Identidade

Fui obrigada por lei a continuar com uma gravidez inviável e dar à luz um bebé morto. Este é o meu diário

Quando os médicos disseram a Claire Cullen-Delsol que a sua gravidez não era viável devido a um transtorno cromossómico, ela pediu um aborto – que lhe foi negado pelas leis da Irlanda.

Por Claire Cullen-Delsol; Traduzido por Madalena Maltez
21 Maio 2019, 3:59pm

Ilustrações por Calum Heath.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Em 2015, a irlandesa e mãe de dois filhos Claire Cullen-Delsol, descobriu que estava grávida do seu terceiro bebé. Era uma gravidez não-planeada, mas Cullen-Delsol e o marido Wayne ficaram empolgados com a perspectiva de terem outro filho.

Ecografias revelaram que o feto sofria de um raro transtorno cromossómico chamado Síndrome de Patau, o que significava que o bebé não sobreviveria muito tempo depois do nascimento - aliás, provavelmente, morreria no útero. Depois de receber o diagnóstico, Cullen-Delsol decidiu que preferia abortar em vez de suportar meses de uma gravidez condenada à partida. Mas, as leis da Irlanda proíbem abortos em todas as circunstâncias excepto se a vida da mãe estiver em perigo, o que quer dizer que, mesmo que o feto não vá sobreviver ao nascimento, a gravidez deve ir até ao fim.


Vê: "Como as leis restritivas das Filipinas estão a levar as mulheres ao aborto clandestino"


Como resultado da sua traumática experiência, Cullen-Delsol tornou-se numa fervorosa activista do direito à escolha. Hoje, é directora do Terminations for Medical Reasons, um grupo que formou para fazer lobby e mudar as leis do aborto na Irlanda. “Fazer campanha pela mudança para outras mulheres foi algo que comecei para lidar com a minha perda”, explica à VICE. E acrescenta: “Não me vou curar enquanto souber que cada semana, dois ou três casais irlandeses precisam de viajar para o Reino Unido para abortar um bebé querido, mas que está a morrer. E sabe-se lá quantas outras pessoas estão em casa a sofrer como eu sofri”.

“O meu grande medo”, realça Cullen-Delsol, “é que a minha filha tenha que passar pelo que eu passei e que este país a trate tão mal como me tratou”. Abaixo, podes ler excertos do diário que ela escreveu durante a sua terceira gravidez, publicados com a sua permissão.

13 de Agosto de 2015

Está um dia solarengo muito bonito. Estou a voltar do trabalho para ir buscar Wayne, o meu marido e as crianças para irmos ao Waterford Hospital para a minha ecografia. Primeiro, uma obstetra leva-me para uma sala sozinha, para conferir o básico antes de trazer toda a gente. Conversamos durante o que me parece uma eternidade até eu perguntar, sem muita preocupação, se parece que está tudo bem. “Não”, ela responde, de maneira directa. E explica: “Há algumas coisas que preciso de verificar antes”.

Depois de alguns minutos, ela começa calmamente a apontar para grandes quistos na placenta, ossos em falta no rosto do bebé e questões de desenvolvimento cerebral. Passamos para outra sala com uma máquina melhor e ela pede para chamarem o meu marido. Ele está com as crianças no café do hospital enquanto esperamos pela segunda ecografia.

Ele segura-me na mão e sentamo-nos em silêncio. Enquanto a obstetra faz o exame, estudo o rosto dela à procura de sinais de um sorriso ou alívio. Não encontro nenhum. Ela aponta mais coisas: fissuras bilaterais, dedos sobrepostos, cerebelo subdesenvolvido, quistos na placenta, nenhum estômago observável, problemas nos rins e manchas no coração do bebé. Ouço aterrorizada enquanto as lágrimas me escorrem pelo rosto. Finalmente, o exame acaba e vamos embora depois de sermos reencaminhados para um especialista em medicina fetal do hospital Holles Street. Saímos para o sol. Estou a tremer.

Em casa, procuro no Google “transtorno cromossómico”. “A condição raramente resulta em nascimentos com vida”, leio. “Alta taxa de mortalidade no primeiro mês. Poucos bebés sobrevivem ao primeiro ano. Incompatível com a vida. Fatal”. Quero morrer. Quero encolher-me numa bola e ser engolida pela terra. Todo o meu mundo muda. Nada parece real. Não sei como lidar com isto. A minha pequena pessoa pode não chegar a este mundo e podemos perder um filho. Não sei como lidar ou viver isto. Quero manter este bebé seguro para sempre.

15 de Agosto de 2015

Hoje é a nossa consulta no hospital Holles Street. Os últimos dias têm sido um borrão de lágrimas, raiva e insónia.

No hospital, o médico é directo connosco. Concorda com as descobertas da primeira médica: o estômago, os quistos, a extensão da fenda labial. Reserva o diagnóstico de transtorno cromossómico. Faço uma amniocentese e volto para casa para esperar. Agarro-me à esperança.

