aqui uma corrente de energia que flui”, diz Michelle, que começou a trabalhar como voluntária há 15 anos e nunca mais parou. Há um botão prateado na parede; dizem-me para tocar se alguém tiver uma convulsão, anotar a hora e depois ajudar a escoltar os outros membros em segurança para fora do salão.

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À esquerda, Tony, um artista do Headway East London. À direita, a sua obra "I Can’t Remember Fuck All".

Tony veste uma camisola gasta do Arsenal e um boné e, geralmente, pendura um hoodie pelo capuz atrás da cabeça, “para não o perder”. Gosta de criar enormes slogans caleidoscópicos, enquanto canta Bruce Springsteen. Numa das suas obras mais famosas lê-se “I CAN'T REMEMBER FUCK ALL”, outra “SUBMIT TO LOVE”. Esta última é tão popular que se tornou o nome oficial do estúdio: Submit to Love Studios. Estão a pensar fazer um livro só com as obras de Tony. Uma vez, desapareceu durante uma semana e foi encontrado no banco de um parque, todo queimado do sol.

Todas as semanas, os artistas criam uma variedade de obras individuais e colaborativas. Já fizeram exposições em grupo e individuais em galerias por toda a Londres (incluindo a Southbank Gallery), vão dar um workshop no Barbican Centre nos próximos meses e, todos os anos, os trabalhos terminados são vendidos por milhares de libras. Uma das suas maiores colaborações está pendurada na sede do Royal Bank of Scotland, em Londres. Quase nenhum membro tinha criado arte depois da infância até chegar aqui.

Ao fundo do estúdio encontro Stephen Staunton, um irlandês de uns 60 anos, conhecido por alguns dos colegas simplesmente como Staunton (uma referência em jeito de piada a grandes nomes como Picasso ou Caravaggio). É surdo e raramente fala ou usa sinais formais, preferindo comunicar-se por gestos e palavras isoladas. Se tiveres barba ou estiveres a usar umas calças sujas, faz-te um gesto de desaprovação com o dedo para baixo. Desde que aqui chegou desenvolveu uma tendência prolífica por pinturas abstratas vibrantes. Os polígonos são a sua obsessão artística; quadriláteros, para ser mais preciso. Senta-SE com um lápis, desenha redes elaboradas em grandes pedaços de papel e começa a preencher as formas com tintas acrílicas cuidadosamente misturadas.

A equipa do estúdio está a começar a pensar se, na verdade, ele vê o mundo em quadriláteros. Uma vez, deram-lhe uma imagem de um gato como inspiração e ele pintou três blocos empilhados com um rabo rígido. Às vezes, vendo-o pintar, não sei se a arte que ele está a criar é uma experiência deliberada ou um loop no qual está preso.

O estúdio não é gerido por profissionais de saúde ou terapeutas de arte. É comandado por Michelle - artista auto-didacta - e pela equipa formada por Connie, Alex e Emily. Michelle é uma ruiva baixinha que fala com um leve sotaque da África do Sul. Ela evita ler notícias e descreve a sua vida como “a gozar com o Universo”. É ela a motivadora e tem uma energia contagiante que te faz querer fazer o que ela acha que deverias fazer. Se permaneces no estúdio mais de cinco minutos, ela vai chamar-te artista. Os membros falam dela entre sussurros, cheios de respeito e admiração, como paroquianos a falarem sobre o padre da aldeia. Quando pergunto a Michelle sobre a sua própria arte, diz-me que tem por volta de 100 trabalhos terminados no seu estúdio em casa, mas que ninguém nunca os viu. Um dia toda a gente vai ver, mas ela não se importa se for só depois da sua morte.

