Entretenimento

Não largues o Facebook: converte-o num magnífico monte de lixo

Uma proposta para destruir a rede social para sempre.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
9.4.18
Ilustração por Aina Carrillo

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

Nunca nos devemos deixar levar pelo coração, os impulsos não pensados só podem levar a coisas tenebrosas do devir humano, como divórcios incómodos, lesões físicas permanentes, noites infindáveis em que nem observar a beleza da luz da Lua é suficiente para combater o profundo sentimento de solidão e abandono que sentes, ou a - e acabo já com a enumeração - destrutivas guerras mundiais. Agir sem pensar, assim de coração, apesar de o cinema, a literatura e algumas mães poderem dizer o contrário, não é o caminho certo.

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Suponho que estejam a par de tudo o que se tem passado com o Facebook, com a Cambridge Analytica, as fake news, Trump e tudo isso que, no fundo, é um passo lógico no complicado panorama do progresso humano. O tema é que, voltando às reacções impulsivas de que falava, muitas pessoas se indignaram e, de repente e sem pensar, decidiram abandonar a rede social como acto de rebeldia e de justiça digital e moral.

Se bem que há muitos motivos para não se abandonar nunca o Facebook (como o poder espiar as pessoas por quem te estás a começar a apaixonar, saber quem vai a um evento para ver se vale a pena ir, ou receber mais de 10 mensagens de parabéns no teu dia de anos, coisa que sem Facebook nunca aconteceria), o que podemos fazer para nos sentirmos menos mal com a nossa relação com esta plataforma é começar a enchê-la de merda, convertê-la em tudo o que os seus criadores nunca quiseram que fosse.


Vê: "Como as selfies modificaram as nossas vidas"


O Facebook sempre teve um certo grau de seriedade, uma rede social para pais ou para gente que tira uma fotografia com um macaco sem nenhum tipo de ironia. O Facebook não é uma lixeira da Internet em que as pessoas depositam todo o lixo que lhes passa pela cabeça (ou é, mas não é isso que a empresa pretende). Não é como, por exemplo, o Twitter, onde o horror se lança em praça pública com total impunidade.

Sou dos que percebem que, para destruir alguma coisa, há que contaminá-la pouco a pouco, em vez de desferir um só golpe mortífero. É como com as relações sentimentais, em que é muito melhor e mais eficiente dinamitá-las subtilmente e “aguentar" até que acabem, sem ter que ter uma discussão pontual de ruptura, com choros, gritos e abraços e mais choro e mais abraços. Sabem? A morte definitiva só se alcança quando se consegue apodrecer as entranhas da criatura, para que não sobre nem réstia de esperança ou salvação.

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É por isso que, em vez de cometer esse acto impulsivo e pouco reflectido de abandonar o Facebook, ou limitá-lo a pontuais interacções com familiares e profissionais (isso é o que dizem as pessoas que rejeitam a aplicação desde “os escândalos”), é muito mais eficiente enchê-lo de merda, estragá-lo ainda mais, convertê-lo no que sempre devia ter sido: a lixeira da Internet. Uma classificação da qual não possa nunca voltar a desprender-se.

Por isso, proponho - bem, façam o que quiserem, evidentemente - que todos aqueles desertores do Facebook, em vez de fugirem e de se sacrificarem em vão que nem kamikazes que em vez de irem contra o navio de guerra do inimigo se afundam no mar e incomodam uma dezena de cardumes, ponham o vosso grão de areia no grande exercício de desprestigiar a empresa. Convertam o Facebook numa grande farsa, por favor.

Chamas-te Alfonso Millán Gratel? Pois agora já não, agora passas a chamar-te “Carmen Muerte Havarti” e na tua fotografia de perfil vai estar um chouriço com óculos. A semana passada estiveste de férias na República Democrática Popular do Laos e que só tiraste fotografias de sacos de cubos de gelo espanhóis, boa? Assim, no teu álbum de fotografias só vão estar estas do Laos, numa galeria com umas outras de edifícios destruídos. A tua vivência do Facebook limitar-se-á a partilhar artigos sobre a história e os benefícios da soja, comentar de forma muito ofensiva todos os artigos do El País que os teus amigos partilhem e só pôr likes nas publicações dos teus amigos que tenham mais de 600 palavras.

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Continuemos. Apagarás todos os teus amigos, mas só os que conheces mesmo. Toda essa malta que não sabes como é que chegou a ti deixa-os e começa a partilhar no seu mural fotografias de sapatos. Sem parar. Vê um tutorial no Youtube para aprenderes a “mudar a tua localização do telemóvel”, porque a partir de agora tudo o que estás a fazer é desde Córdoba, Argentina. Enfim, converte toda a tua experiência desta rede social num despropósito, cala a tua consciência ao entrar e age à sorte, sem coerência. Faz-te de louco, porque sempre foi essa a melhor forma de combater o status quo.

Com isto, quem sabe, conseguiremos que a plataforma acumule uma enorme quantidade de dados de merda, totalmente irrelevantes, sobre os quais terão de fundamentar-se os novos valores da empresa. Claro que é impossível, porque muita gente continuará no Facebook a oferecer a sua vida inteira (como este que vos escreve), mas parece-me maravilhosa a ideia de uma rede social tentar analisar e monitorizar um conjunto de informação que, ao fim e ao cabo, é um monte de lixo. Um grande esforço totalmente em vão.


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