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O tatuador da Yakuza explica porque é que as tatuagens nunca devem ser vistas

“Quando algo se torna moda, deixa de ser fascinante”.

Por Mahmood Fazal
21 Novembro 2017, 4:13pm

Horiyoshi III tatua um chefe da Yakuza.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Austrália.

Tendo crescido numa casa muçulmana conservadora, se algum dos meus primos fazia uma tatuagem precisavam de a esconder bem escondida. Tatuagens eram um tabu religioso e cultural. Lembro-me quando o meu tio dos EUA nos visitou, sempre que ele se servia à mesa de jantar, os nossos olhos iam directamente para as linhas pretas que apareciam por debaixo da manga da sua camisola. Eram um mistério para nós, apesar de podermos ver que para ele tinham algum significado espiritual.

Hoje em dia, a minha pele é marcada por nomes de amigos assassinados, um retrato de Gaddafi (ex-primeiro-ministro da Líbia), datas de prisão e um diamante do movimento 1%. Fiz as minhas tatuagens sabendo que os meus parentes próximos só as veriam durante o ritual islâmico de banhar o meu corpo antes do enterro. Queria que as minhas tatuagens formassem um retrato visual das ideias e eventos que me transformaram, literal e espiritualmente.

Sendo assim, fazemos as nossas tatuagens para nós próprios, ou para mostrar aos outros? No Ocidente, provavelmente um pouco dos dois. E é por isso que sempre achei a abordagem dos yakuzas japoneses às tatuagens tão fascinante. Eles acreditam que as tatuagens são particulares, por isso fazem tatuagens de corpo inteiro, que não podem ser vistas acima da gola ou das mangas. Desta forma, a humildade da sociedade japonesa impediu a cultura da tatuagem de interromper a vida pública.

Todas as fotos pelo autor.

De todos os tatuadores do Japão, Horiyoshi III é, provavelmente, o mais lendário. É um tatuador Irezumi, que vive em Yokohama e também é o tatuador favorito da Yakuza, a máfia japonesa.

Estava a chover quando apanhei o comboio para visitar Horiyoshi III. Fui recebido à porta do seu estúdio por dois homens de fato Burberry e levado para dentro, onde Horiyoshi estava concentrado no seu trabalho. Não conseguia entender os diálogos intermitentes em japonês. Eles davam palmadas no chão como se estivessem a tentar colar a carpete. Horiyoshi estava em silêncio. Não nos cumprimentou durante mais de uma hora. O zumbido silencioso da máquina era quase meditativo.

Os homens eram membros da família yakuza local. Horiyoshi estava a tatuar um peixe koi vermelho no chefe dos homens, um tipo grisalho que vestia um conjunto Champion vermelho. Ofereceram-me um cigarro e, nervoso, perguntei se não era melhor fumar lá fora. O zumbido da agulha de Horiyoshi parou abruptamente quando se começou a rir, como se estive a acordar de um sonho lúcido. “Relaxa, podes fumar aqui”.


Vê também: "A arte sagrada da tatuagem japonesa"


VICE: Porque é que achas que os membros da Yakuza gostam que sejas tu a tatuá-los?
Horiyoshi III: Os yakuza querem sempre o melhor; tudo tem que ser de primeira classe. O que vestem, os lugares que frequentam, as mulheres com quem andam e os carros que conduzem. Eles têm muito orgulho. E querem ter tatuagens bem feitas, por isso procuram-me.

No Ocidente, quando pensamos em homens japoneses com o corpo coberto de tatuagens, a primeira coisa que pensamos é na Yakuza.
A forma como a cultura da tatuagem está ligada à Yakuza e ao mundo do crime tem muito a ver com o jornalismo. Quando eu era criança, os miúdos liam sobre a Yakuza e achavam que eram más pessoas. Mas, conheço este homens pessoalmente. Fazem muitas coisas boas pela comunidade. Quando o terramoto aconteceu, eles responderam mais rapidamente que o governo. Toda a gente teve que sair das suas casas e foi a Yakuza que garantiu que ninguém fosse roubado.

Jovens yakuzas preparam-se para ser tatuados.

Li que, no período Edo, os criminosos eram muitas vezes punidos com tatuagens.
No período Edo, os criminosos recebiam o símbolo Tokigawa na nuca para evitarem a pena de morte. Só que, depois, os oficiais simplesmente arrancavam-lhes a pele antes de os executarem. Se tatuas o símbolo de uma família é um crime muito sério, quase tão mau como tatuar um símbolo samurai da primeira geração.

No Japão, esses símbolos têm conotações profundas. A criminalidade não nos interessa. Nem a intimidação plástica. Não fazemos tatuagens para mostrar masculinidade. Muitos dos nossos desenhos contêm uma cena de uma história. Se usas os símbolos de punição como uma tatuagem, não é bom, porque significa que foste preso por algo pequeno. No período Edo, se tivesses cometido um crime sério, cortavam-te a cabeça. É estranho falar sobre o que é bom, quando estamos a falar de crime.

Horiyoshi enrolando as costelas de um cliente.