“O estúdio é sobre prazer”, diz com um grande sorriso. E realça: “Aqui no estúdio é o momento em que podes deixar tudo de lado, divertires-te, focares-te no que estás a fazer e não pensares na reforma, nas contas. Gosto de cultivar amor e alegria... Sei que parece foleiro, mas é verdade”. Porque é que achas que este estúdio de arte é tão popular, pergunto. “Acho que é uma identidade. Muita gente que aqui está perdeu a sua identidade e o estúdio devolve-lhes isso. 'Descoberta através da arte' - essa é a missão do nosso estúdio. O que estás a descobrir? Estamos a descobrir como é ser essa nova pessoa e o que a criatividade pode fazer na tua vida”, responde.

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À esquerda, Jason no estúdio de arte do Headway East London. À direita, a sua obra "Affirmations".

Jason tem um boné castanho “NY” e uma t-shirt azul-marinho da Ellesse. A sua bengala está apoiada na mesa e tem um crachá com o seu nome pendurado ao pescoço e uma imagem que se pode ver onde é que parte do seu crânio foi removido. “Tirei esta foto antes de fazer o implante”, diz.

Jason tem 44 anos e não é assim tão entusiasta de arte. A sua mãe diz-me que ele não gostava realmente de pintar ou desenhar quando criança e nunca vai a exposições ou aprecia grandes obras de arte. Cresceu em Custom House, leste de Londres, largou a escola aos 16 anos e passou a maior parte da vida a trabalhar nas obras com o irmão, que é pedreiro. Jason reconhece que se dissesse alguma coisa sobre arte durante a pausa do chá nos estaleiros da construção civil, toda a gente iria rir-se na sua cara.

E, mesmo assim, depois da minha quarta ou quinta visita ao estúdio, não paro de ouvir o seu nome. “Tens de conhecer o Jason”, diz Michelle. E salienta: “É um verdadeiro criativo, um talento natural. Não faz as coisas com esforço. Não tem ideia de como é naturalmente talentoso”.

“Apareceu aqui um dia do nada”, diz Connie, uma das coordenadoras de arte de Michelle. Perguntou se Jason queria fazer alguma coisa e ele concordou, mesmo que meio indiferente. No começo, só copiava as capas dos seus livros favoritos, mas Connie reparou notou que ele tinha sempre um pedaço de papel com ele, onde testava canetas e fazia pequenos desenhos. “Eram desenhos muito interessantes de rostos, uma coisa incrível mesmo”, explica Connie. E sublinha: “Quis ver se ele conseguia colocar esses desenhos nas telas maiores, dei-lhe vários materiais e encorajei-o a tentar desenhar coisas originais”.


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As dores de cabeça de Jason começaram há quatro anos e chegaram como uma chuva de granizo. Estava com o irmão numa obra, a misturar cimento e a assentar tijolos, quando aconteceu. O pessoal achou que queria apenas sair do trabalho mais cedo. Tomou alguns analgésicos, mas não fizeram efeito. Nos dias seguintes consultou três médicos, que deram diferentes diagnósticos e receitas de paracetamol. Descansa, diziam.

No sábado, não conseguia sair da cama. A sua mãe foi ver como ele estava: a cara inchada, os olhos vidrados. Parecia que tinha tido uma convulsão. As memórias de Jason sobre esse momento são as de ser colocado numa ambulância, assinar um formulário a dizer que podia ser operado se necessário, vomitar numa sanita. Depois, apagou. Enquanto isso, a sua mãe foi informada que as próximas 24 horas diriam se ele ia viver ou morrer.

Uma ressonância magnética revelou um abcesso no seu cérebro, um inchaço de pus que pode ser causado por qualquer coisa, desde uma infecção cardíaca até um erro do dentista. É uma condição rara e, portanto, difícil de diagnosticar correctamente. O abcesso matá-lo-ia se rebentasse. Quando finalmente o colocaram na mesa de operações, sofreu um derrame. Naquela noite, acordou com o som da mãe a dizer “Lembras-te de mim, Jay?”. O braço e a mão esquerda estavam paralisados e não conseguia ficar de pé. Quando passou a mão direita pelo cabelo, percebeu que lhe faltava metade da cabeça.

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"Confused by Colours" (2017), por Jason Ferry.

