Vida

Entre o rock e a canção de embalar, estes são os tais que viraram pais

Quando chega o tempo em que a família cresce, os músicos são chamados a gerir novas emoções: noites fora de casa, mediatismo e aquele apelo especial de quem tem um ofício raro.

Por Cláudio Garcia
28 Setembro 2017, 4:14pm

Fernando Ribeiro, Fausto e Sónia Tavares. Foto por Ricardo Graça/Jornal de Leiria

Este artigo foi originalmente publicado no JORNAL DE LEIRIA e a sua partilha resulta de uma parceria com a VICE Portugal.

O universo sonoro dos Moonspell está longe de ser um conto infantil e a carreira da banda no estrangeiro também não é brincadeira de crianças, mas a vida são dois dias e, tão depressa como se impôs na liderança do metal gótico em Portugal, o vocalista Fernando Ribeiro, actualmente a viver em Alcobaça, chegou ao grupo dos tais que viraram pais. Com cinco anos de idade, Fausto irrompe no estúdio com a naturalidade de um refrão, conhece as músicas do álbum Extinct, que rodam lá em casa e este Verão assistiu ao primeiro concerto completo do colectivo formado na Amadora. Aguentou até ao fim, "mas depois disse-me que eu canto muito alto". Menos mal. Quando ouviu a mãe em palco com Rodrigo Leão, algum tempo antes, adormeceu ali mesmo, entre a plateia.

Sim, o pai é o Fernando Ribeiro dos Moonspell e a mãe é a Sónia Tavares dos Gift. Ou seja, o Fausto convive desde muito cedo com as consequências do mediatismo – e convive bem, na perspectiva dos familiares. "Ele percebe que temos uma cena diferente, que nos faz sair muitas vezes de casa, mas, por outro lado, que é um trabalho fora da norma. E gosta disso", afirma Fernando Ribeiro. "O que é fixe é que ele consegue relativizar muito a nossa fama. No fim do dia, para ele eu sou apenas o pai do Fausto". Quando os filhos do rock (e da pop) chegam a pais (e mães), "as prioridades mudam", sublinha Sónia Tavares. Mesmo quando a carreira permanece intacta. "Não deixamos de fazer as coisas, mas com outro sentido".

O artista agora é homem (ou mulher) de família: fraldas, noites sem dormir, birras no supermercado, o pacote completo. Adeus inspiração? Ou o grande artista é aquele que saca um solo de guitarra enquanto limpa o rabo a meninos? "Tantas vezes que sou interrompido pelo Fausto no meio das minhas melhores ideias, mas faz parte", contrapõe Fernando Ribeiro. Que vai mais longe: "Para compor, o Fausto é muito importante". Exemplo melhor do que o tema "The future is dark" não há – foi escrito pelo líder dos Moonspell como uma espécie de carta ao filho.

Na banda que cultiva o negro como atitude estética e fonte criativa, já todos chegaram ao ciclo da paternidade. É imaginar os lobos solitários que somam 225 mil fãs no Facebook e assinaram os álbuns Wolfheart, Irreligious e Sin, entre outros, transformados em gatinhos que aquecem biberões. Não é um cenário totalmente cool. "Os meus pais não tinham tempo para ser fixes, eram pais que andavam sempre a tentar resolver problemas", compara Fernando Ribeiro. "O nosso caso é diferente, porque somos pais muito mais tardios. Vamos continuar a ser fixes, porque temos algum follow do público e, por outro lado, é claro que eu adoro os meus pais, mas se pudesse ter tido um pai rock star era fantástico. Para além de todas as ausências, de tudo o que corre menos bem, há este factor de ir para os palcos, que é muito apelativo para as crianças".

Uma vez tomada a decisão de continuar a investir no ofício que se ama, a espalhar magia Mundo fora com a família a milhares de quilómetros de distância, "o mais cruel é o factor saudade", reconhece Fernando Ribeiro. Não é para menos, os Moonspell chegam a estar dois meses em digressão. "Uns dias antes, sofre-se um bocadinho", por antecipação, instala-se "um vazio", mas o espectáculo tem de continuar. E quando sai para a estrada, é deitar mão ao que se pode: conversas via Skype, mensagens e, por vezes, reencontros breves a meio da viagem, num qualquer país improvável onde a banda portuguesa tenha seguidores. Até ao próximo regresso, até ao próximo adeus.

