Ilustração: Cassio Tisseo

Como o Mundial de 2018 explica o nacionalismo do século XXI

Fernando Cesarotti

Das estrelas da selecção de França aos suíços albaneses, os imigrantes do torneio futebolístico são como um micro-cosmos de como o nosso Planeta se organiza.

Ilustração: Cassio Tisseo

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Em tempos de globalização, o Mundial parece ser uma espécie de resistência do nacionalismo. As cores e bandeiras dos países aparecem em todo o lado, dos equipamentos às bochechas dos adeptos; os hinos são tocados antes dos jogos, muitas vezes com letras que realçam a força da pátria e pedem a cabeça e o sangue dos inimigos. Mas, na realidade, a globalização também atingiu em cheio o mundo da bola, com brasileiros a jogar por várias selecções, africanos nascidos na Europa e até questões nacionalistas causadas por jogadores de selecções teoricamente neutras.

Um levantamento do jornal brasileiro Folha de S.Paulo realça que, no Mundial da Rússia, foram inscritos 80 jogadores que defendem selecções de países nos quais não nasceram. Os recordistas são os franceses: ao todo são 50 jogadores nascidos no país, sendo que apenas 21 defendem os Bleus – que também conta com um congolês. Ou seja: daria para formar uma selecção francesa a mais e ainda sobravam jogadores.

Os principais “importadores” de França são a Tunísia, com nove jogadores, Marrocos e Senegal, ambos com oito. A questão é: quão franceses são, de facto, estes gajos? A maioria deles joga no país de Deschamps e são filhos de imigrantes, questão delicada em tempos de intolerância como os que se vivem actualmente.


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Ou, já não tão actualmente quanto isso: a única conquista de um Mundial por parte da França foi em 1998, em casa. A vitória sobre o Brasil contou com dois golos de um descendente de argelinos nascido em Marselha, Zinedine Zidane, a liderar uma equipa que, só entre os titulares, tinha Desailly, Thuram e Karembeu, para além dos então reservas Vieira e Henry, entre muitos outros descendentes de imigrantes. Mas, nem o título convenceu o líder da extrema-direita Jean-Marie Le Pen a aceitar a miscigenação: para ele, aquela selecção era “uma França artificial” e muitos jogadores não eram verdadeiros patriotas por se recusarem a cantar o hino nacional antes dos jogos. Em 2002, quando Le Pen chegou à segunda volta das eleições presidenciais com as suas propostas xenófobas, Zidane e Desailly fizeram campanha aberta contra ele.

De facto, a Marselhesa não é dos hinos mais suaves. A letra chama os inimigos franceses de “soldados ferozes que vêm degolar os nossos filhos” e de portadores do “estandarte ensanguentado da tirania” e pede que o país pegue em armas contra eles para “irrigar os nossos campos com o sangue impuro”. Para muitos em França, os “negros maravilhosos” como Mbappe, Pogba e Kanté, de franceses só têm o documento – como mostram os mais de 10 milhões de votos recebidos nas eleições presidenciais de 2017 por Marine Le Pen, filha de Jean-Marie e candidata com a mesma proposta que o pai, algo como “França para os franceses”.

Mbappe, cuja correria demoliu a Argentina, mandou Messi para casa e virou meme, nasceu em Paris, filho de pai camaronês e mãe argelina. Kanté também nasceu nos subúrbios da capital, numa família originária do Mali – chegou, inclusive, a ser convocado duas vezes para a selecção jovem do país africano, mas recusou. Pogba é de Lagny-sur-Marne, nos arredores de Paris, e o seu irmão mais velho, Mathieu, joga pela selecção da Guiné. Tanto ele como Kanté, gostem os ultra-nacionalistas ou não, são franceses - não só por nascimento, mas por opção.

“Eu sou espanhol, com muito orgulho, com muito amor”

As regras da FIFA sobre nacionalidade já foram mais rígidas. Até há alguns anos, jogadores com dupla cidadania que já tivessem jogado por alguma selecção, mesmo nas categorias jovens, não podiam defender outro país. A regra foi flexibilizada, mas com ressalvas: jogadores podem mudar de selecção, mesmo depois de já terem jogado pela equipa principal de outro país, desde que só em jogos amigáveis ou em competições com restrição de idade (categorias jovens ou Jogos Olímpicos) – assim, só pode mudar de camisola quem já tivesse a segunda cidadania quando jogou pela primeira.