Jason terminou a sua primeira obra própria a 6 de Março de 2017. Sei disso, porque todas as suas pinturas são assinadas com “do Jason” e as datas em letras grandes. É um grande rosto bulboso enraivecido; vívido e ofegante, quase violentamente colorido. Nela, o rosto humano é um aparelho desajeitado e não-natural, que parece prestes a explodir, cheio de partes e secções mecânicas que parecem demasiado complicadas para funcionarem correctamente. Ao mesmo tempo, há nele de algo de majestoso e beato, como uma coisa que verias ao olhar para o céu no meio de uma experiência alucinógena espiritual. Jason baptizou a obra de “Swollen”. Connie ficou pasmada. Havia ali muito estilo, logo no começo.

“O que achas do que fizeste? Gostaste?”, perguntou-lhe.

“Sim, ficou bom”, respondeu Jason. “Gosto de fazer arte”.

A equipa do estúdio continuou a fornecer-lhe materiais e ele continuou a fazer uma pintura atrás da outra. É fácil, como se estivesse apenas a transferir para o papel as visões já completamente formadas na sua mente. No dia em que terminou “Swollen”, começou imediatamente uma obra nova: outro rosto. Demorou oito dias para terminar. Os padrões eram vívidos e policromáticos, como algo que verias num peixe exótico no mar das Bahamas. Desta vez, a cabeça parecia estar a derreter como uma vela, de cima para baixo, com os dentes cerrados em tecnicolor. Chamou à obra “Rainbow Man”. “A parte da boca lembra-me quando estás realmente frustrado e os músculos do rosto ficam tensos”, explicou a Connie. No final de 2017, tinha completado mais de 20 trabalhos de arte.

Enquanto um artista profissional descreveria o seu trabalho em termos de “configurações espaciais” ou “elementos lineares”, Jason não gosta muito de falar sobre o que faz. E não sente ciúmes da sua arte; uma tarde empurrou uma pintura incompleta na minha direção e perguntou-me se eu “queria tentar”. Não é que ele não goste de falar, ele adora conversar. Começa a falar de livros e filmes e ele não se cala. Um dos seus favoritos é The Catcher In The Rye. Comprou o livro na WHSmith em Oxford Street, leu-o uma vez, depois releu imediatamente. Não importa a época do ano - Primavera, Verão, Outono, Inverno -, o livro vai ter um efeito em ti, diz-me.

“Mas, qual é a parte favorita na tua arte?”, pergunto.

“As cores, certamente”.

“Como decides que cores vais usar?”, insisto.

“Bem, gosto dos vermelhos. Mas, toda a gente aqui no estúdio usa essa cor e temos de partilhar”.

Para Connie, essa é a coisa mais fascinante sobre Jason. “Ele está a criar coisas muito sofisticadas”, diz, “mas não tem um discurso para acompanhar isso. Estudei arte na faculdade e era mais uma questão de discurso que de qualidade das obras. E com ele é o contrário. É quase injusto, porque parecem obras do Basquiat. A maioria dos artistas leva anos para encontrar um estilo instintivo e às vezes nunca conseguem, mas Jason já tem o dele”.

Jackson Pollock disse uma vez: “Pintura é auto-descoberta... Todo o bom artista pinta o que ele é”. No trabalho de Jason, vê-lo expressar algo que não consegue colocar em palavras, algo sobre como a sua mente funciona. A sua obra diz algo sobre o que é experimentar uma lesão cerebral, de maneira muito mais viva e hipnótica do que qualquer coisa que ele poderia dizer a um médico ou para o meu gravador.

