
"Eu realmente sinto muito por não poder mudar o passado. Essa música foi feita há 10 anos, numa época em que se falava muito menos em feminismo do que hoje e, consequentemente, a minha visão do mundo era completamente diferente. Essa letra me foi apresentada como transgressora (eu não era o letrista da banda). Violência de um personagem psicopata com estética de filme de terror. Essa era a desculpa da época. Pura idiotice, ridículo. Não sei como deixei isso passar. Realmente, não tem desculpas. Depois percebi que estávamos na verdade reforçando o padrão machista imposto pelo patriarcado, e que isso é na verdade a base desse 'sistemão' que vivemos. Então, não tem nada de transgressor aí. Definitivamente, não me orgulho disso, muito pelo contrário, morro de vergonha e de raiva de mim. Fui me dando conta disso aos poucos, comecei a falar pros outros integrantes que não queria mais tocar algumas musicas ao vivo, até que resolvi sair da banda. De qualquer forma, não sei como eles tão seguindo hoje em dia, mas imagino que não toquem mais essas musicas também. Na época, eu tinha aproximadamente um terço da idade que o Wander tem atualmente e muito menos acesso à informação do que temos hoje em dia. Acho que eu preferia que alguém tivesse feito uma denúncia, pois realmente demorei pra me ligar. Sei que tamanha besteira não tem desculpa, mas, por isso, fico com os ouvidos abertos pra aprender sobre a luta feminina e errar o mínimo possível. É um constante aprendizado. Tenho humildade pra dizer que eu errei e não apontar esse baita vacilo como um 'mal entendido'. Ainda bem que as mulheres se posicionam cada vez mais. Ainda bem que a casa cai para os homens. Dói pra nós, mas só assim a sociedade evolui. E, por mais que eu esteja sempre me informando a respeito do feminismo, ainda tenho muito o que aprender sobre o assunto. Não espero perdão, mas procuro evoluir todo o dia e contribuir como posso para uma sociedade mais justa. Pelos motivos que citei, obviamente não me sinto à vontade (e nem posso) chamar pra mim o protagonismo dessa luta. E, claro, nem da luta racial. Não tenho conhecimento de causa mas, uma vez que eu era o responsável pelo evento, era meu dever terminar com o show e explicar para as pessoas a razão. Não fiz mais do que a minha obrigação. Não quero 'pagar de bom moço', não quero autopromoção, não quero promover a casa em cima de uma polêmica, mas não é porque eu errei no passado que vou deixar que esse tipo de atitude se propague na Fatiado em pleno 2017, pois, felizmente, nos últimos anos esses assuntos evoluíram numa velocidade incrível. Seguimos aprendendo."
