Mundial 2018

Ao serviço do futebol sexy, da inteligência de Modrić e da queda dos papões

A dias da final inédita entre França e Croácia, fazemos o balanço da Copa russa em dezoito tópicos.

Carlos Reis

Carlos Reis

"Formiguinha" Modrić. O cérebro da Croácia é um dos grandes candidatos a ser o mais valioso deste Mundial. (Foto via FB)

Foi tão bom para ti, como foi para nós? A adrenalina do Mundial na Rússia está prestes a findar e o duelo final conta com franceses e croatas (domingo, 15 de Julho, RTP1, 16h00). Com ligeiro favoritismo da equipa liderada por Didier Deschamps, tudo se conjuga para um "partidaço" que até pode consagrar um novo campeão e o repetir da desfeita para o "galo" azul.

Antes (sábado, 14, 15h00), Bélgica e Inglaterra decidem quem será o terceiro classificado. Na hora de dizer adeus, fazemos o resumo em dezoito tópicos.

1. 23 Magníficos, mais 17 menções honrosas (a lista dos jogadores que se destacaram no meio de 736 privilegiados)

ONZE (1-4-3-3):

Courtois (Bélgica); Mário Fernandes (Rússia), Varane (França), Granqvist (Suécia), Lucas Hernandez (França); Rakitić (Croácia), Modrić (Croácia), Kevin De Bruyne (Bélgica); Hazard (Bélgica) Mbappé (França) e Kane (Inglaterra).

OS OUTROS DOZE (por ordem alfabética em cada posição):

GR: Lloris (França), Pickford (Inglaterra).
D: Mina (Colômbia), Pavard (França), Umtiti (França).
M: Cheryshev (Rússia), Coutinho (Brasil), Hasebe (Japão), Pogba (França).
A: Cavani (Uruguai), Perišić (Croácia), Ronaldo (Portugal).

E MAIS DEZASSETE (que ficam à porta da "convocatória"):

Subašić (Sérvia); Yoshida (Japão), Akanji (Suiça), Godin (Uruguai), Kolarov (Sérvia); Kante (França), Khazri (Tunísia), James Rodriguez (Colômbia), Isco (Espanha), Golovin (Rússia), Forsberg (Suécia); Carlos Vela (México), Cuenca (Peru), Shaqiri (Suiça), Mandžukić (Sérvia), Musa (Nigéria) e Lukaku (Bélgica).


Vê: "CONIFA: O Outro Mundial"


2. A estrela que nunca se apaga (Melhor Jogador)

Aos 32 anos, Modrić faz história com a Croácia e arrisca ser o melhor da prova. (Foto via Wikipédia)


No futuro, quando alguém questionar como foi possível o Real Madrid vencer três Ligas dos Campeões consecutivamente (2016, 2017 e 2018), o nome de Modrić deve ser apontado como um dos principais motivos desse feito.

Na competição russa, o centrocampista (com uma face a lembrar Cruyff e uma elegância "à Xavi") foi o mais consistente e regular entre os craques de topo. Uma "máquina" inteligentíssima a caminho de receber a Bola de Ouro? Esperemos que sim.

3. As boas dores de ser jovem... e inglês

Os habituais titulares de Inglaterra demonstraram que a tenra idade - de muitos deles - não foi um bloqueio ao seu desempenho. É o que dá jogar na melhor Liga do Planeta, onde impera o fair play e não há lugar para batoteiros; com um público que, se for preciso, aplaude a exibição dos adversários; conta com "artistas" estrangeiros e treinadores de nível elevado; e tem uma intensidade de jogo fantástica. Well done lads! O francês Mbappé, o colombiano Mina e o russo Golovin, são outros "putos" para seguir de perto no Qatar 2022.


4. Bate forte coração, isto é turbilhão de emoções (Jogos do caraças!)

(A FIFA diz que vais ter de ver este vídeo no Youtube)

Eis onze encontros que nos deram prazer seguir todos os pedaços dos 90 e tal minutos.

Fase de Grupos: Portugal versus Espanha 3-3; Alemanha vs México 0 -1; Sérvia vs Suiça 1-2; Japão vs Senegal 2-2; Irão vs Portugal 1-1; Espanha vs Marrocos 2-2;Coreia do Sul vs Alemanha 2-0

Oitavos de Final: França vs Argentina 4-3; Bélgica vs Japão 3-2 (no vídeo acima).

Quartos de Final: Brasil vs Bélgica 1-2.

Meia Final: Croácia vs Inglaterra 2-1.

