'Juno' me fez sentir menos sozinha quando engravidei na adolescência
Foto cortesia da Fox Searchlight .
Feminisme

'Juno' me fez sentir menos sozinha quando engravidei na adolescência

Dez anos depois do seu lançamento, “Juno” ainda é um dos filmes mais importantes sobre gravidez na adolescência.
7.12.17

Texto originalmente publicado no Broadly .

No dia 5 de dezembro de 2007, Juno foi lançado oficialmente nos cinemas dos EUA e Canadá. Também podia ter sido o dia em que me tornei uma mãe adolescente, se eu não tivesse abortado logo depois de engravidar.

Quando tinha 12 anos, fui estuprada por um conhecido e engravidei. Apesar de falar publicamente sobre minha experiência com estupro e ter me envolvido com ativismo, sou bem menos aberta sobre meu aborto espontâneo – um evento que me impactou e moldou de um jeito diferente que o trauma sexual.

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Minha gravidez foi diferente da de Juno. Juno sofre discriminação por ser uma grávida adolescente visível, enquanto eu abortei com nove semanas e nunca contei a ninguém sobre a gravidez. Juno escolhe colocar o bebê para adoção, enquanto duvido muito que eu tivesse tomado essa decisão. A gravidez de Juno foi resultado de uma transa com seu melhor amigo, enquanto a minha foi resultado de um estupro.

Mas nossas histórias têm algo em comum: nenhuma de nós era um conto clássico sobre gravidez na adolescência. Juno foi o primeiro e único retrato de adolescente grávida com que consegui me identificar, em parte porque ela é uma personagem única e era fácil se colocar no lugar dela.

Enquanto alguns críticos dizem que Juno tinha uma mensagem antiaborto, não vi o filme desse jeito. Histórias de aborto são importantes e simplesmente não são contadas tanto quanto deveriam, mas quando Juno decidi não abortar, é possível explorar a discriminação enfrentada por adolescentes grávidas.

Quando a técnica de ultrassom de Juno faz um comentário sarcástico sobre a gravidez dela, lembrei das enfermeiras da clínica local onde tentei conseguir ajuda. Quando os colegas de Juno se afastam dela como o mar se abrindo no corredor da escola, isso me lembrou quão assustada e isolada me senti. E quando a colega pró-vida de Juno protesta em frente a uma clínica de aborto, lembrei do fato de que minha gravidez era política, mesmo eu não querendo que ela fosse.

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Cresci na África do Sul no começo dos anos 2000, quando educação sobre HIV/AIDS estava no auge. Na escola, tínhamos uma aula chamada “Orientação de Vida”, que funcionava basicamente como educação sexual. Nossos livros didáticos estavam cheios de “estudos de caso” de crianças da nossa idade passando pelas situações que estávamos aprendendo. Éramos avaliados pela habilidade de aconselhar essas crianças hipotéticas, o que significava principalmente dizer que elas precisavam se abster do sexo, ficar longe de drogas e, quando tudo mais falhasse, consultar um adulto de confiança.

Muitos estudos de caso eram sobre garotas que engravidaram. A razão para elas terem engravidado era sempre dada (se sentir pressionada por amigos ou pelo namorado), já que era importante que os alunos dissessem que elas não deveriam ter engravidado em primeiro lugar, antes de aconselhar sobre como proceder. Nenhum outro detalhe sobre essas garotas era considerado; nunca ficávamos sabendo seus hobbies, interesses e objetivos para o futuro.

Éramos ensinados a ver essas adolescentes grávidas como estudo de casos – não seres humanos.

Durante e depois da minha gravidez, esses estudos de caso me assombravam. Meus livros didáticos de Orientação de Vida se tornaram impossíveis de ler – e tudo em que eu conseguia me focar era no nome dessas garotas, e imaginar o meu no lugar. Eu ficava vermelha porque sentia que meus colegas – cuja compaixão por adolescentes grávidas já tinha sido reprimida através das aulas – notariam que eu estava agindo estranho, um sinal de que eu estava numa situação vergonhosa que poderia ter sido prevenida, como as das garotas nos livros.

