Jonah Hill conseguiu fazer um filme de skate de jeito

"Mid90s" capta como é crescer como um "rato do skate", de uma forma que nenhum outro filme mainstream conseguiu fazer até agora.

Por Jonathan Smith; Traduzido por Madalena Maltez
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out 19 2018, 9:18am

Jonah Hill e a equipa de filmagens. Foto: Divulgação

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Há uma cena no filme Mid90s, de Jonah Hill, em que Stevie [Sunny Suljic], um puto skater com uma vida doméstica muito merdosa, recebe um conselho valioso de um skater mais velho depois de discutir com a mãe. Ray [Na-kel Smith], o skater mais velho, explica-lhe que tinha um irmão mais novo que morreu tragicamente. Depois da sua morte, Ray quase não conseguia sair da cama, quanto mais andar de skate, até um amigo “literalmente me arrastar para fora da cama e me obrigar a andar de skate”. Ao sentir a necessidade desesperada de Stevie de algo que o tirasse da depressão, Ray diz: “Então vamos lá, pega no skate e sai já montado nele".

À superfície, Mid90s é o retrato de um miúdo preso numa casa complicada e às vezes violenta, de onde está a tentar escapar. Extremamente calado e aparentemente solitário, Stevie encontra aceitação num grupo de desajustados numa loja de skate de Los Angeles, chamada Motor Avenue. Ray, Fuckshit, Fourth Grade e Ruben aceitam-no no seu núcleo, ajudando-o tanto na vida como no skate.


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É uma exploração poderosa da angústia adolescente (e pré-adolescente) e uma visão iluminada sobre como os jovens se descobrem através dos amigos. Mas, onde Mid90s realmente brilha é no modo como mostra o que andar de skate significa para os praticantes mais fervorosos e a influência que o desporto tem neles. No caso de Ray, o skate já foi o suficiente para o tirar da depressão depois da morte do irmão e, no caso de Stevie, permite-lhe encontrar uma tribo que o aceita por quem ele é e oferece-lhe uma fuga à sua vida problemática em casa.

É difícil transmitir o quanto o skate significa para as pessoas que amam o desporto sem usar alegorias religiosas e a maioria dos filmes que o tentam fazer falham miseravelmente, habitualmente com tantos clichés que causam vergonha alheia a qualquer pessoa que já foi consumida pela cultura. Aposto o meu dinheiro todo que Mid90s é o primeiro filme quase mainstream a capturar perfeitamente a sensação de mandar um ollie pela primeira vez, ou a montanha-russa de emoções que pressupõe sair a toda a velocidade, com o coração a disparar, a fugir da polícia depois de uma sessão sossegada com os amigos no pátio de uma escola abandonada.

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A Motor Avenue crew

O desafio de retratar correctamente essas sensações no grande ecrã - e o risco de ser humilhado pelos skaters da vida real se falhasse - era algo de que Hill tinha consciência, já que cresceu a andar de skate em Los Angeles. “Parte disso era 'Ah, o pessoal do skate vai ouvir que o gajo do Superbad está a fazer um filme sobre skate e vão dizer que vai ser um lixo'”, diz-me Jonah no escritório da A24, numa conversa que mantivemos na semana passada. E acrescenta: “E ninguém tinha mais consciência disso que eu. Obviamente, a menos que sejas o Spike Jonze ou poucos outros realizadores, não saberias o quanto isso afectou a minha vida, porque nunca tive uma reputação dentro do skate. Não acho que seja o meu lugar”.

Ele tinha razão em ficar nervoso. Os skaters são notoriamente sensíveis em relação à forma como são retratados em filmes, graças às décadas de "bonecos" exagerados, que acabaram por colocar os skaters e o skate em estereótipos ridículos. “O visionamento em que fiquei mais tenso foi no da Thrasher”, salienta Hill sobre a estreia em LA no mês passado, feita em parceria com a lendária revista de skate. “E foi difícil no princípio porque, sabes, [o skater profissional] Jason Dill e [o cineasta de skate] Bill Strobeck, que são meus amigos, estavam abertamente a dizer mal do filme. E tudo bem, mas é incrível ter o apoio deles e realmente mostrar o filme às pessoas. É uma cena tipo Campo dos Sonhos”.