21 de Agosto de 2015

Um dia muito longo e stressante. Estamos à espera do resultado da amniocentese, mas não recebemos chamadas. Às 16h00 começo a ligar para o hospital. Ainda não têm notícias. Temos que esperar até segunda-feira. Estou devastada. Estou exausta por não conseguir dormir e a começar também a ver a pressão no rosto de Wayne. Vai ser um fim-de-semana difícil.

23 de Agosto de 2015

Estou cansada de pessoas a dizerem-me para ser positiva ou para acariciar a minha barriga. Estou com muita raiva. Discuto por qualquer coisa.

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24 de Agosto de 2015

Acordo a sentir-me positiva e esperançosa, mesmo que tenha dormido muito pouco. Tomo banho e até ponho maquilhagem. Distraio-me a fazer compras. Às 15h00 finalmente ligo à obstetra. Ela liga-me de volta às 16h20. Más notícias. O bebé tem Síndrome de Patau, o que significa que há três cópias do cromossoma 13 em cada célula do seu corpo. Isso não é compatível com a vida e desenvolvimento normal no útero. O bebé não vai sobreviver.

A minha vida desmorona-se à minha volta. Seguro as mãos de Wayne enquanto ele desaba. Ele segura a cabeça nas mãos. Está devastado. Sinto o meu coração parar e o meu estômago a revirar. Desespero gelado parece escorrer-me pelas costas e só consigo chorar. Depois de chorar tudo o que posso, ficamos sentados num silêncio atordoado. Começamos a contar às pessoas. Não vou aguentar ouvir a voz da minha mãe quando souber que a sua neta vai morrer, por isso é Wayne que faz a chamada. Ouço um soluço de cortar o coração pelo telefone e sinto-me acabada outra vez. Mando mensagem ao meu irmão. Não consigo falar com ninguém.

Do nada, a realidade atinge-me novamente. Não consigo descrever. A dor e o luto são tão completos que parecem chumbo. Tento literalmente empurrar o peso de mim. Sinto a decepção fisicamente. Estou a uivar como um animal. “Não”, grito. Agarro a camisa de Wayne, imploro. Por fim, a dor gritante transforma-se em silêncio. Abraçamo-nos por muito tempo, até que nos começamos a preparar para quando as crianças chegarem da escola. Quando elas chegarem, temos que fazer as nossas caras normais.

25 de Agosto de 2015

No carro, a conduzir para Dublin, comemos o pequeno-almoço em movimento e conversamos. Wayne e eu estamos de mãos dadas. O médico explica clara e pacientemente a síndrome, o seu resultado e as nossas opções. O bebé não vai sobreviver. É improvável que ela nasça com vida ou sobreviva mais de algumas horas. Posso esperar um aborto natural tardio, um nado-morto ou, se a gravidez for até ao fim, vou dar à luz um bebé que vai morrer no parto ou logo a seguir.

Não pode haver nenhuma intervenção. Qualquer acção para acelerar o parto será considerada um aborto e é ilegal à luz da Oitava Emenda da Irlanda, que proíbe aborto em qualquer circunstância, excepto para salvar a vida da mãe. O médico não menciona a opção de viajar ao exterior para fazer um aborto até eu lhe perguntar. Ele diz-me que o hospital sabe dos altos padrões do Liverpool Women's Hospital, mas não podem encaminhar-me para lá. Podem passar a informação se eu pedir. Nenhum profissional médico irlandês me pode ajudar a agendar o aborto ou marcar lá uma consulta. Tenho que tratar de tudo sozinha.


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Sinto raiva. Estou grávida de apenas 22 semanas. Terei que continuar grávida por pelo menos mais 15 ou 16. Terei que parir e depois perder a minha filha. Enquanto isso, tenho que trabalhar, deixar as crianças na escola e lidar com toda a atenção que as mulheres grávidas recebem. “Para quando é o bebé?”, as pessoas vão perguntar. Não consigo lidar com isso. Mas, como é que posso viajar para Liverpool durante uma semana? Deixar os meus filhos com a família e amigos, ir para Liverpool, dar à luz um bebé morto, dizer-lhe adeus e voltar de avião para esperar que as cinzas cheguem pelo correio?

Não quero abortá-la. Quero tê-la. Quero carregá-la e despedir-me no tempo dela, não sair a correr para apanhar um voo. Quero que os meus filhos, pais e irmão a conheçam e carreguem. Quero a minha própria cama. Quero um funeral, não cinzas entregues pelo correio. A vida dela significa mais que isso. Mas, a minha também. Como é que os direitos dela e os meus podem ser iguais sob a lei irlandesa? Ela nunca teve uma hipótese de viver. Cada célula do seu corpo tem uma pequena falha catastrófica e ela nunca poderia sobreviver fora do meu corpo.

Sou uma mulher adulta. Tenho filhos, marido, amigos, um emprego. Como é que tudo isso é igual a um batimento cardíaco sem esperança de um corpo que está a morrer?