Levou um ano de terapia ocupacional no hospital até Jason conseguir mover-se sozinho outra vez. Vai ao ginásio no parque local alguns dias por semana para exercitar o braço esquerdo. A arte melhorou a sua coordenação motora, fez reviver a sua concentração e ajudou-o a sentir-se mais calmo. Mas, ainda tem convulsões. Quando uma convulsão começa, o corpo fica mole e sente-se como se estivesse a afogar-se em cola; como se a sua cabeça estivesse longe do seu corpo. A mãe não consegue ver quando isso acontece; deixa o pai ou o irmão ajudarem. Uma das suas pinturas, “All Screwed Up”, apresenta uma figura contorcida e enrugada, quase incapaz de ficar em pé, à frente de um mar negro, fazendo o personagem parecer radiante, mas totalmente sozinho, como uma lua no espaço. “É assim que me sinto numa convulsão”, diz.

Uma tarde, dou por mim a conversar com Chris, um professor reformado que teve uma lesão cerebral depois da remoção de um tumor benigno. Sempre se interessou por arte, mas depois da lesão isso tornou-se um fascínio. Tem uma sacola quase a transbordar de coisas, livros sobre arte outsider, impressões em A4 de um guia para Frida Kahlo que escreveu para os colegas de estúdio, e um monte de coisas para uma exposição em grupo do Submit to Love Studios onde vai dar uma palestra no dia seguinte. “As duas exposições mais populares este ano em Londres foram Frida Kahlo e Basquiat e nenhum deles estudou arte”, diz. E salienta: “À sua maneira, eram artistas outsiders. Portanto, não podes dizer que há uma 'arte outsider' versus 'arte de verdade' - elas são a mesma coisa”.

Uma semana antes, ao almoço, Chris disse-me: “Não podes ver arte contemporânea sem reconhecer a arte feita pelos deficientes”. Na altura não lhe prestei muita atenção, mas aquilo ficou-me na cabeça. Peço-lhe para elaborar. Ele tira um livro da sacola e mostra-me uma foto do psiquiatra alemão Hans Prinzhorn. Em 1919, Karl Wilmanns, do hospital psiquiátrico da Universidade de Heidelberg, Alemanha, escolheu Hans Prinzhorn como seu assistente. A sua tarefa era fazer uma colecção de arte produzida pelos pacientes do hospital. Prinzhorn, um ex-estudante de história da arte e filosofia, desenvolveu uma paixão pelo projecto e quando saiu do hospital, em 1921, a colecção tinha mais de cinco mil trabalhos, de 450 pacientes. Publicou a pesquisa no seu primeiro livro, A Arte dos Doentes Mentais.

Apesar de o mundo científico ter em grande parte ridicularizado o livro, o mundo da arte de vanguarda ficou obcecado por ele. O artista e poeta Max Ernst comprou-o em Paris, em 1922, como presente para o seu anfitrião, o poeta francês Paul Éluard. Logo, uma cópia caiu nas mãos de Andre Breton, escritor, poeta e líder do surrealismo. Em pouco tempo tornou-se a bíblia visual dos surrealistas; para eles, parecia um acesso sem paralelo às origens mais puras da arte.

Quando o celebrado artista francês Jean Dubuffet teve a possibilidade de ver uma exposição da coleção de Prinzhorn, mudou toda a sua visão em relação ao propósito da arte. Numa carta a Henri Matisse, descreveu-o como ver “algo com que sonhei durante anos”. A doença ou incapacidade dos artistas em questão era irrelevante para ele; o mais marcante era essa ideia de arte movida por necessidade, criada por pessoas sem treino, sem propósitos superiores, sem público, sem museus, sem vendedores ou coleccionadores.

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Dois artistas do Headway East London. À esquerda Cecil, à direita Sandra

Na Grã-Bretanha, a influência dos “não-treinados” foi monumental. No dia 26 de Agosto de 1928, um domingo, dois homens chegaram à vila piscatória de St. Ives. Um deles era Christopher “Kit” Wood, um jovem promissor e estudado de Liverpool, recém-chegado de Paris, onde conheceu pessoas como Picasso e Jean Cocteau. O outro era o pintor Ben Nicholson, um svengali do modernismo britânico. Enquanto caminhavam por uma rua, repararam numa cabana com a porta aberta, por onde viram algumas pinturas. Bateram, entraram e descobriram um mar de obras de arte, penduradas tortas nas paredes, apoiadas em cadeiras, empilhadas em mesas e no chão - e no meio disso tudo, um velhinho de bigode chamado Alfred Wallis.