Isto foi feito para evitar um verdadeiro festival de compra de jogadores, que ameaçou estabelecer-se num primeiro momento – por exemplo, o Qatar chegou a “contratar” Emerson Sheik para defender a selecção, mas o atleta acabou suspenso por não respeitar o regulamento. Já para o lateral Mário Fernandes não houve problema: o jogador nascido em São Caetano do Sul, Brasil, chegou a ser chamado para defender o Brasil em 2011, por Mano Menezes, e em 2014, com Dunga. Depois de alguns anos no CSKA, decidiu obter a cidadania russa. Está desde 2017 na seleção de Putin, sob críticas de ultra-nacionalistas locais. Jogou em todos os jogos dos anfitriões no torneio.

Mário é um dos cinco brasileiros a jogar por outras selecções e o único sobrevivente entre eles: já foram embora o curitibano-polaco Thiago Cionek, que defende a terra dos seus avós; o luso-alagoano Pepe e o hispano-sergipano Diego Costa, que saíram cedo e desconhecidos do Brasil e se naturalizaram depois de anos a jogarem no respectivo país. A Espanha contou ainda na equipa com Rodrigo Moreno, filho do ex-lateral flamenguista Adalberto, que vive desde a infância no país por causa de compromissos profissionais do pai.

Ainda pela Espanha, jogou Thiago Alcântara, filho do tetracampeão Mazinho. Ele não consta entre os brasileiros, porque nasceu em Itália, quando o pai defendia o Lecce, mas cresceu entre o Brasil e Espanha e, na altura de defender uma selecção, optou pelos europeus. O seu irmão, Rafinha, já jogou pelo Brasil com Tite e é nome certo para o ciclo até ao Mundial de 2022. Um eventual Brasil vs. Espanha, nos próximos anos, pode perfeitamente ter um confronto familiar.

Irmãos, irmãos, Mundial à parte

Não seria a primeira vez, aliás, que isso aconteceria. Nos dois Mundiais anteriores, os jogos entre Alemanha e Gana, na fase de grupos, tiveram duelo de meios-irmãos: o defesa central alemão Jerome Boateng e o avançado ganês Kevin-Prince Boateng. São filhos de pai africano com duas mães alemãs diferentes e viveram o mesmo dilema de tantos outros descendentes: escolher a selecção para jogar.

O sisudo Jerome ficou com os alemães, por quem ganhou o Mundial de 2014; o irreverente Prince, meio-atacante, depois de jogar pelas selecções djovens da Alemanha, preferiu o Gana. Os irmãos chegaram até a ter um desentendimento pouco antes do Mundial da África do Sul, quando uma entrada de Prince tirou de campo o veterano Michael Ballack, então no Chelsea. Jerome criticou o irmão pela falta de cuidado, levou uma resposta atravessada e os dois ficaram meio chateados durante algum tempo; mal se cumprimentaram antes do jogo. Hoje estão bem, mas o Mundial de 2018 não foi lá muito feliz para nenhum deles: a Alemanha passou uma vergonha, caiu na primeira fase e Jerome Boateng foi expulso na vitória contra a Suécia; o Gana nem sequer se classificou nas Eliminatórias africanas.

No Europeu de 2016, em França, houve outro confronto fraterno: a Suíça, de Granit Xhaka, venceu a Albânia, de Taulant Xhaka por 1 a 0. Nas bancadas, a mãe dos dois, Eli, vestia uma camisola preta e vermelha em que a cruz suíça dividia espaço com a águia albanesa. Dois anos depois, em campos russos, Xhaka voltaria a dar que falar.

Ódios milenares

Em 1986, Ragip Xhaka era um universitário de 22 anos que estudava na Universidade de Pristina, capital do Kosovo, então uma região autónoma da Jugoslávia, habitada principalmente por pessoas de origem albanesa. Durante protestos contra o governo central de Belgrado, foi preso e condenado a seis anos de cadeia. Passou três anos e meio preso, sofreu torturas e, depois de libertado, decidiu exilar-se. Foi, com a mulher, para a Basileia, onde nasceram os seus filhos: Taulant, em Março de 1991, e Granit, em Setembro de 1992.

