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Drogas

Estes são os filhos fugitivos de traficantes de droga internacionais

A autora – que, em criança, foi obrigada a viver em várias partes do Mundo por causa do pai traficante de erva – conta a sua história e as de pessoas que tiveram vidas parecidas.

Por Tyler Wetherall ; Traduzido por Madalena Maltez
24 Abril 2018, 3:47pm

A autora (a bebé de moicana) na lua-de-mel dos pais em Maui, quando a família começou a ser vigiada. O homem de branco ao fundo era um agente do FBI.

 

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Tinha nove anos quando descobri que o meu pai era um fugitivo. Uma manhã, em vez de nos levar à escola, a minha mãe chamou-nos - a mim e à minha irmã - ao seu quarto, juntando-nos na sua enorme cama king size enquanto bebíamos uma chávena de chá. Disse-nos que o nosso apelido não era real, mas sim um pseudónimo e que, nos últimos sete anos, a nossa família andava a fugir do FBI. Toda a vida de que eu me conseguia lembrar.

Só muitos anos depois é que descobri o que ele tinha feito. A organização do meu pai tinha contrabandeando quase 500 mil milhões de dólares em erva para os EUA no final dos anos 70 e início dos 80. Quando nasci, em 1983, os federais já vigiavam a nossa casa. Dois anos depois, a investigação fechou o cerco contra ele e os meus pais decidiram que, em vez de separar a família com a sua iminente prisão, tínhamos que sair do país. Esperavam que tudo passasse.


Vê: "O tráfico de erva na região de Everglades, Flórida"


Pensando bem agora, foi uma má ideia. Mas, na época não éramos a única família a fazê-lo e por uma boa razão: na ofensiva contra as drogas dos anos 1980 de Ronald Reagan, algumas sentenças duplicaram, com uma pena mínima obrigatória e sem direito a condicional. A abordagem liberal do ex-presidente Jimmy Carter considerava a comunidade de tráfico de canábis relativamente benigna – á época, maioritariamente composta por hippies com ligações e negócios pequeno. Mas, com a poderosa recém-formada Drug Task Force mobilizada contra eles, muitos passaram a fugir – e levaram as suas famílias com eles.

Quando em 1985 chegámos à Europa, vindos da Califórnia, tornámo-nos parte de uma rede de fugitivos que se estendia por todo o Continente. Esses fugitivos trocavam informações e contactos entre si: como inscrever os filhos na escola com nomes falsos, quem tinha sido preso e por quanto tempo e onde esconder dinheiro ilegal. E depois havia as crianças, que cresceram a coleccionar moradas e nomes como outras crianças coleccionam Barbies. Filhos que cresceram a guardar segredos que podiam pôr os seus pais na cadeia.

Claudia* tinha 10 anos quando os seus pais lhe disseram que precisava de trocar de nome. O seu pai, Aaron, tinha feito tráfico com o meu pai na Califórnia e os dois foram mais tarde acusados de comandar um Empreendimento Criminoso Contínuo, conhecido como o Estatuto de Chefe, que segundo as novas leis dava uma sentença mínima de 20 anos. Aaron era um homem gentil e sossegado, que fugiu com a esposa e as duas filhas um pouco antes de nós.

Claudia lembra-se de estar sentada num restaurante em França à espera de um gelado, quando o pai disse que dali em diante ela devia usar o apelido Sewell. Durante os primeiros seis meses, Claudia escreveu mal o seu novo apelido. O seu pai não se lembrou de lhe mostrar como se escrevia e disse-lhe apenas que estava com problemas por evasão fiscal. Foi isso que nos disseram também, a contar com a ignorância das crianças no que respeita a assuntos relacionados com impostos.

A irmã de Claudia, Anna, tinha 18 meses quando deixou os EUA. Cresceu a acreditar que toda a gente recebia um nome diferente quando ia morar para a Europa, uma explicação de criança para o inexplicável. Nunca questionávamos o que nos diziam, pelo menos não ao princípio. Era tudo o que conhecíamos. Em vez disso, preenchíamos as lacunas sem sequer nos apercebermos.


