Música

Anna von Hausswolff. Vai aonde te leva o coração (e o ritual nórdico)

Portugal acolhe quatro concertos da sueca que apresenta o místico álbum, "Dead Magic". Novembro começa em grande.
26.10.18
Anna von Hausswolff artista sueca
O quarto longa-duração da pianista/organista aumentou o buzz em seu redor. Iggy Pop está entre os fãs mais conhecidos. (Foto por Carl Osbourn, no instagram oficial da artista)

"Que o mistério esteja contigo". Esta podia ser a palavra-passe antes de entrar numa cerimónia baptizada pela cantora sueca e antiga estudante de arquitectura, Anna von Hausswolff. No âmbito do Misty Fest, ela dá quatro concertos em Portugal. Na ressaca da noite de Halloween, a 1 de Novembro (quinta-feira), arranca a mini-digressão, no Tivoli BBVA, em Lisboa, passando de seguida por Coimbra (dia 2, no Convento de São Francisco), Ponta Delgada/ilha de São Miguel (3; Teatro Micaelense) e Porto (4; Casa da Música). O longa-duração, Dead Magic, lançado este ano na editora City Slang, é a principal atracção do alinhamento. Conta com produção de Randall Dunn, figura ligada aos Sunn O))), tendo sido gravado, durante nove dias, na Dinamarca.

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Longe vão os tempos em que a música nórdica, no campo feminino, dependia dos feitos da islandesa Björk. Na última década e meia, há nomes que nos dão boas sensações ao pormos os auscultadores prego a fundo. A dinamarquesa Agnes Obel, as norueguesas Jenny Hval e Susanne Sundfør ou as suecas Lykke Li, Robyn e Ann von Hausswolff, têm marcado o panorama musical e revelado discografias interessantes. Nos próximos dias, é a vez de von Hausswolff, de 32 anos, regressar aos palcos portugueses, depois da actuação no portuense Amplifest em 2016.

Magia sonora para decifrar de forma pessoal

Anna von Hausswolff

A compositora a tocar num "pipe organ", no Örgryte New Church, em Gotemburgo. (Foto por Peter Clausson, no instagram oficial da artista)

A obra da pianista/organista Anna von Hausswolff já mereceu vários epítetos. É só escolher. "Folk-gótico", "post-rock", "funeral pop", "art-pop", "proggy-doom" ou "post-metal". Na verdade, essas denominações pouco importam. Isto é boa música, ponto. Numa entrevista concedida ao jornal The Guardian, a compositora mostra-se desiludida por vivermos numa sociedade dominada pelo "materialismo extremo onde tudo tem de ser explicado". Aplicando essa ideia ao quarto álbum, Dead Magic, von Hausswolff deseja que os ouvintes abandonem a preguiça e interpretem, de maneira livre, os enigmas contidos nas cinco canções - os neurónios ao serviço da imaginação e da descoberta.

Desde a faixa de abertura ao pacificador encerramento, somos imbuídos por misticismos que podem ter diversas leituras. Esta é a minha. Na primeira, "The Truth, The Glow, The Fall", a autora evoca a procura de um destino ensombrado (ou não), sendo que os últimos minutos soltam um trepidar fascinante pela queda, ao cantar repetidamente "Feel the fall". Em "The Mysterious Vanishing of Electra" - que entrou numa playlist de Iggy Pop, na BBC -, é fácil concordar com um comentário no YouTube que a descreve como o resultado de ter "Michael Gira (The Swans) como pai, Nico como mãe e Diamanda Galás como fada-madrinha". Em complemento, o teledisco aponta para Nick Cave and The Bad Seeds e o intrigante LP, Murder Ballads (confirmar no vídeo abaixo). "Ugly and Vengeful" arranca com palavras imperceptíveis nos primeiros cinco minutos e, após a completa audição (mais de 16 minutos), conclui-se que merece constar numa banda sonora de um hipnótico filme do Fantasporto.

Com o instrumental "The Marble Eye", abrem-se brechas de esperança e é exaltado um instrumento essencial neste trabalho: o órgão de tubos da igreja Marble, em Copenhaga. O impronunciável "Källans återuppståndelse" fecha o álbum e só vem à cabeça a palavra descompressão. Como se tivéssemos chegados a um território reluzente, uma espécie de regresso a casa depois de deixar para trás fantasmas, medos e outras mortalidades que assaltam a vida. Faz-se luz e o corpo fica mais leve para abraçar o próximo vazio. Nós, humanos, jamais ficaremos satisfeitos com o que temos.

2018 tem em Dead Magic um disco de invejável qualidade, escrito e orientado por uma "ela" a solo. Ao lado, por exemplo, de I Need To Start a Garden, de Haley Heynderickx; At Weddings, de Tomberlin; Hunter, de Anna Calvi; Dirty Computer, de Janelle Monáe; e Tell Me How You Really Feel, de Courtney Barnett. Se marcares presença num dos quatro concertos de Anna von Hausswolff e restante banda, uma dica: deixa o teu coração levar-se por este ambíguo ritual.

Podes escutar o álbum "Dead Magic" no bandcamp da artista. A nona edição do Misty Fest decorre entre 31 de Outubro e 25 de Novembro, em vários locais espalhados pelo País e duas localidades em Espanha. Consultar o programa aqui.


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