Nessa época, a Jugoslávia como o Mundo a conheceu no período do pós-Guerra, estava a desfazer-se. A Croácia já pedira a sua independência, seguida pela Eslovénia, Macedónia e Bósnia. O Kosovo, que não tinha o mesmo status de república que os outros países, mantinha-se em estado de insubordinação leve, com protestos pontuais como o que resultara na prisão do pai Xhaka. A confusão ali, aliás, era muito mais antiga: remete ao século XIV e a batalhas épicas que fazem parte da construção da identidade do povo sérvio, que basicamente dava as cartas na Jugoslávia.

Ainda em 1992 chegou a Basileia uma outra família de kosovares-albaneses, vinda da cidade de Gjilan, que levava consigo um menino de um ano: Xherdan Shaqiri. Tal como os meninos Xhaka, ele cresceu nas camadas jovens do FC Basel, o principal clube da cidade e os três desde logo tornaram-se presença constante nas selecções sub-17 e sub-20 da Suíça, até chegarem à selecção principal. Em 2013, Taulant decidiu voltar às origens e atender à convocatória para defender a ascendente equipa da Albânia.

Palco de uma sangrenta guerra na viragem do século, o Kosovo ainda não teve a sua independência reconhecida pela comunidade internacional. Por exemplo, o Brasil e a Rússia não o fizeram, ao contrário dos Estados Unidos. A FIFA e a UEFA aceitaram a selecção kosovar em 2016, mas Xhaka e Shaqiri preferiram continuar a defender a Suíça, que se firmou recentemente entre as selecções de primeiro escalão – disputa o seu quarto Mundial seguido, em três deles tendo passado da fase de grupos.

O destino, esse sacana, reservou para o dia 22 de Junho, em Kaliningrado, um duelo entre a Sérvia, herdeira da Jugoslávia, e a Suíça de Xhaka e Shaqiri. Mitrovic, o grandalhão avançado sérvio, provocou antes do jogo: “Se são tão kosovares, porque é que não jogam pelo Kosovo?”. E ainda abriu a contagem na primeira parte, com uma cabeçada certeira. Nas bancadas, parte dos adeptos sérvios mostravam bandeiras com dizeres xenófobos e um casaco com a fotografia do ex-militar Ratko Mladic, condenado por genocídio contra muçulmanos na Guerra da Bósnia.

Aos sete minutos da segunda parte, Xhaka empatou com uma bomba de fora da área. Foi até à linha lateral e cruzou as mãos bem espalmadas – não era “a pomba da paz”, como tentou explicar o locutor global, mas sim a águia de duas cabeças, presente na bandeira albanesa (e na camisola da mamãe Xhaka em 2016). No prolongamento, Shaqiri puxou um contra-ataque e virou o jogo. Foi à mesma câmara, tirou a camisola e, à frente do abdómen bem definido, voltou a mostrar a águia.

O técnico suíço, Vladimir Petkovic, ele mesmo um bósnio de nascimento, preferiu colocar paninhos quentes na discussão e, pelo menos em público, lamentar “a presença da política no futebol”. O treinador sérvio, Mladen Krstajic, ficou mais irritado, criticou os jogadores e criticou o árbitro, dizendo que eles tinham que ser “mandados para Haia”, em referência à cidade holandesa onde está a sede do tribunal que julga crimes de guerra.

A FIFA agiu rapidamente, mas com mão leve: multou Xhaka e Shaqiri em 10 mil francos suíços cada um; a Federação da Sérvia e o técnico Krstajic pagaram cinco mil francos suíços, que são cerca de quatro mil e 400 euros (convenhamos, trocos no mundo do futebol internacional). Mais do que o dinheiro, ficou o recado: não misturem as coisas. Como se fosse possível.

Como se fosse possível não pensar se Mbappe e Pogba seriam aceites como franceses por todo o seu país se não fossem craques da bola; o que seria a vida de Shaqiri sem que a Suíça acolhesse a sua família; quantas vezes Pepe não foi ofendido em Portugal e noutros lugares por causa da pele mais escura, logo Pepe, cuja selecção de Portugal teve como primeiro grande craque o moçambicano Eusébio. Como se fosse possível esquecer, quando a bola rola, que o futebol é um micro-cosmos do Planeta, em toda a sua amplitude, um ponto de partida para mil reflexões sobre a vida.

E ainda há quem chame o Mundial de "pão e circo". Esses, não sabem de nada.


Fernando Cesarotti, 40, é jornalista e professor universitário. Assina a coluna Geopolítica das Copas , sobre futebol e política, durante o Mundial da Rússia.

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