Vê: "'El Naya': a rota secreta do tráfico de cocaína da Colômbia"


A minha família mudou-se de Itália para Portugal e depois para o sul de França, para se juntar a outros fugitivos que conheciam e que tinham ali assentado com sucesso. Em Mougins, Baby Doc – o ditador haitiano – era nosso vizinho e o traficante de armas saudita, Adnan Khashoggi, morava na casa do outro lado. Era um sítio onde quem tinha riqueza dúbia podia viver sem levantar muitas suspeitas. Mesmo quando mudámos para o Reino Unido e os meus pais se separaram, passávamos o Verão em França com outras famílias fugitivas. As crianças nunca falavam entre si sobre toda a situação. Fomos criados com uma regra: não digas nada! Claudia só contou a sua história a duas ou três pessoas na vida.

Alexander passou os primeiros nove anos de vida em movimento; perdeu a conta ao número de casas e escolas por onde passou. Mudou de nome três vezes e, em todas elas, o pai fazia-o escrever várias vezes o novo nome até ele o decorar. Alexander lembra-se de, quando tinha oito anos, participar numa festa de pijama em casa de uma amiga e de lhe dizer que tinha dois nomes diferentes. A amiga disse que isso era estranho, por isso, no carro a caminho de casa, Alexander perguntou ao pai porque é que aquilo era estranho. Foi a primeira vez que ouviu o seu apelido real. Sentiu-se como se estivesse numa aventura e aquele era agora o seu segredo. “Éramos mesmo uma equipa”, disse-me, ao falar sobre a sua família muito unida. Quando o mundo em redor é um fluxo constante, agarras-te aos mais próximos. Nós contra eles.

Tornamo-nos mestres da mentira e mestres em guardar segredos. Se alguém me questionava sobre aspectos da minha infância que não faziam sentido – as mudanças frequentes e a natureza estranha do trabalho do meu pai – eu inventava alguma coisa. Dizia que nos mudámos dos EUA, porque a minha mãe queria ficar mais próxima da família inglesa dela e que o meu pai era um investidor de capital. O que era verdade. Alexander descreve isso como pensamento duplo: acreditar tanto na história de cobertura como na verdade.

A prisão de outro grupo de fugitivos comprometeu a segurança da nossa casa no sul de França e muitos do nosso grupo de foras-da-lei mudaram-se. Alexander lembra-se do medo que sentiu quando o pai fugiu para um esconderijo em Paris, dizendo-lhe: “Se me acontecer alguma coisa, cuida da tua mãe e do teu irmão”. Quando Claudia voltou da escola no último dia de aulas antes do Verão, os pais disseram-lhe que ela nunca mais lá poderia voltar. A família estava a mudar-se para Florença e ela não podia avisar os amigos ou dizer a ninguém para onde iam. “Foi aí que soube que era algo mais sério que evasão fiscal”, contou-me. Logo a seguir, estava ela a ver um noticiário com a mãe, quando começou uma reportagem sobre traficantes e Claudia perguntou: “Esses são como o pai?”.

A viver em Nova Iorque – agora com 42 anos, mãe e dona de um bar na cidade norte-americana – ela não tem a certeza se realmente sabia a verdade. “Ele nunca teve um trabalho, mas eu não questionava isso”, disse. “Nós chamávamos ao telefone público da rua o seu escritório”. O seu pai sempre foi aberto sobre fumar erva. “Até hoje, erva é o cheiro de casa”, afirmou-me. E acrescentou: “Estás a ver a forma como outras pessoas dizem isso sobre tarte de maçã? É tipo isso”. Mais tarde, quando se mudaram para Paris, Claudia, então com 16 anos, vendia erva para ele. “Eu tinha mais negócios que ele. E ele ficou com medo de que fôssemos apanhados”.

O momento de epifania de Anna surgiu quando estava a ver o filme de River Phoenix, Running On Empty – sobre uma família da contracultura fugida do FBI – e reconheceu a sua própria vida na história.

Todos nós temos essas anedotas – confrontados com filmes de Hollywood enquanto tentávamos levar uma vida em família normal. Os nossos pais tinham identidades falsas, escapavam de agentes federais por pouco e tinham dinheiro secreto escondido em cofres de bancos. Mas, ficávamos confusos com isso, tipo como navegar pela adolescência que, para ajudar, veio ao mesmo tempo.

