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Como é o método que pode recuperar o acervo do Museu Nacional

Um incêndio destruiu boa parte das peças da instituição científica mais antiga do Brasil. Agora, pesquisadores usam a digitalização para recuperar o que foi perdido.

Fósseis de dinossauros. Meteoritos. Múmias. Mapas históricos. Livros raros. Artefatos pré-colombianos, africanos e indígenas. Tudo isso e grande parte de um acervo de vinte milhões de peças viraram cinzas durante incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, numa noite de setembro de 2018. Bombeiros e arqueólogos ainda escavam o local para verificar se é possível salvar algo da instituição científica mais antiga do país, mas pouco se sabe do que poderá ser reaproveitado. Enquanto isso, em meio à fuligem, pesquisadores tentam usar tecnologias como para recriar e identificar peças queimadas na tragédia.

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O repórter Felipe Larozza foi até o Rio de Janeiro para acompanhar como cientistas nacionais unem forças para reconstruir peças importantes como o crânio de Luzia, o mais antigo do Brasil, que teve, até o momento, 80% de seus fragmentos encontrados nos escombros do museu. O resultado pode ser conferido no vídeo logo acima.

Exemplo alemão

Não somos os primeiros a tentar reconstruir museus destruídos. Se existe uma nação que é autoridade no assunto, esta é a Alemanha.

O Palácio da Cidade de Berlim, originalmente chamado de Stadtschloss, era um castelo situado no coração da capital alemã. Foi residência dos reis da Prússia, em 1701, e dos imperadores alemães um século depois. A partir da queda da monarquia no começo do século XIX, o palácio virou museu. Não durou tanto tempo quanto os alemães gostariam. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial em 1939, o lugar foi danificado por tiros e bombardeios e, duas décadas depois, os líderes alemães decidiram enfim demolir o combalido local.

Com a reunificação da Alemanha, em 1990, as autoridades reconstruíram o museu. Somente em 2003, o arquiteto David Chipperfield começou uma obra que durou seis anos. A técnica chamada de "restauração complementar" preservou tudo o que restava do antigo espaço e incluiu elementos que harmonizavam com as partes originais.

Após a reconstrução, os alemães viraram símbolo e referência para recuperar museus. Não à toa, após o incêndio do Museu Nacional, a embaixada alemã enviou ao Brasil dois especialistas em busca da restauração. Os europeus prometeram a ajuda de € 1 milhão (cerca de R$ 43 milhões) para a reconstrução, enquanto o Brasil anunciou R$ 10 milhões para as obras de emergência.

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Os especialistas Ulrich Fischer e Nadine Thiel viajaram até o Rio de Janeiro no começo de setembro para avaliar a situação. Depois de analisarem o ambiente, elegeram a técnica de digitalização multiespectral como a mais indicada para reconstruir o museu.

Embora tenha nome complicado, o método não é tão complexo. Ele é baseado na fotografia multiespectral, que consiste no uso do raio ultravioleta junto ao infravermelho. Nada invasivos, os raios fotografam as páginas digitalizadas com comprimentos de ondas diferentes e formam uma foto de dimensão 3D a partir do objeto desejado.

A observação da imagem com a radiação permite identificar o desenho da obra feita pelo artista — um quadro, gravuras de algum monumento ou estatueta — partindo das possibilidades de edição gráfica do objeto.

Parte do acervo de cultura indígena do Museu Nacional foi recuperada por meio desta técnica virtual. A museóloga Fernanda SanSil contou a VICE essa metodologia está sendo bastante aplicada para documentação de acervos. Segundo a pesquisadora, ajuda principalmente no acesso à pesquisa história dos materiais. “Conferir uma réplica digital de uma obra, ou um documento, permite que o pesquisador conheça seu objeto de pesquisa e atende, ao mesmo tempo, a conservação dos originais representando menor manipulação deles”, diz.

Na plataforma da Sketchfab também estão arquivadas algumas fotografias 3D de peças do Museu Nacional que não foram salvas depois do incêndio. A partir da técnica da digitalização, é possível explorar as peças perdidas pelo fogo de maneira online.

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Uma vantagem do conteúdo de acervo ser digital é a segurança. Exemplo disso é o Museu da Língua Portuguesa, que sofreu um incêndio em 2015 e teve toda estrutura abalada. Como a maioria da exposição foi construída a partir de arquivos digitais, as obras possuíam cópias de segurança e sua recuperação não era de alto preço.

Mesmo com a vantagem de preço, SanSil crê que é preciso refletir sobre as limitações dessas novas formas de construir um acervo. “Não devemos concluir que o acervo digital substitua o acervo físico, pois é através do físico que recuperamos todas as informações e detalhes sobre o objeto musealizado.”

Outro problema da digitalização, diz a museóloga, é que o formato do arquivo pode se tornar ultrapassado. “Determinados formatos podem ficar obsoletos em curto espaço de tempo”, diz. “Os formatos, a armazenagem e a leitura de representantes digitais mudam ao mesmo tempo que a tecnologia avança e demandam manutenção constante para revisão e migração para novos formatos e guardas, inclusive dos backups.”

Mesmo com a problemática, o método é considerado um dos mais efetivos na recuperação do museu. Segundo reportagem da UOL, até agora o investimento na digitalização já chega a R$ 445,5 mil. O alto preço se dá por conta do processo de fotografia, escaneamento e armazenamento de documentos.

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