5. Dez golos para a Eternidade

(A FIFA diz que vais ter de ver este vídeo no Youtube)

Num Campeonato do Mundo onde a bola parada teve uma importância decisiva (com mais de quarenta remates certeiros), escolhemos dez tentos inesquecíveis. Uns por serem de finíssimo recorte, outros por fazerem história em nome do país que representam e alguns pela envolvência da jogada.

- Cavani/Uruguai (o primeiro que marcou a Portugal).
- Cheryshev/Rússia (o segundo que fez à Arábia Saudita).
- Felipe Baloy (primeiro golo do Panamá num Mundial, com a Inglaterra).
- Kevin De Bruyne (frente ao Brasil - vídeo acima).
- Lozano (na vitória sobre a Alemanha).
- Mandžukić (com o golo aos ingleses, a Croácia chega à Final pela primeira vez)
- Modrić (num "tiraço" à Argentina).
- Musa (o segundo frente à Islândia).
- Quaresma (a trivela ao Irão).
- Ronaldo (o livre que marcou à Espanha).

6. Eles são o meu estilo (afinal, quem são os donos do futebol sexy?)

O Torneio não contemplou nenhuma formação que mostrasse um poder esmagador em relação aos outros. Não obstante, houve quem entusiasmasse pela vivacidade de movimentos, pela forma como assumiu a vontade em dominar e por ter alguns executantes fabulosos. Aplausos para a Croácia, Inglaterra, Bélgica, França e Brasil.

7. Exibições no fio da navalha (performance de Portugal)

Fernando Santos (e qualquer um com os pés assentes na terra) sabia que a empreitada seria mais difícil do que há dois anos. Depois da saída, fica a sensação de que o embate do afastamento foi a melhor performance. Aliás, Uruguai armou-se em Portugal e, das poucas vezes que foi à nossa área, fez a diferença - numa vitória por 2-1. Rui Patrício, Pepe e Quaresma, atingiram um nível exibicional bastante razoável e o "italiano" Ronaldo espalhou o "perfume galáctico", através de um hat-trick, no épico ante os espanhóis.

8. Festejar à grande e com uma pica diferente.

Fica na memória a "javardeira" saudável dos ingleses em vários locais em sua casa (ver vídeo acima) e as cores da celebração dos adeptos do Continente Americano nos Estádios russos.

9. Já que estamos no Verão, vai um banho táctico?

O Brasil-Bélgica é a partida onde foi clara a vitória da estratégia sobre o talento individual. O técnico catalão, Roberto Martinez, levou os belgas a ultrapassarem o que poucos acreditavam ser possível.

De resto, há mais sete seleccionadores que estiveram em plano de evidência. Foram eles, Zlatko Dalić (Sérvia), Gareth Southgate (Inglaterra), Takeshi Okada (Japão), Didier Deschamps (França), Aliou Cissé (Senegal), Carlos Queiroz (Irão) e Hervé Renard (Marrocos).

10. Mais certo do que errado (a actuação do VAR)

A primeira vez do Vídeo-Árbitro num Mundial foi aceitável quanto baste. Embora tenha existido erros, houve mais decisões a beneficiar a verdade desportiva do que a trair o que se passou dentro do relvado.

11. Mãos de aço com gigantescas defesas Vs Os falhanços do tamanho de uma capoeira

As defesas de Courtois frente ao Japão, ajudaram à reviravolta belga. Pode o seu futuro passar pelo Real Madrid? (Foto via FB)

Diz-se na gíria futebolística que a melhor defesa é o ataque, mas também é razoável pensar-se que o melhor ataque é impedir primeiro que a bola entre na sua baliza. Nas últimas semanas, houve gente que esteve em alta no segundo aspecto. Casos de Courtois (Bélgica; ver foto acima), Pickford (Inglaterra), Lloris (França), Subašić (Croácia), Jo (Coreia do Sul), Kasper Schmeichel (Dinamarca) e Hannes Halldórson (Islândia).

Em sentido inverso, os hispânicos De Gea (Espanha), Caballero (Argentina) e Muslera (Uruguai), mancharam a sua actuação com "aviários" para esquecer - ou lembrar, dependendo da perspectiva.

12. Mereciam mais - equipas (e um atleta) que mereciam outra sorte

Pedir justiça num desporto como o futebol é uma tarefa ingrata. Ainda assim, é com tristeza que vimos países como Japão, Marrocos, Senegal, Coreia do Sul, Peru e o Irão a abandonar a competição.