Enquanto outros adolescentes partilhavam segredos a jogar ao verdade ou consequência, nós ficávamos em silêncio. A primeira vez que Alexander contou a um amigo foi quando tinha 14 anos. “Senti-me péssimo depois, como se estivesse a ir contra tudo o que tinha aprendido”, contou-me, com um sotaque agora mais distintamente francês. E acrescentou: “Quando reparei que o meu amigo não acreditou, segui a deixa e disse-lhe que era brincadeira. Não voltei a tentar contar a ninguém até os 21 anos”.

Para mim era fácil manter o segredo... até ficar mocada, aí queria conversar. Arrependia-me sempre, acordava no dia seguinte num poço de ressaca, a morrer de medo do que poderia acontecer por causa do que tinha contado. Mas todos nós, às tantas, transbordamos. Alexander chegou a usar essa carta contra os pais – numa coisa típica de angústia adolescente: “Vocês fodera-me a vida” – apesar de estar ainda mais furioso com o sistema jurídico americano. Para Anna, foi quando ela tinha 12 anos: a sua irmã Claudia já tinha saído de casa quando os pais lhe disseram que se iam mudar de Paris para Amesterdão. “Eu tinha amigos, tinha uma vida”, disse-me Anna. E salientou: “Era toda uma outra língua para aprender. Fiquei muito furiosa”.

Os pais de Anna sentaram-se com ela e explicaram-lhe que o pai era um traficante de erva. Ele disse que toda a gente o fazia nos anos 80 e que, na época, não era nada demais, mas ela não via a coisa dessa forma. “Senti que tinha sido algo muito irresponsável”, assegurou-me, agora que vive como mãe solteira em Nova Iorque. E acrescentou: “Caramba, ele já tinha dinheiro, dois filhos, não era altura de vender drogas”.

Eu costumava imaginar como seria a minha vida se o meu pai nunca se tivesse metido em problemas. Se teria crescido na casa na Califórnia onde nasci, com um lago particular, pavões, quadros do Warhol na parede e dois Corvettes na garagem. Provavelmente ter-me-ia tornado numa miúda insuportável de tão mimada. Mas sim, seria bom descobrir.

Os nossos pais foram caindo um atrás do outro. Em 1996, o meu pai apanhou 10 anos e serviu seis na Califórnia, onde agora reside. Tivemos altos e baixos durante aqueles tempos, mas continuamos próximos. O pai de Claudia e Anna entregou-se depois das miúdas saírem de casa em 2004. Estiveram juntos durante uma semana em Vancouver e choraram quando disseram adeus. Ele fumou um cigarro, queimou as suas identidades falsas, entrou no escritório de imigração na fronteira canadiana e disse: “Vais querer chamar o teu chefe para falar comigo”.

O FBI finalmente localizou o pai de Alexander em 2016. Alexander, agora um video-artista de 33 anos que mora nos arredores de Paris, descreveu o momento como se a sua vida se estivesse a desmoronar. O pai era um cidadão cumpridor da lei e pagava impostos em França há 30 anos e agora era um septuagenário. As queixas acabaram por ser retiradas.

E nós, os filhos – bem, o dinheiro tinha acabado há muito tempo, mas temos as nossas histórias. “Lembro-me de uma vez em que fiquei furioso a ouvir o meu pai a contar outra vez a história sobre fumar ganzas com o Bob Marley ou algo assim. Eu disse 'É por causa disso tudo que temos esta vida'”, conta Alexander, entre risos. E acrescenta: “Mas, eu também sentia admiração. Ele fez tudo o que podia para me dar uma vida normal. Como olho para o que aconteceu? Acho que tudo isto me tornou mais forte”.

Eu não sabia das experiências dos outros até tudo ter terminado e nos reencontrarmos como adultos, unindo-nos em torno desses contos como piadas internas, rindo do absurdo da coisa toda. Não mudaria nada agora se pudesse. Talvez um pouco menos de sofrimento e ter escondido pelo menos um quadro do Warhol.

*Alguns nomes e características foram alterados.


Tyler Wetherall é a autora de No Way Home: A Memoir of Life on the Run (St. Martin's Press, 2018).

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