alterações climáticas

Como falar de forma inteligente sobre alterações climáticas e furacões

Algumas das razões que nos levam a vislumbrar um futuro mais quente e com mais catástrofes naturais.
05 September 2017, 1:09pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA**_.**_

Enquanto escrevo este artigo, as inundações provocadas pelo Furacão Harvey nos Estados Unidos começaram, finalmente, a baixar. Além de responder a questões sobre se esta tempestade levou mais morte e destruição a Houston, do que o Katrina a Nova Orleães em 2005, podemos agora ter uma noção mais completa da tempestade de um ponto de vista meteorológico. Uma estatística incrível: as chuvas preliminares na área de Houston foram o maior evento de precipitação nos EUA de todos os tempos. Foi uma tempestade tremenda.

Portanto, agora é altura de falar sobre alterações climáticas. Autores de direita, como Michael Bastatch, do Daily Caller, estão a saltar em cima dos liberais, como é o caso do antigo consultor de Barack Obama, Ben Rhodes, por, dizem, ousarem politizar o furacão quando, por exemplo, sugerem no Twitter que os Republicanos que se recusem a reconhecer as alterações climáticas terão que responder por mortes e destruição relacionadas com tempestades no futuro.


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"É frequente ver os Democratas a ligar eventos climáticos individuais extremos ao aquecimento provocado pelo homem, apesar dos alertas de cientistas de que fazer isso é problemático", escreveu Bastatch, correctamente. No caso do Harvey, ou das inundações desastrosas na Índia, Bangladesh e Nepal também a ocorrerem agora e que já mataram mais de mil pessoas, Bastatch está certo. Culpar as alterações climáticas por uma tempestade, é como culpar um crime individual por uma onda de crimes. Mas, apesar de tecnicamente correcto, este tipo de argumento é incrivelmente dissimulado.

Portanto, como é que devemos falar sobre alterações climáticas causadas pelo homem quando se trata de eventos extremos do clima? Ainda bem, que perguntas. É assim:

Sim, os eventos climáticos extremos estão a aumentar

O "Índex de Eventos Climáticos Extremos nos EUA", ano por ano, Gráfico via NOAA.

Em primeiro lugar, veremos nós (terráqueos) cada vez mais e maiores tempestades? É uma pergunta compreensível, porque, quem nega as alterações climáticas, continua a bater na tecla de que o Harvey foi o primeiro furacão categoria 4 desde o Charley, em 2004. A resposta para a pergunta anterior é "Sim". Mas, há uma resposta mais longa: "Mais? Provavelmente não no caso de furacões. Furacões maiores? Quase de certeza".

Tratando-se de tempestades, "a melhor evidência está nas mudanças relacionadas com chuvas extremas, com aumentos claros e mais fortes no nordeste [dos EUA]", segundo Kevin Trenberth, analista de clima do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas (NCAR em inglês), uma organização dedicada a essa exacta questão, entre outras. Mas, Trenberth alerta que em muitos casos - principalmente limitações técnicas - para furacões "a evidência é equívoca".

Portanto, regra geral, as alterações climáticas vão trazer chuvas mais extremas, mas não é provável que tragam mais furacões. "Com temperaturas do mar mais altas, esperamos ver os números diminuírem", salienta Trenberth. No entanto, isso não é necessariamente uma boa notícia: "Esperamos intensidade e tamanhos maiores, uma vida mais longa em geral, mas menos tempestades, porque uma grande tempestade pode substituir três ou quatro mais pequenas".

A culpa é da Terra mais quente

Em breve, ar e água mais quentes farão mais água do oceano evaporar. A fervura é um exemplo extremo dessa evaporação acelerada, mas, com temperaturas maiores na Terra, alguma água acaba sempre por se transformar em vapor. Em qualquer lugar mais quente, "tens mais moléculas a moverem-se mais rapidamente e mais delas a conseguirem saltar da água e a tornarem-se vapor", segundo Jeff Masters, um dos co-fundadores da Weather Underground (um serviço de meteorologia e não a milícia de esquerda com o mesmo nome).

No caso do Furacão Harvey, que se formou sobre o Golfo do México, a água estava "cerca de um grau centígrado mais quente que a média, pelo menos comparando com o que tínhamos há 40 anos atrás", explica Masters (outros cientistas do clima dão estimativas ligeiramente mais baixas, mas o ponto central continua a ser o mesmo). Esse aumento na temperatura, diz o especialista, corresponde a sete por cento mais evaporação de humidade. "Por isso, podemos supor, no caso do Harvey, que esses sete por cento de chuva extra se ficaram a dever ao aquecimento global", conclui.