“O jeito único de Juno é um lembrete persistente de que adolescentes grávidas são seres humanos.”

Se houvesse um estudo de caso sobre mim, o que ele diria? “Sian descobriu que estava grávida depois que foi estuprada na casa de um amigo. O que ela deve fazer?” Eles não mencionariam que eu era uma estudante nota 10, que eu adorava Meg Cabot e artesanato. Minha gravidez seria reduzida a um problema que precisava ser resolvido.

Eu imaginava os conselhos que meus colegas me dariam: “Ela não deveria ter ido à casa do amigo sem um adulto. Ela deveria contar para os pais e um professor. Ela deveria pensar em colocar o bebê para adoção”. Eu sabia essas banalidades de cor. Eu queria que minha situação fosse tão inconsequente quando uma pergunta de prova, eu queria aprender a resolver o problema em vez de apenas papagaiar o que tinha lido.

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Mas principalmente, eu queria não estar sozinha. Até assistir Juno, eu achava que estava.

Os produtores se importam muito com Juno para desumanizá-la e a transformar numa metáfora. Nunca nos deixam esquecer que ela é uma pessoa completa com uma grande personalidade: ela é simpática, tenta tomar decisões maduras e tem um senso de humor estranho. Esqueça adolescentes grávidas – Juno desafia estereótipos de adolescentes, ponto. Juno nunca é reduzida à sua gravidez, e o filme não se centra em sua decisão de fazer sexo. Diferente da líder de torcida Quinn Fabray em Glee, Juno não é apresentada como alguém que chegou perto de arruinar sua vida quase perfeita engravidando. Juno tem problemas, mas não cai nos tropos unidimensionais da “adolescente problemática”.

Peculiar, o jeito único de Juno é um lembrete persistente de que adolescentes grávidas são seres humanos. Em Juno, vi uma adolescente irritantemente precoce como eu, usando frases como “chocantemente cavalheiro” quando “relaxado” daria na mesma. Meus colegas e o resto do mundo celebraram a estranheza de Juno, fazendo referência a seu telefone de hambúrguer e piadas como “mijando como um cavalo”. Quando Juno é amada e protegida durante e depois de sua gravidez, isso me fez sentir que eu também merecia ser vista com um ser humano completo, mesmo tendo sido uma adolescente grávida.

Desde a eleição de Trump, há um ataque persistente ao acesso à medicina reprodutiva, o que tem um grande impacto em adolescentes procurando anticoncepcionais e abortos. Num país onde educação sexual está longe de ser abrangente, jovens não ficam apenas sem acesso a serviços de saúde reprodutiva, mas ainda mais estigmatizados por um sistema que não dá prioridade para sua saúde sexual.

Parte da razão para ser tão fácil desumanizar adolescentes grávidas é porque só vemos representações rasas delas na mídia. Estamos cercados por estereótipos desumanizados como a “baladeira irresponsável”, o que facilita apoiar ideias que podem prejudicá-las. Numa era antes de Teen Mom da MTV, havia poucos retratos humanizados de adolescentes grávidas nas telas, e alguns, como Preciosa e Maria Cheia de Graça, foram criticados por perpetuar estereótipos sobre mães pobres, jovens e solteiras. E de fato, muitas das críticas sobre Juno debatiam que, em se tratando de um filme sobre gravidez na adolescência – que afeta mais comunidades pobres e adolescentes não-brancas – ele só mostra um final feliz para uma adolescente grávida branca, hétero e de classe média.

Uma única história não poderia representar a experiência de toda adolescente grávida, mas Juno deveria servir como um começo para explorar mais dessas histórias relacionadas com classe, raça, gênero e identidade sexual. Num mundo ideal, as garotas sem rosto dos estudos de caso da minha aula de Orientação de Vida ganhariam vida em histórias escritas tão carinhosamente quanto a de Juno.

Até hoje, Juno continua um dos filmes mais relevantes e importantes sobre gravidez na adolescência.

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