Como pedir desculpa, um guia para homens

Diz “desculpem-me” e aceita que isso não significa que as pessoas vão perdoar-te.

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nov 20 2017, 12:51pm

Fotos: Raymond Hall/GC Images, Jamie McCarthy/Getty Images para Cantor Fitzgerald, Daniel Zuchnik/WireImage.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Dizem por que as mulheres têm a mania de se desculparem demasiado. Mas, entre a onda de denúncias de abuso sexual que tem varrido o Mundo, e em particular os Estados Unidos, depois da queda de Harvey Weinstein, tornou-se claro que os homens têm o problema oposto: uma incapacidade quase patológica de pedirem desculpa.

A 10 de Novembro último, Louis C.K. confirmou a reportagem do New York Times que detalhava a forma como ele se tinha masturbado em frente a várias colegas comediantes sem o consentimento das mesmas. “Essas histórias são verdade”, escreveu C.K. numa longa declaração. “Na altura, disse a mim mesmo que o que fiz não era errado, porque nunca mostrei a pila a uma mulher sem lhe perguntar antes, o que também é verdade”.

Apesar de C.K. ter escrito “Sinto remorsos pelas minhas acções” e que “não me perdoo por nada disto”, em vez de realmente expiar os seus pecados, enfatizou “o poder que tinha sobre essas mulheres” que o “admiravam” e como retirou “vantagem do facto de ser amplamente admirado” na comunidade da comédia.

Curiosamente, faltou uma coisa na declaração do humorista: desculpem-me. Ao contrário de outros homens famosos acusados de assédio sexual, Louis C.K. reconheceu efectivamente o seu mau comportamento. “Não consigo conformar-me com a extensão da mágoa que lhes trouxe”, escreveu. Mas o que é que se passa com o "desculpem-me", que os homens acham assim tão difícil de dizerem?

Desculpas não são só uma admissão de culpa, servem também como uma promessa implícita de que vais tentar corrigir o teu comportamento e o teu modo de pensar no futuro. Tenho a teoria de que os meninos não são ensinados a desculparem-se como as meninas, portanto, numa tentativa de consertar esse erro social, aqui vai um guia para os homens aprenderem a pedir desculpas.

Não: pedir desculpas por ofender as pessoas que magoaste

Vamos tirar esta do caminho. A ferramenta mais velha de uma desculpa fajuta é “Desculpa se [ inserir acção idiota aqui] te fez sentir assim”. Eu sei que isto é errado. Tu sabes que é errado. Qualquer pessoa a quem estiveres a pedir desculpa sabe que é errado. A razão para algo que fizeste ter magoado alguém é, provavelmente, porque fizeste essa coisa. Assume a responsabilidade.

Outro problema da pseudo-desculpa “Desculpa por ter te magoado”, é que joga com o velho estereótipo das mulheres enquanto seres demasiado emocionais, o que torna a coisa toda ainda mais estúpida.

Sim: coloca-te no lugar das vítimas

Sei que parece um conselho de jardim de infância, mas, antes de dizeres qualquer coisa, imagina que és a pessoa que prejudicaste. O que ias querer ouvir?

Não: colocar a culpa do teu comportamento em factores exteriores

Quando Weinstein respondeu à reportagem inicial do New York Times, explicou: “Cresci nos anos 60 e 70, quando todas as regras de comportamento e os locais de trabalho eram diferentes”. Apesar do executivo de cinema caído em desgraça dizer que isso não era desculpa, é exactamente isso que este excerto sugere. Quando usas esta desculpa, estás a dizer que não tens responsabilidade total pelo que fizeste.

Depois de o actor Anthony Rapp acusar Kevin Spacey de abuso sexual contra ele quando tinha apenas 14 anos, Spacey afirmou que “não se lembrava do encontro”. “Se realmente me comportei como ele descreve, devo-lhe as minhas sinceras desculpas, pelo que terá sido um comportamento de uma pessoa embriagada, profundamente inapropriado”, escreveu o actor. Uma bebedeira não é desculpa para tentar pinar com um miúdo de 14 anos e insinuá-lo só prejudica o caso – e a vítima – ainda mais.

Sim: pede desculpa por tudo

Às vezes há mais para pedir desculpa do que apenas acções físicas. Louis C.K. passou anos a negar as acusações que confirmou depois do artigo do New York Times. Apesar de, na sua declaração, dizer “Sinto remorsos pelas minhas acções. E tenho tentado aprender com elas. E fugir delas”, ele não se desculpa por negar anteriormente relatos legítimos sobre o seu comportamento sexual inapropriado. Declarações em que C.K. nega tudo – em Setembro, por exemplo, disse ao New York Times “Não vou responder a isso, porque são rumores” – são profundamente ofensivas para as vítimas.

Não: mudar de assunto para se fazer de vítima

Na desculpa de Spacey a Rapp, ele resolveu assumir-se como gay, talvez numa tentativa de mudar a conversa ou de se posicionar como uma vítima no armário. Não se pode exagerar a reacção negativa desencadeada pela declaração de Spacey – desde a presidente do GLAAD, Sarah Kate Ellis, até Trevor Noah e Billy Eichner foram muitos os que o criticaram –, o que mostra que o público tem pouca paciência para abusadores que sentem pena de si próprios.

Depois de um homem acusar George Takei de o apalpar quando estava desmaiado, a estrela de Star Trek negou as acusações, depois, numa publicação no Twitter (agora apagada), culpou “bots russos” por “amplificarem histórias que contêm as alegações contra ele”. Philip Lewis, do HuffPost, respondeu: “Cansei-me de 2017”, o que resume bem a reacção geral a este tipo de coisa.

Sim: diz desculpem-me

Há um milhão de maneiras de evitar dizer, simplesmente, “desculpem-me”. Louis C.K. disse “Sinto remorsos pelas minhas acções”. Kevin Spacey disse “Devo-lhe as minhas mais sinceras desculpas pelo que terá sido um comportamento de uma pessoa embriagada, profundamente inapropriado”. Harvey Weinstein disse: “Entendo que o modo como me comportei com colegas no passado causou muita dor e desculpo-me sinceramente por isso”. Art Landesman, ex-editor do Artforum que renunciou depois de nove mulheres o acusarem de assédio sexual, disse: “Reconheço totalmente que testei certos limites, o que estou a trabalhar para corrigir. Nunca prejudiquei ninguém intencionalmente”.

E a lista continua.

É só dizer “desculpem-me”. Aceita, no entanto, que isso não significa que as pessoas vão perdoar-te. Na verdade, aceita que isso não tem nada a ver com o que estás a sentir. É sobre a dor que infligiste a outra pessoa e sobre o reconhecimento do remorso pelas tuas idiotices, não porque foste descoberto, mas porque sabes que o que fizeste foi errado.

É o básico, a sério.


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