Pai ou super-herói?

Com Tiago Carvalho, guitarrista dos Allstar Project, de Leiria, os horários mais exigentes, na música, surgiram depois de ser pai. Desde que se juntou à banda de David Fonseca, multiplica-se o tempo fora de casa, em concertos e outros compromissos. Há sempre a estratégia de mimar a garotada com prendas. Mas há outras? Parece que sim: "Há. Quando estás, estás".

De regresso ao lar, doce lar, "os dois mundos misturam-se de forma muito natural", garante Tiago Carvalho. "Mas normalmente é ele [o filho] que saca o solo. Mete o volume no 11, liga o fuzz e manda-se de joelhos!". De resto, se "o Mick Jagger é pai de família em todos os continentes", não há que ter medo do dia seguinte, aquele em que alguém acorda no duplo papel de músico profissional e pai de família. "Claro que é possível! E o melhor de tudo é a música fazer parte da vida dele".

Fica a ideia que alguém capaz de enfeitiçar estranhos, só com truques e harmonias, depressa se torna ídolo lá em casa. Mas o caminho tem mais curvas do que rectas. "A guitarra não faz de ti o herói. Quando corres, jogas, ris e brincas com ele, aí sim, passas a ser o herói", diz Tiago Carvalho, lembrando que o acesso aos bastidores do showbiz não é passaporte imediato para a fórmula que resolve todos os problemas da paternidade. Embora dê um empurrãozinho: "Há pais que amam a música e as artes e são péssimos educadores, mas uma educação sem esses alicerces é, com toda a certeza, muito mais pobre", explica.

Quando dois mundos (não) colidem

Questionar o que muda na vida de quem faz vida nos palcos é oferecer uma pergunta onde a resposta não cabe, conforme resume Afonso Rodrigues, pai desde há dois meses: "A tua perspectiva para o Mundo altera-se, portanto, a partir daí, tudo se altera". Dez dias depois do nascimento da filha, o vocalista e mentor do projecto Sean Riley & The Slowriders estava a actuar ao vivo. O que o leva a completar a declaração anterior: "Não quer dizer que não possas tocar, que não possas fazer a tua vida como fazias. Da mesma maneira que não tocas aos 30 como tocavas aos 18, porque a tua visão do Mundo é diferente".

Lá por casa já acontecem aqueles momentos pai filha em modo concerto privado – "Quando tenho tempo sento-me e toco guitarra para ela" – mas é cedo para tatuar o amor de pai numa nova música da banda com raízes em Leiria. "É uma coisa demasiado grande para nós conseguirmos absorver e transformar numa canção num período de tempo tão curto". Na rua, Afonso Rodrigues continua a ser idolatrado pela música que faz, em casa continua a garantir as compras de supermercado e a meter a louça na máquina. Nada muda, garante. "Continuo a ser a mesma pessoa em todo o lado. Acho que a melhor coisa que podemos fazer pelos nossos filhos é trazê-los para a nossa vida, não mudar a nossa vida em função deles, ou tentar que eles sejam o que quer que seja".

No percurso do fundador dos Sean Riley há um momento-chave em que decide abandonar o curso de Direito em Coimbra, a um ano de sacar o canudo, para apostar tudo na música. A reacção dos pais "não foi muito boa", mas ele acredita que a mãe, depois de assistir ao primeiro concerto, ficou satisfeita e convencida que o rumo certo era mesmo fora da universidade. E agora que o filho Afonso é o pai Afonso? "Se a minha filha quiser ir o mais longe possível na escola, eu obviamente vou sempre passar a informação de que deve fazê-lo. Só tenho que aconselhá-la nesse sentido, porque a maioria das vezes nós conseguimos traçar outros caminhos e ainda assim concluir a faculdade".

E se lhe aparecer a dizer que quer ser contabilista? Também está bem. Sean Riley garante que não lhe mete uma guitarra nas mãos já depois de amanhã. "Quero que faça aquilo em que se sinta bem e saiba que nós estamos aqui, o pai e a mãe, para a apoiar. Se for bailarina, perfeito, se quiser ser padeira, perfeito, se quiser dar a volta ao Mundo de bicicleta, perfeito. Quero é que seja uma boa pessoa, que tenha bons princípios, que seja correcta com os outros. O resto vai depender muito da vida dela".

Cláudio Garcia é jornalista do JORNAL DE LEIRIA.