26 de Agosto de 2015

Hoje tive que contar à minha filha Carla que a sua irmãzinha vai morrer. Foi a coisa mais difícil da minha vida. O rosto dela desmorona e pergunta-me se não há mesmo esperança. Ela quer acreditar, mas não posso deixar que tenha falsas esperanças. Olho-a nos olhos e digo: “Não. O bebé vai morrer. Não há nada que possamos fazer para a ajudar”. Por mais cruel que seja, essa é a opção mais sincera que tenho. Ela chora e chora. Faria qualquer coisa para não ter que a fazer passar por isso.

Tenho outra consulta no hospital. A obstetra olha-me nos olhos e diz que sente muito. O médico diz-me que não há uma boa razão médica para me manter grávida, mas não há outra opção. Ele sente muito. Faz outra ecografia e imprime cópias para toda a minha família.

Estou no centro da cidade a comprar livros escolares e uniformes quando tenho outra crise. Percebo que nunca vou conseguir lidar agora com uma viagem a Liverpool. Mal consigo fazer compras. Não consigo pensar em ir ao supermercado. Mesmo se tivéssemos dinheiro para o voo e o procedimento, não conseguiria lidar com o aeroporto, o autocarro, o hospital. Pensar nessas coisas faz-me tremer de medo. Vou ter que esperar.

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10 de Setembro de 2015

Há dias que tenho pesadelos com o parto. Acordo a chorar. Hoje fiquei acordada a noite toda. Não sinto o bebé a mexer. Nada. Por volta das 6h00 sinto um pequeno movimento. Choro de alívio e medo.

11 de Setembro de 2015

Outra noite acordada. Procuro no Google “indução depois da morte do bebé” e “preparar-me para um nado-morto”. “Parto de bebé morto.” Como é que a bebé vai ser? Vou poder pegá-la ao colo? Beijá-la? Quantas noites mais terei que sofrer, imaginando se ela já está morta?

12 de Setembro de 2015

Wayne está no trabalho quando a minha mãe me liga. Estava a chorar em casa na mesa da cozinha. “Estou a ir para aí”, diz quando ouve a minha voz. Quando ela chega, estou no chão. Não me consigo levantar. As crianças estão a tentar confortar-me, mas estou em pânico. “Porque é que eles não te ajudam?”, pergunta a minha mãe quando me vê. “Eles não te podem deixar assim! Vão mesmo deixar mães neste estado pelo bem de um bebé que não vai sobreviver?”.

Sim, vão.

15 de Setembro de 2015

Assisto a um debate sobre a Oitava Emenda. Mando uma mensagem aos participantes, a dizer que espero poder falar. Um deles responde. Pergunta-me como estou. Estou a conseguir ajuda? Como é que me pode ajudar? Estou a receber apoio psicológico?

Percebi que estava a procurar ajuda ao mandar a mensagem. Estava desesperada para ter alguém que entendesse.

17 de Setembro de 2015

Encontro a obstetra. Ela diz que vou saber quando o bebé morrer. Ela explica como será a indução. Que analgésicos estão disponíveis no meu caso. Falamos sobre o caixão. Roupas de bebé. Comprimidos para impedir que o leite desça. Se quero enterrar ou cremar o bebé. A minha menina.

21 de Setembro de 2015

Carla sente o bebé a dar um pontapé pela primeira vez. É o seu primeiro pontapé real em semanas.

23 de Setembro de 2015

Ela morreu. Será que sofreu? Foi algo rápido ou lento? Os quistos na placenta impediram que ela tivesse nutrientes e oxigénio? A pressão do fluído à sua volta foi demasiado para o seu coração? A falha genética significou que o seu desenvolvimento não podia continuar para além deste ponto?

25 de Setembro de 2015

Alex Patricia Cullen-Delsol nasceu no dia 25 de setembro de 2015. Pesava 490 gramas. Era linda, perfeita, quebrada e imóvel. Completamente imóvel.

15 de outubro de 2015

Estou com dificuldades em me adaptar a uma vida normal. Estou confortável em casa. Demasiado confortável. Estou a começar a cozinhar e a limpar para compensar pela péssima mãe que tenho sido para os meus filhos. Evito pessoas, a luz do sol, exercício.

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4 de Novembro de 2015

Hoje mandei um tweet ao primeiro-ministro irlandês, Enda Kenny. “A minha primeira menstruação desde o meu bebé nado-morto”, escrevi. E acrescentei: “Carreguei-a por seis semanas depois do diagnóstico, a perder a cabeça com o luto. #revoguea8”. Quero evitar que outras famílias sofram como nós.

Uma jornalista entrou em contacto comigo e partilhei a minha história. Chorámos. Ela escreveu um artigo maravilhoso. Sou convidada a conhecer a Ministra do Trabalho e Protecção Social para contar a minha história. Consigo viajar para Dublin? Posso tentar.

9 de Dezembro de 2015

Sento-me numa sala com a ministra e falo durante 20 minutos sem parar. Ela chora comigo sobre a Alex. Vejo o poder da minha história. Sinto-me menos desesperada, menos insignificante. Alguém está, finalmente, a ouvir e a concordar que o que passei foi errado. Que eu não merecia isto. Ninguém merece. E isto tem de mudar.


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