Mid90s já está a ser comparado a Kids e, mesmo sendo fácil de perceber o porquê - os dois filmes são sobre miúdos skaters com vidas problemáticas a tentarem encontrar o seu lugar no Mundo -, enquanto os personagens do filme de Larry Clark são uns arruaceiros que, por acaso, andam de skate, para os miúdos no filme de Hill, o skate é a razão de viver, uma obsessão abrangente que afoga tudo o resto e serve para extravasar todas as merdas que acontecem nas outras partes das suas vidas. “Sabes, muito deste filme é sobre como estes miúdos não se conseguem articular”, explica Hill. E acrescenta: “Eles não sabem nem podem falar sobre os seus sentimentos... e andar de skate torna-se uma saída para isso”.

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Stevie e Ray.

Uma coisa em relação a skaters de meados dos anos 90 - e miúdos dos anos 90 em geral - é que eles usavam muita linguagem homofóbica. Isso já era mostrado em Kids, destacado pela cena onde Casper, Telly e os seus amigos insultam dois homens gay que passam pelo spot de skate. O diálogo em Mid90s não tenta enterrar essa história e, como resultado, as conversas entre os miúdos podem parecer um pouco chocantes em 2018. Ofensas a homossexuais são lançadas impiedosamente na Motor Avenue e, a certo ponto, alguém diz a Stevie que dizer “obrigado” é gay (ele internaliza e preocupa-se com isso, até que Ray lhe dá um skate e garante que não, que dizer “obrigado” não é gay, é educação).

“Fiz uma escolha muito pensada para mostrar homofobia e misoginia da maneira mais parecida com o que era a realidade de quando eu era puto, para a espelhar”, justifica Hill, “porque achei que era muito mais respeitoso do que mudar a história”. Ele discutiu a decisão de mostrar a cultura, inclusive as suas partes feias, com o seu produtor, Scott Rudin. A dada altura, Hill considerou colocar uma cena em que um dos personagens criticasse a linguagem dos amigos. “E Scott Rudin disse-me que era demasiado ofensivo. Perguntou-me: 'vocês faziam isso?' E eu disse que não, ao que ele me respondeu 'Então é ofensivo'. Para mostrar algo verdadeiramente, tem que se mostrar tudo - mesmo se for feio - essa é a mensagem”.

Se tudo der errado, pelo menos fiz exatamente o tipo de filme de que vou ter orgulho daqui 20 anos.” – Jonah Hill

O skate gosta de se retratar como uma comunidade inclusiva e progressista com uma mentalidade anti-bullying. E embora isso seja verdade em algumas coisas, ainda é uma indústria dominada por gajos brancos cis com uma história de intolerância. Quando Brian Anderson se assumiu gay num documentário de 2016 da VICE Sports, ele tornou-se no primeiro skater profissional abertamente homossexual. No documentário ele menciona que tinha medo que ao se assumir mais cedo pudesse prejudicar a sua carreira. Para uma cultura supostamente artística e avançada, ainda há muito caminho pela frente no skate e, enquanto o diálogo em Mid90s mostra uma época diferente, também serve como um lembrete do quanto a indústria ainda tem que melhorar.


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No final do filme, Fourth Grade, o cineasta do grupo, liga a sua câmara a uma TV para mostrar aos amigos aquilo em que estava a trabalhar. O filme de Fourth Grade assume o ecrã enquanto os créditos finais são mostrados e até se pode acreditar que é um filme real de skate dos anos 90. Os planos dos putos nos spots, na loja, em festas e simplesmente a viverem a vida são uma recriação perfeita do que toda a gente do skate dos anos 90 fazia com os amigos, provavelmente incluindo o grupo de Hill. Mais do que qualquer outro aspecto da obra, a filmagem foi o que me catapultou de volta à infância. Ela foi, obviamente, montada por alguém com profundo amor e respeito pelo skate.

Perguntei a Hill como foi fazer o seu primeiro filme sobre algo tão pessoal. “Olhei para os meus heróis, como Mike Nichols ou Barry Levinson, pessoas que começaram na comédia e têm carreiras prolíficas no cinema”, sublinha. E conclui: “E uma coisa que notei - assim como com todos os realizadores com quem trabalhei, como actor, os meus heróis, tu conheces o primeiro filme deles – só tens uma hipótese de fazer o teu primeiro filme. E pensei, bom, se quero realmente que esta seja a minha carreira e a minha vida, só tenho uma oportunidade de fazer isto pela primeira vez, por isso vai ser sobre algo com que me importo. E assim, mesmo se me espalhar ao comprido, pelo menos fiz exactamente o tipo de filme de que me vou orgulhar daqui a 20 anos”.

"Mid90s" chega aos cinemas dos EUA hoje, 19 de Outubro. O filme ainda não tem data de estreia prevista para Portugal.


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