O papel da evaporação nas alterações climáticas globais funciona de uma forma que "ainda não entendemos claramente", segundo o Painel Intergovernamental de Alterações Climáticas. Consequentemente, Masters diz-me que vê modelos alternativos para como a evaporação pode ter levado a até 30 por cento de mais chuva durante o Harvey. Mas, esse grau centígrado e o número de sete por cento a mais de precipitação têm uma história de confiabilidade, portanto vamos manter-nos com eles por enquanto.

Isto dá-nos uma perspectiva de quão piores os furacões serão no futuro. "Se os oceanos ficarem um grau mais quentes, digamos, daqui há 20 anos, colocamos mais sete por cento. Sete por cento mais sete por cento é igual a 14 por cento", sublinha Masters.

Um alerta: o meteorologista da A&M University do Texas, John W. Nielsen-Gammon, que também é o especialista climático oficial do Texas (um estado cujos oficiais eleitos geralmente recusam falar sobre alterações climáticas), diz-me que há muitos outros factores que podem mudar as taxas de precipitação, incluindo a taxa de ascensão do vapor, umidade do ar e intensidade das perturbações que podem causar essa ascensão em primeiro lugar.

Assim, segundo ele, "a medida 'mais quente igual a mais húmido' aplica-se [exclusivamente] às chuvas - quando todas as condições são correctas - e só numa base média de grande escala". Por outras palavras, só para ficarmos do lado seguro, vamos apenas utilizar essa fórmula durante furacões.

O aumento dos níveis do mar também tem um papel nisto

"O aumento dos níveis do mar não tem nada a ver com furacões, excepto o facto de tornar o ponto inicial para qualquer maré de tempestade mais alto", explica Nielsen-Gammon. Por outras palavras, isto tem muito a ver com furacões - só não tem nada a ver com a quantidade de vento ou chuva. Maré de tempestade é o que temos quando os ventos de um furacão empurram água do mar para a terra, causando uma inundação costeira. No caso do Harvey, o transbordo dos rios de Houston foi em direcção à costa ao mesmo tempo, resultando em mais inundação com o encontro das duas marés.

As alterações climáticas provavelmente pioraram tudo. Como Nielsen-Gammon aponta, o nível da água do mar já era maior antes da maré. Em média, o nível global do mar subiu 6,6 centímetros desde 1993, e talvez 21 centímetros desde 1880. Mas, isto é uma média. Graças à erosão costeira "ao longo da costa central do Texas, os níveis do mar subiram cerca de 45 centímetros", garante-me Masters.

"Os níveis mais altos dos oceanos significam que a maré de tempestade é maior e entra mais além no terreno. Portanto, tendo em conta a mesma força de furacão, a maré de tempestade vai mais além na terra do que iria há 50 anos atrás", salienta Sean Sublette, meteorologista do programa Climate Matters, da organização sem fins lucrativos Climate Central.

No entanto, calcular a ligação exacta entre aumento nos níveis dos oceanos e maré de tempestade envolve uma análise bastante complicada de dados, já que não há uniformidade no local e intensidade dessas marés. Pelo que, fazer uma afirmação precisa sobre esse efeito é quase impossível.

O mais importante é que isto vai voltar a acontecer uma e outra vez. As alterações climáticas estão lentamente a reescrever as regras que comandam o clima, pedaço a pedaço. Por isso, mesmo não sabendo como avaliar os seus efeitos em tempestades, o custo global dos desastres naturais provavelmente vai subir - incluindo os custos financeiros.

David Roberts, do Vox, aponta que, agora que sabemos que vamos ver mais catástrofes a longo prazo, mesmo que reduzir as emissões ainda seja fundamental, criticar pessoas por gerar gases de efeito estufa é uma forma pouco eficaz de proteger as comunidades norte-americanas de danos de inundações.

Ainda assim, parece que algumas das pessoas que negam as alterações climáticas há anos, também não estão interessadas em mitigar os danos. A ordem executiva que Donald Trump assinou no início do mês, revertendo as disposições da era Obama que visavam lidar com danos em infra-estruturas por calamidades futuras relacionadas com o clima, foi descaradamente perversa. Se a ordem for implementada com sucesso, nas próximas décadas, os norte-americanos irão sofrer materialmente com os Harveys e Katrinas que virão. E, definitivamente, virão.


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