Wallis era um marinheiro reformado de 73 anos que tinha passado 25 a pescar arenque, cavala e sardinha no Atlântico. Quando a sua esposa faleceu, aposentou-se e começou a pintar. Usava tinta caseira para criar arte em qualquer coisa em que colocasse as mãos: cartão, móveis, pedaços de madeira encontrados na praia, placas de horários de comboios, frascos de geleia. A perspectiva de Wallis para pinturas era radical; o tamanho dos temas era ditado não pela realidade, mas pela sua importância para ele. Wood e Nicholson viram o estilo não-convencional de Wallis como uma criatividade natural que ansiavam para os seus próprios trabalhos.

Wallis hoje é reconhecido como um grande artista britânico, cuja arte afectou uma geração inteira e moldou o desenvolvimento da pintura modernista britânica. Mas, isso não lhe valeu de muita coisa quando estava vivo: morreu sozinho aos 87 anos numa oficina. No seu funeral, em 1942, compareceram pessoas como Nicholson; a escultora mundialmente renomada Barbara Hepworth; e o pioneiro russo da arte de vanguarda Naum Gabo. O seu túmulo foi feito pelo oleiro mais famoso do mundo, Bernard Leach.

“Eles levaram o trabalho de Wallis para Londres, tornaram-no conhecido e agora ele está no Tate, está em toda parte”, explica Marc Steene, director de uma ONG de arte chamada Outside In. “Mas, neste país, a única razão para Alfred Wallis ser amado é porque dois artistas de classe média disseram que ele era bom. Sem essa validação, nunca o conheceríamos”.

Steen estudou na Slade School of Fine Art, antes de trabalhar como voluntário num centro em Hove, onde descobriu os talentos de um grupo de artistas como dificuldades de aprendizagem, cujos trabalhos terminados eram destruídos pelos funcionários no final de cada semana, para que o papel pudesse ser reutilizado. É mais ou menos um arqueólogo da arte moderna, tentando desesperadamente desenterrar criações dos subterrâneos da sociedade que nunca viram a luz do dia e que, às vezes, não querem ser encontrados. Steene quer escavar e proteger essa arte e expô-la para que possamos aprender quem somos através delas.

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"Crazy Community" por Sam, um artista do Headway East London.

No seu pequeno e confortável escritório, numa rua estreita em Chichester, West Sussex – à frente da Pallant House Gallery, o principal museu de arte moderna britânica, onde Steene foi director executivo – mostro-lhe algumas das pinturas de Jason. “Impressionante”, diz. Ele tem cabelo grisalho curto, olhos escuros e fala num tom calmo, mas directo. Enquanto conversamos, revira o escritório a tirar livros das prateleiras e a colocá-los no meu colo, com declarações como “Tens que ler isso!” e “Tens que ver isso!”. Quando lhe digo que não sei desenhar, ele responde “Claro que sabes! Sabes desenhar!”. Ele descreve a sua vida como uma batalha para assegurar que o mundo da arte abrace um corpo mais amplo de artistas de diferentes origens.

“Estamos empacados!”, declara. E justifica: “O mundo da arte já não se relaciona com as pessoas. A maioria das pessoas não se envolve com ele. A arte retirou-se do propósito que tinha nas nossas vidas. O que vemos com pessoas como Jason e Alfred Wallis é arte que tem um propósito. Atinge-nos directamente, porque é honesta e tem integridade. Mas, também mostra que a arte tem uma função mais profunda na sociedade para todos nós e estamos separados disso. Deixar uma marca é um acto do eu. É uma afirmação do indivíduo. É um desafio. É quase a última coisa que podes ter”.