Os yakuzas sentem que essas cenas da mitologia japonesa expressam quem eles realmente são, fora dos estereótipos alimentados pela propaganda?
Se a Yakuza quisesse usar tatuagens para mostrar ao público que são um gang, simplesmente teriam tatuagens visíveis e diriam que são yakuzas. Mas eles não são idiotas. Não acho que façam suas tatuagens com a aliança à Yakuza em mente.

Às vezes, as pessoas referem-se à Yakuza com a palavra ninkyō, que, na verdade, significa “ajudar pessoas abaixo de ti”. A Yakuza tenta ajudar pessoas e [a tatuagem] é tradicionalmente sobre isso. As tatuagens são para mostrar que têm a força para ajudar os mais fracos. Mas, não precisam de o tornar público.

Decorações e presentes de Horiyoshi.

Já te recusaste a fazer uma tatuagem?
Sim, nunca tatuo acima do pescoço, ou as mãos. Acredito que a beleza está no que não podes ver. O que é belo, é diferente para cada pessoa. Pode ter a ver com as profundezas da tua história pessoal e cultural. A estética japonesa é muito única em comparação com o Ocidente. Se pensares no seppuku (ritual de suicídio japonês), temos uma qualidade estética para o suicídio e a morte. É preciso, simples, frágil, ousado e com peso. Cerimónia do chá, arranjos florais, espadas samurais - há um estilo muito consciente em jogo.

Porque é que achas que é importante esconder as tatuagens?
A cultura das tatuagens no Japão ainda é tabu, mas por isso é que a cultura é tão bela. Os pirilampos só podem ser visto à noite, porque a sua beleza só é vista no escuro. Não podem ser apreciados à luz do dia. Quando algo se torna moda, deixa de ser fascinante. Na cultura ocidental, a tatuagem pode ser moda ou tendência, mas no Japão apreciamos tatuagens que não podes ver e é por isso que as achamos belas. A cultura japonesa é sobre estar nas sombras.

As igrejas ocidentais são iluminadas e opulentas, mas os nosso templos são silenciosos e escuros. Na cultura japonesa, retratamos a luz a explorar as sombras. A sombra dos budas é mais importante que o rosto das esculturas. As pessoas tatuam-se aqui, sabendo que não as vão estar sempre a mostrar e é por isso que levamos as tatuagens a sério. A nossa cultura espiritual é diferente da de outros países, porque quando mostramos as nossas tatuagens, isso toma a forma de uma luz misteriosa que está escondida. Por isso é fascinante.

Jovem yakuza mostra a sua tatuagem nas costas.

Acho essa ideia de ser atraído pela escuridão muito interessante.
É da natureza humana ser atraído para lugares escuros. Mesmo à noite, quando a lua está cheia, parecemos atraídos pela superstição do escuro. É a natureza humana. As pessoas são muito boas a usar as sombras para tirar sentido da luz. Na cultura ocidental, talvez comecem com a luz e tentem entender as suas sombras. No Japão, para entender o que a luz representa, exploramos as tradições das sombras.

Na nossa cultura, temos uma forma de teatro musical chamado Noh; isso vem de tempos antes de termos electricidade no Japão. As pessoas faziam fogueiras e actuavam ao redor do fogo. Não é como um holofote, porque não podes ver a acção perfeitamente, mas os figurinos reflectem as chamas. As roupas dos actores eram costuradas com fios de ouro e prata. Se a cena fosse iluminada perfeitamente, poderias ver os fios dourados, mas o drama da luz reflectida ganha vida no escuro.

Os arquitectos japoneses estão sempre a pensr nas sombras e na posição da luz do Sol. A posição das janelas é muito importante nas casas japonesas.

Shige disse-me para visitar os jardins Sankeien e pareceram-me mais arte que arquitectura.
Sim, os arquitectos calculavam cada mês do ano e assim podiam pintar a paisagem usando sombras, luz e as estações. Não é só com tatuagens. Mesmo quando olhas para o oceano e vês o reflexo da Lua nas ondas, parece misterioso e lindo, mas quando vais à praia durante o dia, o mar é brilhante, mas não transmite mistério.

Chefe da Yakuza tatuado com um peixe koi. Segundo o folclore japonês, o peixe koi pode subir cascatas e nadar contra correntes fortes.

Porque é que te recusas a ser chamado de artista?
Não vou negar. Sou um artesão e se as pessoas querem chamar a isso arte o problema é delas. Sou um artesão. Há uma escultura famosa chamada gato a dormir - nemuri neko . Chamam isso a uma grande obra de arte, mas não sei se o escultor queria que fosse arte. Ele era um artesão; tenho a certeza que nunca disse que era um artista.

Horiyoshi III.

As pessoas perguntam-se sempre me o que é que eu acho que é arte. Não sei onde fica a fronteira da arte padrão. Nos pergaminhos tradicionais japoneses, a forma de arte definitiva para o meio é quando não há pintura no pergaminho. Há beleza no espaço e o espectador deve imaginar o que é arte.

Tendo em conta a arte moderna, se alguém coloca pedras que encontrou no passeio numa galeria, isso é considerado arte. Castelos, espadas, cerâmica - é tudo arte. Onde estão as fronteiras? Pessoalmente, acho que a cerimónia do chá japonesa é arte. Não sei o que mais é arte. Isso depende de quem escolhe? Quem tem valor hoje em dia? O que tem valor?


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