Uma noite entre os sobreviventes do edifício que desabou no centro de SP
Foto: Gustavo Basso/VICE
reportagem

Uma noite entre os sobreviventes do edifício que desabou no centro de SP

Escombros, desentendimentos, incertezas e promessas de luta marcam a rotina dos ex-moradores do edifício Wilton Paes de Almeida.

Uma pequena igreja no meio da praça separa dois universos. De um lado, na esquina da avenida Rio Branco com a rua Antonio de Godói, bombeiros trabalham para esfriar os escombros do edifício de 26 andares que teima em queimar. Do outro, junto à porta da Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, aqueles que perderam suas casas tentam descansar na primeira noite sem teto desde o desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo, na madrugada de terça-feira.

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Um desses ex-moradores dormia em um colchonete. Estava coberto por uma manta doada, quando foi chutado na cabeça por uma também ex-moradora embriagada. A provocação quase resulta em uma briga — e este não seria o único desentendimento da noite. Enquanto o repórter de um canal de TV tentava falar ao vivo sobre a situação no local, um homem reclamou de ter sido tirado de frente da câmera e faltou muito pouco para que agredisse o repórter. Ricardo Lima, 41 anos, mais conhecido como Careca, puxou o desconhecido e, após uma conversa ao pé do ouvido, conseguiu afastar o provocador.

Crédito: Gustavo Basso/VICE

Lima é coordenador do MLSM (Movimento de Luta Social por Moradia), responsável pela ocupação do prédio onde, segundo cadastramento da prefeitura, viviam 150 famílias. Ele calcula que, nesta primeira noite, 100 pessoas dormiram na praça — algumas em barracas doadas — e 40 foram levadas para albergues da prefeitura. Assistentes sociais fizeram plantão a madrugada inteira enchendo vans da Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social) com pessoas interessadas em sair do local.

Crédito: Gustavo Basso/VICE

Celso José dos Santos, ambulante de 54 anos, não foi uma destas pessoas. “Eu não vou pra albergue nenhum. Nós aqui não queremos albergue, queremos é uma moradia decente”, comenta o mineiro que sonha em morar no interior, cultivando a terra. Há cinco anos ele morava no prédio desabado. No momento do incidente ele estava trabalhando em um evento na Barra Funda e, quando chegou, o edifício já estava no chão. Ele perdeu o paradeiro da ex-esposa, que morava no mesmo local. “Ela é usuária de drogas, então não sei se ela estava lá dentro ou não”, comentou, preocupado.

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Apesar dos bombeiros, com dados da Defesa Civil e da Prefeitura, estimarem em 44 o número de desaparecidos, a preocupação dos ex-moradores de que mais gente esteja entre os destroços é generalizada. “Um rapaz me contou que estava descendo com uns objetos, e cruzou com crianças subindo as escadas. Quando falou sobre o fogo, elas teriam dito ‘minha mãe está lá em cima, vamos lá buscar’. Quando ele foi tentar subir para ajudar, já não conseguia, as escadas estavam tomadas pelo fogo”, conta Guilherme Gulim, de 22 anos e morador do 5º, onde teria começado o incêndio.

Crédito: Gustavo Basso/VICE

Está programada para esta quinta-feira (2) uma reunião entre uma comissão de moradores e membros do MLSM e a Secretaria Municipal de Habitação. Lima diz que irá, mas não aceitará qualquer proposta da prefeitura. É um discurso parecido com o do ambulante Celso José, que ameaça: “Se a prefeitura não oferecer nada em dois dias, eu reúno um grupo e ocupamos outro prédio. Eu sou de luta, sei como fazer isso, não vou ficar esperando aqui na praça eles não fazerem nada."

Buscando evitar oportunistas e a ação das autoridades, Lima não revela qual deve ser a reação do grupo coordenado por ele caso não haja propostas aceitáveis por eles. “Se eu digo que amanhã teremos bolo de cenoura, muita gente vai vir só pra comer bolo… Melhor então você acompanhar nossos próximos passos”, disse, quando perguntado sobre o que será feito nos próximos dias.

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Enquanto isso, eles contam com o auxílio de gente vinda de outras cidades da Grande São Paulo se dispondo a organizar a bagunça que se formou assim que o sol nasceu. Por enquanto, resta apenas a certeza de que um homem caiu junto com o prédio e se tornou prioridade no trabalho de resgate dos 75 bombeiros que trabalhavam na manhã desta quarta.

Outra certeza é a de que as necessidades continuam. “Eles precisam muito de absorventes, pasta de dente, escovas e fraldas”, avisa Geovana Zanela — vizinha que conseguiu folga da escola de inglês onde trabalha para auxiliar os atuais moradores do Largo do Paissandú S/N.

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