E depois há Cavani. Devido a lesão, um dos melhores strikers da actualidade, fez o último jogo frente à Selecção das quinas. Já agora, vale a pena ler o que Jorge Valdano (antigo campeão do Mundo ao lado de Maradona) escreve, no The Guardian, sobre a grandeza da atitude dos uruguaios.

13. Nem o Jorge Coroado teve uma azia deste tamanho

O confronto de palavras entre Carlos Queiroz (Seleccionador do Irão) e Ricardo Quaresma, teve contornos de mesquinhice. Ninguém deve retirar o mérito de Queiroz na evolução da modalidade em Portugal e ele, pela idade e a posição que ocupa, não devia ter entrado em provocações com um jogador - mesmo que este seja tão experiente como o "mustang" do Besitkas.

14. O ano que marca a passagem do reinado Messi-Ronaldo para o de Mbappé-Neymar "manhoso" Jr.?

Não há como dizê-lo de outra forma. Os dois campeões pelo Paris St. Germain ainda têm que comer muita "sopa de cavalo cansado" para atingir o nível da dupla Leo e Cris. Se a "gazela" Mbappé parece estar no bom caminho, Neymar pode ser o novo Robinho caso não controle o ego e as manhas em campo. O brasileiro tanto brilha com uma qualidade extrema, como num ápice se ilude com a vaidade do seu próprio espelho. O conflito que teve com Cavani, há onze meses, no clube parisiense, é sintomático da falta de compostura desde que saiu de Barcelona.

15. O lado exemplar do futebol

Foste tu que pediste uma pequena maravilha? (Foto cortesia Rodrigo Villalba/Memory Press)

A imagem do fotógrafo brasileiro, Rodrigo Villalba, que podes encontrar no seu Instagram, espelha a tolerância, o respeito e a luta contra o racismo no futebol. É relativa ao Polónia - Senegal.

16. Os papões já não moram aqui?

A maior parte dos favoritos esteve a milhas de ser mandão. Uns por formarem um conjunto quase vulgar (Argentina); outros por certa sobranceria (Brasil); ainda houve quem parecesse estar numa peladinha sem balizas (Espanha); e houve quem fizesse escolhas polémicas ao deixar no banco o guarda-redes que esteve em acção a época inteira - Ter Stegen -, preferindo quem esteve meses a fio a recuperar de uma lesão - Neuer.

Além disso, é um "crime" não levar Leroy Sané (Alemanha). A natural aproximação no capítulo do treino e do conhecimento do jogo por parte das Selecções de segunda ou terceira linha, faz com que haja menos vitórias dadas como certas.

17. Pequenos "Saltillos" em terras de Putin (O bom e o mau no capítulo do insólito)

Há estórias curiosas que gravitaram em redor do torneio.

- Foi com agrado que vimos fãs japoneses a darem uma lição de civismo ao recolherem o seu lixo das bancadas.

- Achamos exemplar a Federação espanhola ter demitido o seleccionador Lopetegui (uns dias antes de enfrentar Portugal), por este ter sido contratado pelo Real Madrid e de ter comunicado o facto aos dirigentes federativos, cinco minutos antes do anúncio oficial.

- Ficámos surpresos - e depois elucidados - pela Croácia ter expulso Kalinić (pelos vistos, arranjou uma desculpa esfarrapada para não querer substituir um colega).

- Podem milhões de adeptos comemorar ao mesmo tempo e de tal forma efusiva, que origine um pequeno abalo sísmico? Foi o que sucedeu quando o México marcou frente à Alemanha.

- E o que dizer dos atletas russos snifarem amoníaco no algodão (o que pretensamente ajuda em termos físicos e não é detectável no teste anti-doping)? É uma "normalidade" russa, com certeza?

18. Que cinco ilações podemos retirar tendo o Qatar 2022 em mente?

- Portugal deverá ter um plantel de luxo e mais bem preparado. À maior experiência de alguns estreantes que participaram nesta edição, junta-se a despedida de Ronaldo e a entrada de novos craques (fala-se de Diogo Dalot, João Félix ou Rafael Leão).

- Que depois da Croácia, não é de espantar que outro underdog chegue à final (de África ou da Ásia, quem sabe).

- Com mais quatros anos de rodagem, o VAR pode ajudar para que a modalidade seja mais limpa e com menos polémica.

- A actual Selecção inglesa terá "a" maturidade que a pode levar a ser uma das principais candidatas.

- Deseja-se que a arbitragem portuguesa melhore efectivamente, para que tenhamos representantes nas quatro linhas.

Mais informações sobre o que se passou no Mundial na Rússia, no site oficial da FIFA.


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