Opinião

Tancos e Energia. Há quem julgue que os portugueses continuam a ser parvinhos de todo

A anedota grave de Tancos e a troca de cadeiras no sector energético, mostram o lado fantasmagórico da República.
18.10.18
pistola de brincar e festa
Não fiques espantado quando ouvires a expressão, "Portugal no seu melhor". (Foto por rawpixel no Unsplash)

Estamos em 2018 e é triste ver governantes a exercerem a sua profissão como se o povo fosse o mesmo dos idos anos 60. Nesses dias, era normal a população dos grandes centros ou longe deles, conviver naturalmente com a desinformação e com as decisões do Executivo - fossem elas quais fossem. A censura não dava espaço para respirar, o índice de escolaridade era confrangedor e a meia dúzia com formação não tinha força para mudar o rumo do País.

Publicidade

Ao pé do que se lê hoje nas redes sociais (que tanto tem de excelência, como de execrável), a opinião pública era inexistente. O que se tem visto no caso Tancos e o jogo de lugares relacionados com o sector da energia, é aterrador. Sinceramente, há quem julgue que os portugueses continuam a ser parvinhos de todo.

Tancos. A hemorragia vai parar com as demissões de Azeredo Lopes e Rovisco Duarte?

cartaz filme Naked Gun

Cremos que já se pode criar o filme "Onde Pára o Exército?". (Foto promocional relativa a "Naked Gun", obra com Leslie Nielsen, de 1988. Cortesia Paramount Pictures)

As forças armadas são, hoje, uma anedota. Muito dessa responsabilidade, passa por quem tutelou a pasta da Defesa e que teve a desfaçatez de afirmar há um ano que "no limite, pode não ter havido furto nenhum". Azeredo Lopes - que "não vê nada" desde a presidência da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (na era socrática) - foi um dos maiores buracos negros de um governo português neste milénio. Só não recebe a medalha de ouro pela incompetência e mau julgamento político da situação em causa, porque a antiga ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, bateu todos os recordes com a catástrofe resultante dos incêndios de 2017.

Com o folhetim de Tancos, é fácil concluir que o encantatório slogan "em defesa da Nação" corresponde, afinal, ao mundo da ficção. Ao sabermos que alguém roubou armas de um paiol, que outros encobriram a devolução e que pode haver muitos cúmplices dentro do organigrama militar, só dá para questionar o seguinte: com uma suposta tropa (amiga e) intruja entre nós, quem precisa de inimigos?

Uma das questões cruciais a que falta responder, é quem politicamente soube da encenação da devolução das armas. Para além do memorando que foi eventualmente comunicado a Azeredo Lopes (um vassalo de quem o nomeou), houve acima dele outros que ficaram a par do sucedido? Será que as demissões do ministro e do Chefe do Estado-Maior do Exército, Rovisco Duarte, são suficientes para parar a hemorragia deste longo processo com estranhos e cómicos desenvolvimentos? É esperar para ver o que dá a corrente investigação.

Energia. Os chineses que compraram Portugal (e a entrada no espaço europeu) por metade do preço - e os menos culpados pela alegada subserviência do Governo

angry birds e a energia em portugal

A saída de Jorge Seguro Sanches e a entrada de João Galamba, na pasta da Energia, traz muita água no bico. O que significa esta "jogada"? (Foto do filme "Angry Birds", em 2016. Cortesia Sony Pictures)

Quando um País está débil nas finanças e põe alguns dos seus principais recursos à venda, tudo é quase imaginável (alguns políticos ralé só não vendem a bandeira de Portugal, porque fica mal e é pouco chique). As estórias avolumam-se e, de quando em vez, somos confrontados com esquemas para estrangeiro sorrir. Antes da primeira quinzena deste mês de Outubro, o relatório da Transparência Internacional, apresentado em Bruxelas, indica que o programa Vistos Gold pode ser um embuste ao serviço de criminosos e corruptos que "possam estar a investir o produto de um crime ou a esconder-se da Justiça". Portugal não é excepção. Os intermediários, esses (entre os quais, as imobiliárias), querem lá saber se a fortuna é ou não lavada, pois o que lhes interessa é que os seus clientes invistam milhões de euros. Há muita gente por cá, mestre em pôr-se de cócoras quando lhe cheira a dinheiro vindo lá de fora.

Num registo aparentemente limpo, mas que deixa dúvidas quando aos benefícios reais para os cidadãos, atente-se para o actual momento do sector energético. Devido ao valor da reversibilidade final dos Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual (CMEC), o Estado tem um diferendo com a EDP (estes reclamam 256 milhões de euros, o estudo da Direcção-Geral da Energia e Geologia diz que o montante a devolver é de 154 milhões). Mais do que entrarmos em pormenores técnicos, note-se que a medida é feita durante o mandato do secretário de Estado da Energia entretanto remodelado, Jorge Seguro Sanches, considerado alguém que percebe da matéria e sem receio em fazer frente a um peso pesado.

Quando se esperava que Sanches fosse o homem certo no posto, a fresquíssima remodelação no Executivo diz-nos que não. O combativo e "jovem turco", João Galamba, é que é a pessoa ideal para a missão, apesar de não lhe serem reconhecidas quaisquer valências na área. Mais. Como Pedro Siza Vieira é o novo ministro da Economia (acumulando com a de ministro Adjunto) e porque no passado assessorou a China Three Gorges, um dos principais accionistas da EDP, decidiu-se passar a pasta da Energia para o Ministério do Ambiente - o objectivo é o de evitar futuros conflitos de interesse. Para adensar o mistério de todas estas mudanças, o Governo nomeou o deputado do PS, Carlos Pereira, para vogal da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), outro nome com um currículo pouco dado a este tipo de assuntos e que, antes de mais, deve ter uma conduta imparcial…

O que pretende realmente António Costa? Na cabeça de muitos (e nem é preciso ter um QI fora do comum), isto é o que se vai passar. António Mexia (presidente executivo da EDP) recebe as ordens dos chineses, passa o memorando para Siza Vieira, este transmite ao amigo Costa que, de seguida, orienta Galamba e o ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, a seguirem determinadas directrizes. Para que tudo seja legalizado nos trâmites oficiais, o regulador - com o "toque" de Carlos Pereira - assobia para o lado. Se algum simpatizante destas trocas governamentais permanecer com dúvidas, é pedir ao Nuno Espírito Santo que lhe faça um desenho.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.