Actualmente, Steene tem mais de 2.600 artistas nos seus registos, que está constantemente a tentar colocar em espaços de galeria e debaixo do nariz dos coleccionadores. E diz-me que mal arranhou a superfície do que anda por aí. Na sua opinião, há Jasons por toda a parte, só que ninguém está a falar sobre eles. No começo do ano, conseguiu indicar alguém para sete dias de exposição da Sotherby's, mas geralmente as galerias vêem o seu conjunto de artistas deficientes, isolados e restritos só como dignos de “programas comunitários” e não para os seus espaços principais de exposição.

Na semana passada visitou Darlington, onde encontrou um centro comunitário com um grupo de 70 artistas a trabalharem juntos. “Podes fazer uma exposição deles e vai ser um destaque em qualquer lugar. Podes levá-los para Paris, eles são mesmo bons”, garante. Mas, na Europa a recepção é estranha e não necessariamente melhor. Quando ele leva os seus artistas para lugares como a Feira de Arte de Paris, muitos dos compradores estão mais interessados na condição mental dos artistas. “Eles já estiveram internados?”, perguntam, empolgados. “Eles são psicóticos?”.

“Em Inglaterra”, diz Steene, “parte da ideia do valor da arte é sobre a pessoa que faz a obra. Somos obcecados por celebridade e personalidade. A ideia de que alguém que tenha uma lesão cerebral pode criar arte incrível não é amplamente aceite. Há um julgamento sobre o indivíduo nesse ponto. Este país tem muitas questões de hierarquia e há uma pressão para mudar, mas acho que vai levar muito tempo para vermos um dos artistas de que estamos a falar a ter o seu trabalho exposto no Tate”.


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Logo depois do almoço, “Riders On the Storm” dos Doors está a tocar no estúdio enquanto vejo Jason trabalhar num pequeno conjunto de pinturas: três telas de 10 por 10 centímetros. Essas e muitos dos seus outros trabalhos, serão parte da sua primeira exposição individual no mês que vem, numa pequena galeria independente no leste de Londres. Inicialmente, ele queria que a exposição se chamasse simplesmente “do Jason”, mas foi encorajado a pensar noutro nome. Viu a palavra “afirmações” num pedaço de papel em casa, que lhe foi dado depois da terapia. Achou que era uma palavra chique e artística, então resolveu usá-la. Afirmações.

“É estranho ter uma exposição de arte só minha”, diz, enquanto procura as suas cores. E acrescenta: “É engraçado pensar em mim assim”. Os seus dedos escolhem um laranja vivo – agita o pote com a mão direita, passa para a esquerda, ainda mais fraca, destapa com a direita, coloca um pouco na tampa, mergulha o pincel e começa a fazer marcas, trocando de pintura para pintura com a precisão de um master chef.

São uns 20 colegas a trabalhar no estúdio, ocupados com as suas criações. Um zumbido meditativo espalha-se no salão, a ausência de som inconfundível criada por um grupo de pessoas imersas num estado de fluxo. Quietude; canetas a fazer ruídos, guinchos de cadeira de rodas, papéis a serem movidos, rabiscados, pintados e manipulados; mãos a serem lavadas, vozes a cantar baixinho como pessoas tímidas fazem quando não conseguem deixar de cantar. O cheiro dos materiais; o aroma nostálgico de cola; o prazer único de assistir a algo que não existia antes a formar-se.

Parece que estão a redescobrir algo muito antigo e precioso sobre a criação; um impulso que muitos de nós esquecemos ou se foi perdendo depois da escola; algo que podemos perder ao deixar a tradição da arte desaparecer do nosso quotidiano, tornar-se apenas algo sobre o que lemos nas notícias ou vemos numa galeria. Depois, a música acaba e perguntam se alguém tem uma sugestão.

“Anos 80, por favor”, diz Jason e a batida de “You Spin Me Round”, dos Dead or Alive, enche o salão.

Alguns nomes foram mudados para preservar o anonimato de certos membros.


@joe_zadeh / @Cbethell_Photo

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